Sobre Outros Tempos

junho 7, 2011

A brisa da noite remexia preguiçosamente as folhas das árvores. Um assovio gelado arrepiava aqueles que se aventuravam pelos campos. O sol ainda demoraria para surgir no horizonte, mas as sombras dos trabalhadores já se viam aqui ou ali.

Alheio a tudo isso, um cavalo branco trazia em suas costas um grande e pesado cavaleiro. Tigerot vestia uma resistente armadura prateada que lhe protegia todo o corpo. Trazia presa as costas uma pesada espada de cabo escuro, e na mão esquerda um escudo ostentando o brasão da família – o tigre.

Carpejante, o cavalo, aguentava bem o peso do cavaleiro e troteava em ritmo rápido. O homem era alto e truculento, com uma postura ereta para que os cabelos compridos e escuros não atrapalhassem a visão. O semblante era sério, o nariz reto e a barba já estava visível a esta altura do trajeto.

Viajavam rumo ao oeste, sempre com o sol iluminando o seu caminho pela manhã. Eram motivados por uma antiga lenda. Dizia a história que aquele que fosse para o oeste, sempre a oeste, encontraria a mais alta das torres, e no topo da torre estaria a mais bela das princesas. Mas a viagem não seria simples, pois a princesa estava prisioneira. Para salvar a vida de sua mãe, a rainha, seu pai ofertou sua filha para a morte personificada. Esta, encantada pela criança, não a levou para seu reino, mas também não a deixou com seus pais. Ela seria sua, sempre sua. Por isso, até hoje, todos que tentaram tirá-la da torre encontraram sua madrasta pela estrada. Tigerot sonhava não repetir a história.

Já seguia a mesma rota há quatro dias e, pelo que se sabe, ainda faltavam dois. Ainda possuía provisões, mas não via nem sinal da torre. Cumprimentou os camponeses pelo caminho e viu sua sombra começar a se projetar logo a sua frente. O dia começava.

Estava em um campo aberto, pelo meio da manhã, quando percebeu algo estranho. A sua sombra não estava normal. Parecia ligeiramente acima do chão, como se quisesse se desprender. Movia-se como um lenço ao vento, ondulando-se pouco a pouco. Tigero voltou os olhos para a estrada e percebeu uma figura coberta de negro, empunhando uma enorme foice. Exibia um largo sorriso, com todos os dentes muito brilhantes logo abaixo de dois olhos vermelhos que brilhavam sob o capuz.

Subitamente a sobra do cavaleiro se desprendeu do chão, formando uma cópia exata e escura do mesmo. Passaram a cavalgar lado a lado. Tigerot apenas observava, até que seu rival começou a desembainhar a espada.

O original imitou a cópia e começaram a se digladiar. Faíscas voavam a medida que os metais se chocavam. Escudos defendiam, quando não a própria espada era usada para tal. Carpejante corria veloz, disputando consigo mesmo, tentando ajudar como podia. Em um daqueles casos em que a sorte ajuda mais do que o talento, os duelistas adentraram em uma floresta. Não demorou para Tigerot perceber a fraqueza de sua sombra quando longe da luz. Era óbvio, não existe sombra sem luz para projetar. Embrenharam-se na mata e, na total escuridão, a espada prateada perfurou a armadura negra. O vencedor sorriu ao ver o inimigo sumir como fumaça no ar.

Bebeu um grande gole d’água, alimentou o parceiro e prosseguiu viagem. A floresta era densa, difícil de cruzar montado. No chão, o cavaleiro puxava o animal e prosseguiam lentamente. Não havia nenhum sinal de perigo, mas os caminhos pareciam todos iguais. Depois de algumas horas Tigerot percebeu que andando apenas em linha reta estava andando em círculos.

Buscou uma rota alternativa e permanecia voltando ao mesmo lugar. Estava preso na floresta. Optou por algo diferente e começou a andar de costas. Foi difícil, especialmente considerando que precisava manobrar Carpejante, mas após cair e se machucar algumas vezes pôde, finalmente, se ver livre da floresta.

Cavalgou ainda por algumas horas e dormiu sob o abrigo de algumas rochas. Teve um sono perturbado e nem um pouco reparador. Um cavaleiro sem cabeça, com chamas saindo do pescoço o perseguia. Gritos desesperados ecoavam por todos os lados. A voz dos pais chamavam seu nome. Sua pele ardia, sua cabeça doía, se sentia preso e impotente. Acordou cansado, cedo, mas aquele seria o último dia daquela jornada.

Retomou a estrada pouco antes do sol nascer, e após subir um monte pôde avistar a torre. Era imensa, localizada no alto de um rochedo, a beira do mar. Uma construção fina, feita de pedra, com poucas janelas. Em frente a porta era possível ver a figura de manto negro.

Carpejante começou a correr, aquele seria o último confronto. Com um gesto rápido, o manto da morte se abriu e tomou a forma de duas grandes asas. O corpo, outrora escondido, agora se revelava extremamente magro e completamente branco. Os membros eram longos e afinados. Ao ser jogado para trás, o capuz revelou um rosto cadavérico. Cabelos negros caíam desgranhados por frente dos olhos vermelhos. Eram o único indício de pelos por todo o corpo. Além disso, a estranha criatura não possuía nenhum sinal que lhe pudesse distinguir o sexo.

Com um rápido movimento um grande foice surgiu em suas mãos. Tigerot desembainhou a espada. As grandes asas negras e escamadas, que nada mais lembravam o antigo manto, começaram a bater com potência, levantando voo. O duelo final começou.

Tigerot estava em clara desvantagem. Seu adversário era mais rápido, mesmo com uma arma maior e mais pesada. E voava, podendo desviar e atacar com muito mais facilidade. O escudo do cavaleiro sofria pancadas violentas e sua espada mal conseguia ser usada para desviar alguns golpes.

A morte era violenta, rápida e precisa. Carpejante corria desesperado. Descer d cavalo poderia facilitar os movimentos, mas tornaria o homem um alvo fácil. Não sabia bem o que fazer, previu o seu fim.

Entretanto, em um rápido olhar para a torre, tudo fez sentido. Pelo pequena janela apareceu a princesa, olhando por ele. Seus longos cabelos ruivos destacavam os belos olhos azuis. Os contornos de seus rosto pareciam tão angelicais que em nada impressionava terem acovardado a morte de cumprir seu trabalho.

Devido a sua distração, com o cabo da foice a morte jogou para longe o escudo de Tigerot. Abriu a guarda em um movimento ousado, que, se bem executado, cortaria o cavaleiro em dois. Aproveitando dessa abertura, porém, este transpassou-lhe a espada pelo peito nu. Por um momento o tempo pareceu congelar.

A ameaçadora figura desapareceu. O cavalo parou. O cavaleiro, exausto, desceu e se dirigiu até a torre. A porta se abriu pelo lado de dentro. A figura que apareceu era, sem sombra de dúvidas, a mesma morte que estivera enfrentando até momentos atrás. Agora, porém, seu rosto era visivelmente feminino, os cabelos estavam longos e lisos, em um corte reto. Ela sorriu, com carinho, e desapareceu no ar, deixando a escadaria livre.

Tigerot subiu as escadas lentamente. Estava cansado, mas sorria também. Não teve pressa. Chegou até a porta do quarto e entrou sem bater.

A princesa o aguardava, solene. Ele se ajoelhou aos seus pés, beijou sua mão, olhou em seus olhos e declamou:

- Minha doce princesa, musa dos meus sonhos, razão da minha jornada. Sou Tigerot, da casa de Feliseu, fiel servo do rei na Terra e de Deus no céu. Viajei seis dias, enfrentei demônios, labirintos e toda sorte de tormentos e pesadelos. Então, minha senhora, gostaria de saber a verdade, do fundo da sua alma. Não minta, nem desvies o olhar, pois preciso da verdade. Se no alto da mais alta árvore, situada no mais alto monte, houver um coqueiro com um coco. E por força do destino, da natureza ou do nosso Senhor, este vier a cair. Rola ou não rola?

- Nobre cavaleiro, reconheço o seu valor e agradeço seus esforços. Mas este fruto, assim como qualquer outro, não rola e em nenhum outro momento virá a rolar.

Sobre Sapatos

junho 2, 2011

Desligou o despertador em gesto mecânico. Levantou no piloto automático. Acordou com a água do chuveiro. Saiu do banho, vestiu a camisa, as calças e os sapatos. A camisa era nova, verde clara, bonita. Os jeans já eram um pouco usados, mas de bom aspecto. Mas os sapatos… ah, os sapatos. Os anos desbotaram o preto, dobraram o couro, tiraram seu brilho. Ainda era um sapato bonito, mas não podia esconder a idade.

Comprou o par havia quase sete anos. Era verão e seu irmão ia casar. Não precisava de um sapato novo, mas estava passando em frente a loja e o viu na vitrine. Sapato preto, couro, bico quadrado, sem cadarço. Entrou, provou, comprou.

Usou no casamento, mas ninguém comentou. Não que estivesse esperando comentários. Ninguém comenta sapatos masculinos, por mais bonitos que sejam. Na verdade, nunca comentavam suas roupas. Sua gravata caía muito bem pelo peito.

Mas era um sapato bonito demais, não para usar no dia-a-dia. Ficou no armário até o dia da colação de grau, cerca de sete meses depois. Terminou o ensino médio com louvor, riu das colegas com dificuldade em arrumar vestidos e se equilibrar no salto. Estava feliz por seus sapatos.

Começou a universidade, curso de administração. Mais estudos, mais festas e uma rápida visita ao tribunal. O juiz não se importou com os sapatos, mas não gostou do cabelo arrepiado. O caso não gerou nenhum problema futuro.

Na formatura os pais, os amigos, os colegas e os sapatos. As roupas eram elegantes, já mantinha o cabelo arrumado e curto. Estava adentrando, oficialmente, ao mundo adulto. Sem o menor preparo, logicamente.

Abriu o próprio negócio. Teve prejuízo, se recuperou, lucrou. Começou a viver. O sapato acompanhou seus grandes momentos. Grandes festas, reuniões e eventos. Alugou um apartamento pequeno, no centro da cidade. E olhou seus sapatos. Ainda bonitos, elegantes, com o aspecto de um velho veterano de guerra, que não mais ostenta a força de antigamente, mas jamais perde a imponência. Era hora de dar uma nova carreira ao par. Não era nenhuma situação especial, mas era um sapato bonito, e merecia ser usado. O telefone tocou, cortando seus pensamentos.

- Alô? – Era a voz do irmão do outro lado da linha

- Oi, já estou descendo.

Chegou no térreo, o carro já estava parado. Entrou. O irmão sorriu.

- O que foi?

- É a primeira vez que te vejo usar esses sapatos com uma roupa comum. Sempre achei que combinava mais com os vestidos. Porque a mudança, Fernanda?

Ela apenas sorriu. As vezes as pessoas comentam sapatos masculinos.

Sobre Super Poderes e Grandes Metrópoles

março 31, 2010

A cidade grande, apesar de todas as suas vantagens e privilégios, ainda apresenta uma grande desvantagem: A criminalidade. Milhares de pessoas dispostas apenas a fazer o mal.

Mas a cidade também possui meios de se proteger. Em meio às trevas, eis que surge ele! O justiceiro dos fracos! Defensor das minorias! O Super-Vítima!

Ao menor sinal de preconceito o Super-Vítima ativa seus poderes e causa uma verdadeira revolta popular.

-… Aí eu bati naquele preto desgraçado…

- Força da consciência!

E um preconceituoso a menos.

-… Cara, atirei sem dó naquele veado. Merecia morrer.

- Homopower!

E a justiça estava feita.

Mas nem tudo são flores. O Super-Vítima possui inimigos mortais. O Capitão-Contexto, por exemplo. Seus super poderes malignos fazem com que as forças da lei mudem de posicionamento. Nosso herói acaba ficando sem credibilidade.

- Eu tava no fliperama ontem, jogando aquele jogo de corrida. Tava em primeiro com o carro azul, mas aí bati naquele preto desgraçado e perdi na reta final.

Inocentado.

-Eu cometi um erro grave. Saí pra caçar com a camionete da floricultura e não vi que tinha uma encomenda atrás. Tava lá procurando os veados e, quando percebo, tem um comendo as flores da minha mulher. Cara, atirei sem dó naquele veado. Merecia morrer. Minha mulher ta triste até agora por causa das flores.

Inocente!

Os poderes do Capitão-Contexto também ajudam a desmascarar chefes que não empregam minorias porque eles não apresentam sequer os requisitos mínimos para o cargo.

Impede processos contra professores que dão notas ruins aos alunos que não estudam e não vão bem na escola. Enfim, se o contexto está por perto nada é como deveria ser. O Super-Vítima tem real dificuldade em mostrar todo o preconceito que existe em todos os casos. Todos. Sem exceção alguma. É sempre preconceito.

Sobre Paisagens

março 24, 2010

A grama verde se estendia esburaca e enlameada por um longo trecho. Três grandes árvores surgiam no gramado, tão próximas que pareciam apenas uma. Ao seu lado os dois prédios lembravam que aquele ainda era um cenário urbano. As calçadas ainda estavam molhadas da chuva recente. Os bancos que deveriam estar por lá também estavam na grama, molhados.

O céu ainda estava completamente cinza e com aspecto de chuva futura, mas não imediata. O vento forte agitava as folhas, bagunçava cabelos, assustava e apressava as pessoas. Menos uma pequena figura.

Sentado em uma longa arquibancada de concreto, completamente molhada, isolado do mundo, estava um garoto. Vestia roupas um tanto quanto elegantes demais para a situação em que se encontrava. Uma das mãos servia de apoio, sem se importar com a umidade do local, a outra segurava uma garrafa de vinho tinto barato que constantemente subia até a boca. Dentre os inúmeros pensamentos que se passavam na sua mente, o mais marcante ainda era a vontade, o desejo profundo de eternizar aquela paisagem, aquele momento, de alguma maneira. Qualquer maneira.

Sobre Esperança

março 17, 2010

Por vezes a verdade é algo simples demais para que acreditemos nela. A necessidade absurda de fugir do óbvio prende a humanidade em paradoxos e dilemas que jamais teriam existido não fosse a dúvida.

Mas a verdade – e por “verdade” entenda-se “realidade dos fatos” – é que Ângela estava em um lugar melhor. Um campo florido cheio de pessoas alegres e cantantes. Tudo era paz, harmonia e felicidade, mas fugia completamente do tédio. Na verdade tal alegria ocupava todo o tempo e todo o espaço.

No mundo físico, onde a “vida continua”, as pessoas ainda sentiam falta da menina. E cada vez que alguém pensava nela, uma estranha sensação de satisfação a invadia. Ela não sabia bem como ou porque, mas era como as coisas funcionavam.

Isso ocorria porque cada pensamento, saudade, sentimento, enfim, cada lembrança significava um sopro de vida eterna. Enquanto houvesse falta haveria existência. Algumas almas continuavam eternas por muito tempo, outras por pouco.

Outro conceito que deve ser levado em conta no pós-vida é o perdão. Afinal, todos os que terminam a vida merecem descanso e alegria. Até mesmo os mais cruéis em vida acabam aproveitando por muito tempo, pois alcançaram seu objetivo: registraram seu nome na história.

Por vezes a eternidade acaba sendo interrompida. Porém, por mais óbvio que possa parecer, é sempre bom lembrar que a eternidade é eterna. Cedo ou tarde todos terminam bem. Quando não estão sendo lembrados ficam em uma espécie de semi-existência, apenas esperando sua chance de voltar.

E é bem assim que acontece. Tudo acaba bem. Ângela está bem. Todos estão bem. A vida pode ter terminado, mas a existência não.

Sobre o fim

março 10, 2010

Ângela era uma garota comum. Bonita, alegre, às vezes teimosa. Tinha lá seus dezesseis anos incompletos. “Tinha” porque agora estava morta. Atropelada. Mais um número para as estatísticas.

Seus pais estavam acabados. A fé – outrora inabalável – do pai lhe faltava, fazendo pensar se aquele era mesmo o Deus justo e bondoso que ele conhecia. Isso é, se ele ainda estivesse realmente acreditando neste Deus. A mãe, por outro lado, rezava. Rezava pelo bem da filha que agora descansava na sua frente. A filha que não ia mais levantar, independentemente de quantas preces fossem feitas. O irmãozinho, também presente, não acreditava no que via. Sempre implicou com a irmã. Agora era real a idéia de não tê-la mais por perto. E doía. Doía muito.

Os amigos sofriam também. Até os menos chegados sentiam o golpe. Ela era muito nova, eles também. Palavras de dor e consolo eram trocadas em meio a lágrimas. Mas nada daquilo a traria de volta. Ela iria para baixo da terra e de lá não sairia nunca mais.

Longe do funeral, um homem chorava. Era o motorista. Não dormia desde o acidente e a situação se prolongaria por dias. A culpa atravessava seu peito tal qual um punhal. Suava frio e tomava remédios, pequenas pílulas de alegria momentânea. Tinha o apoio da família e dos amigos, mas isso não diminuía a culpa e ele sabia disso.

Mas o tempo passou. Dias, meses, anos. A pequena família seguiu sua vida com um retrato que jamais envelheceria na parede. A mãe nunca mais se preocupou em preparar um segundo prato para alguém que não quisesse comer peixe. O pai não trouxe mais salgados da padaria na volta do trabalho. O irmão ganhou um quarto só seu, e nunca descobriu que batendo na parede atrás do armário causa um som engraçado.

Os amigos terminaram a escola, e nenhuma aluna usou um vestido verde que se destacaria por anos. E nas reuniões e festas dos amigos nenhum inventaria uma piada tão genial quanto à dos sucrilhos. Isso porque a garota que inventaria a piada não estava ali. Outra pessoa assumiria seu lugar na universidade. O garoto da sua vida estaria com outra e o emprego perfeito não teria a pessoa perfeita.

Porque tudo o que começa está fadado a terminar, e quando termina deixa apenas o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Sobre Ligações

março 3, 2010

- O corpo foi encontrado no rio. Além de rígido e gelado, apresentava diversas manchas arroxeadas deixando evidente que antes da morte a vítima fora agredida fisicamente.

A localização dos hematomas permitia descobrir que a arma usada não provocava cortes, sendo, na verdade, um taco de beisebol comprado fora do país há anos atrás.

Como bem se sabe o país em que o beisebol é mais popular são os Estados Unidos da América. Dentre outros aspectos são conhecidos também pelo seu poderio bélico e econômico, sua língua, e seus filmes.

Grande parte dos filmes são produzidos em um local chamado Hollywood. Megaproduções bilionárias sobre os mais diversos temas são lançados anualmente. O local é responsável por ter marcado gerações com seus estilos. A geração dos anos 80, por exemplo, foi muito marcada por filmes de terror de última geração, mas que atualmente parecem piada.

Assim como os cantores de hard rock da época, que embora fossem vistos como símbolos máximos de virilidade, hoje passariam vergonha com suas roupas justas de couro, cabelo comprido e maquiagem.

Cabe lembrar que a evolução do mundo da música não foi para um caminho tão distante disso, tendo em vista que a cada dia mais os cantores adquirem trejeitos femininos.

Felizmente os direitos adquiridos pelos homossexuais garantem relativa paz e tranqüilidade a quem quer que seja.

Por outro lado, na prática, ainda existe muito preconceito por parte da população que não os respeita, agredindo-os às vezes inclusive com tacos de beisebol.

Sendo assim, tendo sido apresentados os fatos e as evidências, conclue-se que a culpa seja do Mario.

- Que Mario?

Sobre Desafios

fevereiro 24, 2010

O calor que emanava das pessoas se recusava a sair do ônibus fechado. O ar condicionado certamente estava estragado e as janelas não podiam ser abertas. Ainda faltava muito para chegar e Josué sabia disso.

Uma criança chorava histericamente na frente do ônibus enquanto o cheiro do banheiro incomodava ainda mais quem estava no fundo. Aparentemente uma das rodas estava com problemas, pois o balanço era intenso.

Duas senhoras de idade conversavam animadamente em suas poltronas. Aparentemente um grave problema auditivo afligia ambas, visto que praticamente gritavam para se comunicar. Josué estava adorando ouvir as aventuras e possíveis fantasias das colegas de sua avó, mas certamente preferia ter sentado em um formigueiro.

Havia também um empresário muito nervoso, falando alto e gesticulando. A negociação não parecia estar indo bem, e diversos números confusos eram gritados a todo o momento. Ao lado de Josué estava um sujeito normal. Vestia calças jeans, tênis, camiseta e fumava. Fumava. No ônibus. Fechado.

Quando a situação – que se estendia havia horas – parecia não poder piorar, eis que algumas crianças começam a cantar em voz alta, quase gritando. E seus pais sequer se moveram.

Josué estava no limite. Aquilo era o cúmulo. A viagem não poderia durar mais dessa maneira. Levantou-se rápido e gritou:

- Para de fumar aqui dentro! E você, faz essa criança calar a boca! Vocês no fundo fiquem quietos também! E senhoras, ninguém realmente quer ouvir suas conversas intimas, mas todos estão! E desligue a porcaria desse celular!

Instaurou-se o silêncio. O ônibus parou. A porta se abriu e a luz queimou todos os passageiros. Por enfrentar seus demônios Josué podia entrar.

Sobre Decisões

fevereiro 17, 2010

“Essa noite não” foi o que pensou. Estava cansado daquela situação e decidiu que era uma boa hora para mudá-la. Não que estivesse ruim, pelo contrário foi bom. Ainda era bom. Mas o destino de qualquer coisa que comece é terminar um dia.

Nada que tenha atrapalhado ou forçado a situação. Ele simplesmente cansou. Não aguentava a mesmice. As mesmas coisas nos mesmos lugares todas as noites. Não, aquilo não era para ele. Precisava variar, precisa respirar, precisava de ar!

Se os outros discordassem, tudo bem. Se quisessem fazer algo a respeito, que tentassem. Algumas decisões – embora não tão importantes – simplesmente não podem voltar atrás. Essa não era hora de pensar, mas de agir.

Havia uma grande festa na boate mais badalada da cidade naquela noite. Era o momento ideal. Ligou para todos os seus amigos, sem se importar com a possível reação deles. Estava decidido. Para todos disse exatamente a mesma coisa: Não vou sair hoje, para de chamar!

E dormiu feliz.

Sobre Locais

fevereiro 10, 2010

As estrelas brilhavam forte no escuro céu sem nuvens onde a lua cheia completava o quadro. O vento assoviava sua antiga canção. E um vagabundo andava sem rumo pelas ruas desertas da cidade.

Seu andar era despreocupado, seus olhos se perdiam no céu e seus pensamentos estavam embaralhados – talvez por álcool. Dobrando em um beco qualquer que ficava logo após a quarta parede, ele se deparou com um muro. Neste muro havia um luminoso letreiro anunciando “O Teatro Mágico”. A entrada, segundo o anuncio, era apenas para “raros”. Ele não sabia o que aquilo significava, e não queria saber. Aquele não parecia ser o seu lugar.

Deu a volta e andando mais um pouco foi abordado por uma velha senhora. Ela se apiedou da situação do andarilho e ofereceu casa na mansão Canterville, onde morava sozinha. O convite foi gentilmente recusado, pois a estranha atmosfera da casa não agradou em nada.

Após mais andanças ele se viu parado perante uma tal de livraria Sempere; fechada, obviamente. Aquele local parecia bom, mas havia outro homem por ali e a regra era clara. Quem chegava antes ganhava o lugar.

A próxima parada foi dentro de uma antiga construção. Era grande, com muitos quartos e salas, porém um grande incêndio destruiu completamente o lugar. O que outrora fora um internato não passava de escombros e memórias.

Saindo da cidade ainda se deparou com um hospício destruído. O local era muito bem cercado e protegido, porém por dentro as condições eram péssimas. Havia tanta sujeira e desordem que tornava difícil acreditar que alguém poderia viver ali.

Não tendo se decidido por lugar algum para ficar, o giramundo pegou a estrada de tijolos e seguiu para além do arco-iris, tentando chegar em casa.


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