Sobre Locais

fevereiro 10, 2010 por Arthur Losquiavo

As estrelas brilhavam forte no escuro céu sem nuvens onde a lua cheia completava o quadro. O vento assoviava sua antiga canção. E um vagabundo andava sem rumo pelas ruas desertas da cidade.

Seu andar era despreocupado, seus olhos se perdiam no céu e seus pensamentos estavam embaralhados – talvez por álcool. Dobrando em um beco qualquer que ficava logo após a quarta parede, ele se deparou com um muro. Neste muro havia um luminoso letreiro anunciando “O Teatro Mágico”. A entrada, segundo o anuncio, era apenas para “raros”. Ele não sabia o que aquilo significava, e não queria saber. Aquele não parecia ser o seu lugar.

Deu a volta e andando mais um pouco foi abordado por uma velha senhora. Ela se apiedou da situação do andarilho e ofereceu casa na mansão Canterville, onde morava sozinha. O convite foi gentilmente recusado, pois a estranha atmosfera da casa não agradou em nada.

Após mais andanças ele se viu parado perante uma tal de livraria Sempere; fechada, obviamente. Aquele local parecia bom, mas havia outro homem por ali e a regra era clara. Quem chegava antes ganhava o lugar.

A próxima parada foi dentro de uma antiga construção. Era grande, com muitos quartos e salas, porém um grande incêndio destruiu completamente o lugar. O que outrora fora um internato não passava de escombros e memórias.

Saindo da cidade ainda se deparou com um hospício destruído. O local era muito bem cercado e protegido, porém por dentro as condições eram péssimas. Havia tanta sujeira e desordem que tornava difícil acreditar que alguém poderia viver ali.

Não tendo se decidido por lugar algum para ficar, o giramundo pegou a estrada de tijolos e seguiu para além do arco-iris, tentando chegar em casa.

Sobre Encontros

fevereiro 3, 2010 por Arthur Losquiavo

Cinco pessoas bebem em um bar, na beira da estrada, no meio do deserto, durante a tarde.

O primeiro é um homem baixo, atarracado, com uma cicatriz no rosto e um vasto bigode. Seu nome era Billy. Vagava por aí de bar em bar pela noite, atrás de cerveja e mulher. Parou ali durante a tarde apenas porque tinha sede. Não pretendia ficar muito tempo.

O segundo é um homem alto e gordo, de sobrancelhas finas, olhos miúdos e rosto bem redondo. Steve, o xerife local. Passava os dias no bar jogando conversa fora. Nada realmente acontecia naquelas bandas.

A terceira é Millena. Única mulher no bar aquela hora. Seu carro estragou na estrada, ela encontrou o bar, usou o telefone e agora esperava pacientemente o mecânico. Apesar do nariz comprido, as belas curvas da jovem atraiam os olhares dos outros.

O quarto é um garoto muito magro. Apesar do calor, usava uma camiseta de mangas longas. Era muito pálido e apresentava um aspecto de doente. Chegou no bar andando e desnorteado. Seu nome é Jim.

O último é Joe, o dono do bar. Um sujeito um tanto quanto velho, mas ainda em boa forma para manter o local livre de arruaceiros. Morava a alguns quilômetros do local, e as vezes sequer voltava para casa.

Juntos, os cinco não tem nada em comum.

Sobre Inspiração

janeiro 27, 2010 por Arthur Losquiavo

- Sobre o que você quer conversar?

- Então, cara, estou com um problema no trabalho.

- Trabalho? Ok, vamos supôr que seus livros te sustentem, e aí? É a editora?

- Nem vou responder, ta? E não, não é a editora, sou eu.

- Crise criativa?

- Antes fosse! Eu tenho mil ideias borbulhando, mas não posso usar nenhuma.

- Me esclareça.

- Eu estou apaixonado!

- E?

- Como “e?”?

- Sim, isso não me diz nada.

- Só tenho ideias pra romances, cenas bonitas, diálogos melosos. Não tenho cabeça pra terror, mistério e tudo o que eu escrevia antes.

- E qual o problema em escrever romances?

- Aí o problema é a editora. Eles estão cheios de romancistas, não querem mais um.

- E porque não disfarça o romance?

- Disfarçar?

- É, faça um crime. Aí o detetive se apaixona e tal. Só não mude muito o foco da trama, use essa desculpa apenas pra usar suas cenas, extravasar sentimentos.

- Mas eu nem sei como começar!

- Não tem nenhuma experiencia que possa se basear?

- Experiencia?

- Sei lá, nunca presenciou um assalto, ouviu alguma história e quis ver o desfecho?

- Hum… Isso me dá uma ideia.

- Boa ou ruim?

- Você não vai gostar muito, mas o livro vai fluir muito rápido.

- Puxa, e o que é?

No dia seguinte foi encontrado um corpo flutuando no rio.

Sobre Medo

janeiro 20, 2010 por Arthur Losquiavo

As nuvens densas escondiam as estrelas naquela madrugada fria. O assovio de vento que precedia a tempestade entrava pelas frestas da janelas. Dentro da pequena cabana a jovem Beatriz acendia uma vela.

A luz bruxoleante revelara o interior da pequena casa, que não continha muito mais do que uma cama, um banheiro, uma mesa e uma pequena cozinha. Devido ao adiantado da hora, a menina foi se deitar.

Enquanto o sono não vinha ela prestava atenção nos sons do vento. Era um assovio calmo, quase musical. As sombras da vela faziam agradáveis desenhos na parede, mas, subitamente, o cenário mudou.

Um forte vento, quase um grito, escancarou a janela e apagou a vela. Beatriz se assustou e levantou em um pulo. Foi até a janela, mas quando ia fechá-la ouviu uma voz muito nítida chamar o seu nome. Se virou depressar, mas não havia ninguém ali.

Fechou a janela e acendeu a vela novamente. O assovio do vento se misturou novamente à estranha voz que ainda chamava seu nome. Um estranho barulho que ela não identificou completava a macabra sinfonia.

Entrou no banheiro para lavar o rosto. Apoiou a vela na janela e jogou água no rosto. Não sabia porque, mas fazia isso quando estava nervosa. Se olhou no espelho e percebeu algo que a apavorou ainda mais. Havia uma sombra em seu reflexo, mas o único ponto luminoso estava nas suas costas. O barulho de difícil identificação ficava mais alto. Ela se virou, mas não havia nada ali. Saiu da frente do espelho, mas a sombra continuava a ser refletida.

Beatriz pegou a vela e correu para fora de casa. O vento ainda a chamava e logo apagou a vela, que foi deixada pra trás. Ela correu o quanto podia. Se apoiou em uma árvore para descansar. Virou-se para ver a cabana e gritou. O barulho misterioso era o arrastar de correntes.

Sobre Batidas e Besouros Para Ninguém

janeiro 13, 2010 por Arthur Losquiavo

O sol nascia ao longe, entrando pelas frestas da janela mal fechada. Uma terrível dor de cabeça confundia ainda mais as frases desconexas que insistiam em voltar da noite anterior. Ele permaneceu deitado, enquanto ela se dirigia lentamente ao banheiro; na sua própria casa, do outro lado da cidade. Suas mãos não borraram a maquiagem, embora uma lágrima tenha escapado. Uma lágrima para ninguém.

Ele levantou, coçou a cabeça e olhou pela janela. Pensava nela, nos seus braços, seu cheiro, seus olhos. Ela não estava falando sério. Ela voltaria para ele, só precisava de um tempo. Ela precisava dele. Mas ela preparava um café, com o olhar perdido. Outra lágrima escorregou, embora não houvesse motivos para isso. O amor que deveria ter durado anos estava morto.

Pela janela ele pôde vê-la passar. Ele liga, ela atende. Ela fala rápido e é bem direta: A pessoa que ela conheceu não está mais lá. Ela não precisa dele.

O sol nascente piorava a dor de cabeça. Ele ainda não sabia, mas aquelas palavras ecoariam por muito tempo em suas memórias mais profundas. Ele não a esqueceria.

No ônibus ela deixava outra lágrima cair ao ouvir o refrão da música que tocava. Nenhum sinal de amor atrás das lágrimas choradas por ninguém. Um amor que deveria ter durado anos.

Sobre Solidão

janeiro 6, 2010 por Arthur Losquiavo

Ernesto acordou ao som de seu despertador. Sete da manhã e ele precisava trabalhar. Por morar sozinho as suas manhãs seguiam sempre o mesmo padrão de banho, comida e rua. Nada de extraordinário ocorreu durante o banho ou sua refeição matinal, exceto por um incomum silêncio.

Ao colocar o pé para fora de casa é que Ernesto se deu conta do absurdo. A cidade simplesmente estava vazia. Nenhuma viva alma na rua. Sequer uma alma morta arrastando correntes. Nada.

A principio Ernesto pensou que acordara cedo demais, mas nem os relógios e nem o sol concordavam com ele. Sem saber o que se passava, ele começou a ir em direção ao trabalho.

Morar perto sempre foi uma vantagem. Nem dez minutos eram necessários para vencer o trajeto de poucas quadras. Além do mais ele conheceu muitas pessoas nesse pequeno trajeto. Diariamente cumprimentava os mesmos trabalhadores abrindo as mesmas lojas, e, geralmente até os pedestres eram os mesmos.

Mas nesse dia não havia nada disso. A palavra “vazio” seria muito bem empregada, embora “deserto” também ajudasse. Muito estranho. Até porque as segundas-feiras costumavam ser agitadas. Logo as engrenagens começaram a rodar na cabeça do jovem Ernesto. Ele chamou um nome e apenas o eco lhe respondeu.

Correu até a empresa e confirmou sua teoria, ela estava fechada. Nenhum aviso. Nenhum funcionário. Andou por mais algumas ruas e percebeu que estava só. A conclusão disso tudo era óbvia: A humanidade havia desaparecido.

Sendo ele o único ser humano existente no planeta, Ernesto fez o que qualquer um faria. Primeiramente retirou a gravata, nunca mais usaria aquele incômodo. Desabotoou um pouco a camisa e foi procurar uma revendedora de carros. Se quisesse montar a casa dos seus sonhos para desfrutar um pouco a liberdade antes de procurar os seres humanos ele precisaria de um veículo.

Encontrou uma revendedora e, sem a menor cerimonia, atirou uma lata de lixo contra o vidro, abrindo assim sua passagem. O alarme disparou, mas isso não preocupava Ernesto, o último ser humano do planeta. Foi logo para o balcão procurar as chaves dos carros e escolher os modelos. Levou alguns minutos nessa tarefa.

Neste meio tempo a polícia entrou no lugar e o prendeu. Nem eles entenderam direito o que acontecia por lá. Após o feriado da sexta-feira aquele domingo já começava mal…

Sobre Lutas Seculares

dezembro 30, 2009 por Arthur Losquiavo

De um lado o cais deserto; do outro um navio lotado de piratas sedentos por uma boa briga. A cidade havia sido evacuada. Somente aqueles dois grupos distintos permaneciam para colocar um fim a pergunta: Quem vence uma luta entre ninjas e piratas?

Subitamente, do cais deserto começaram a surgir sombras ultravelozes. Guerreiros vestidos de preto dos pés a cabeça, mestres na arte da camuflagem e infiltração. Todos armados com suas lâminas, correntes, bombas e toda sorte de cordas. Aquele era o confronto final.

No navio esperavam seus desafiantes portando sabres, revolveres e bem abastecidos de rum. Nem todos tinham duas pernas ou dois olhos, mas a sede de sangue era a mesma. Diferente dos ninjas, os piratas não seguiam um código de honra e sequer tinham um plano de luta.

Se o despreparo tático parecia um problema, logo se provou o contrário. Cada pirata correu para um lado, atrás do seu alvo, sem prestar muita atenção nos seus companheiros. A cada ninja morto a estratégia se fragilizava mais. Eles esperavam que os piratas se dispersassem, mas não contavam com mortes tão rápidas.

Acontece que a luta se dava no navio, “arena” dos piratas. Eles conheciam cada tábua daquele chão. Sabiam dos perigos de cair no mar e como derrubar alguém no mar. Talvez se a luta se desse durante a noite os ninjas levassem a melhor. A situação influenciava muito no resultado.

Em determinado momento – provavelmente devido a embriaguez – um pirata começou a gritar. Se perguntava o motivo daquela briga. E ele tinha razão, não havia real motivo para brigar. Eles apenas estavam jogando vidas fora enquanto sanavam uma dúvida idiota. Felizmente uma espada logo atravessou o tórax desde filósofo e nenhum companheiro de mar lamentou a morte do maricas.

A luta seguiu seu rumo por horas, até o sol começar a se pôr. Haviam ainda algumas dezenas brigando, quando algo chamou a atenção de todos. Era um som seco, ritmado, rápido, vindo do oeste. O sol poente alaranjava o céu permitindo identificar apenas a sombra dos quatro viajantes. Seus chapéus, lenços e roupas não permitiam que muito fosse identificado.

Ninjas e piratas correram para acabar logo com a interrupção. Não seriam quatro viajantes que impediriam a dúvida de ser sanada. Porém, quando o exército se aproximava, os quatro se mostraram prontos para o combate com revólveres e carabinas. Seus cavalos calmamente desviavam dos corpos já sem vida pelo chão.

Não restam dúvidas: Cowboys sempre serão melhores que ninjas e piratas.

Sobre Fragmentos de Diário

dezembro 23, 2009 por Arthur Losquiavo

E então aconteceu, não? O último ser humano perdeu seu cargo. Somos, oficialmente, a raça inferior. Temos pouco tempo antes de nos tornarmos estorvo e sermos destruídos. Expulsos do nosso próprio planeta pela nossa própria criação.

Tudo começou tão simples, um telefone, um carro, um computador, inteligencia artificial. De repente o milagre da robótica! Os robôs poderiam trabalhar no lugar dos humanos, que aproveitariam o descanso. Há! Até parece. Os gênios que contratavam robôs deixavam de pagar os humanos. Brilhante, lindo! Logo a sociedade foi se dividindo novamente. Não entre ricos e pobres, mas entre milionários e miseráveis. Sem meio termo.

Eu já sabia que nosso sistema econômico era falho, mas não esperava tanto. Com a evolução da inteligência robótica os cargos públicos passaram a ser ocupados por robôs também. E hoje aconteceu: Um robô é o novo presidente.

As leis que ainda não estavam adaptadas logo estarão. Tenho medo dos resultados disso. Me cheira a guerra civil. E se você, estranho, encontrou meu diário, pode ter certeza: Minhas pernas mecânicas estão sem bateria, estou imobilizada e completamente entediada.

–//–

Falei com a Jéssica hoje. Ela recarregou minhas pernas. Quase briguei com ela, queria cortar meu cabelo de novo. Minha aparência é tudo o que me resta de humana. Tenho medo de me tornar mais máquina ainda. Conversei com ela sobre uma possível guerra. Ela riu e me chamou de cega. Não sei bem que o que ela quis dizer com isso. As vezes ela me confunde, me diz coisas enigmáticas demais.

Achar comida também está difícil. As vezes me pergunto se eu teria sobrevivido sem essas pernas mecânicas, porque apenas a força delas me mantem caminhando. Mas eu não pretendo desistir. Eu não quero desistir.

–//–

Finalmente entendo o que Jéssica quis dizer. Estava por toda parte, como eu não vi? O “biogrupo”, apesar do nome horrível, já age às escondidas há um bom tempo. Talvez anos. Aparentemente estocam comida,destroem fábricas e arrumam armas. Estão planejando uma guerra.

Consegui encontrá-los sem muito esforço, sua base exala um cheiro forte de comida. Boa tática, tendo em vista que robôs não sentem cheiro algum. Jéssica estava lá quando cheguei, não foi a única a implicar com meu cabelo. Aparentemente atrapalha os movimentos de guerrilha. Talvez eu corte mesmo. Talvez.

Todos do grupo parecem ser boas pessoas. Me contaram boas histórias dos velhos tempos. Um açougueiro, um vendedor, um operário. São boas pessoas, mas estão determinados. A grande guerra está quase pronta para eclodir. Confesso que tenho medo.

–//–

É hoje.

Fim do Manuscrito Original.

Sobre Mais Metáforas e Mais Vida Urbana

dezembro 16, 2009 por Arthur Losquiavo

Fernando, assim como muitos do nosso tempo, nasceu pela metade. Possuía uma perna, um braço, um pulmão. Obviamente isso era um incomodo. Porém, outros muitos eram como ele. Seus amigos também nasceram pela metade, por exemplo.

Tal fato os impedia de sair sozinhos. Onde quer que um fosse, outro sempre iria atrás. Juntavam as metades, causando alguns incômodos pelas pequenas diferenças. As vezes um pé mais comprido, um braço mais curto. Mas sem esse apoio ele não saía de casa. Outro transtorno frequente era decidir para onde ir. Alguém sempre haveria de abrir mão da sua escolha.

Fernando também teve diversas namoradas. Quando as pessoas incompletas namoram, elas se juntam simbioticamente passando a ser apenas uma entidade. Sempre tentam relevar as pequenas diferenças, mas o fato de não poderem se desgrudar complica a situação. Se um não pode sair de casa o outro sofre do mesmo mal. Ambos veem filmes juntos, leem livros juntos, passeiam juntos.

Quando Fernando fica sozinho acaba sempre entrando em crise. Mesmo no seu lar é difícil se locomover. Ele precisa sempre de algum apoio. E Fernando tem momentos felizes, mas não é feliz. E não sabe porque.

Maurício, por outro lado, nasceu inteiro. Suas duas pernas o levam para onde ele quer ir. Seus amigos também são inteiros. Eles frequentemente saem juntos. Geralmente vão todos para o mesmo lugar, alguns abrindo mão de sua vontade. Outras vezes o grupo se divide, e cada um vai pra onde quer ir. Alguns ainda optam por ficar em casa. Assistem filmes que querem, leem livros que querem.

Não é por preconceito, Maurício até tentou fazer amizade com pessoas incompletas, mas a missão é impossível. Os incompletos precisam muito de companhia e acabam sugando não só a liberdade, mas toda a vida de quem eles se apoiam.

A primeira namorada de Maurício era incompleta e tentou convencê-lo a cortar metade do corpo. O motivo? Ela não permitia, não suportava a ideia de que ele pudesse sair sem ela. Na sua concepção os dois não poderiam se separar nunca. Deveriam ir aos mesmos lugares, e se um dos dois não pudesse, nenhum iria.

Sua atual namorada, por outro lado, nasceu inteira. Os dois compartilham gostos e desgostos, mas existem as desavenças. Quando não podem estar juntos Maurício reúne os amigos para beber e conversar, pois sua namorada não gosta do barulho e dos assuntos da roda. Mas ela não pode impedi-lo de sair com os amigos. Já ela aproveita para fazer compras, ou alugar algum romance barato que ele detesta, mas que ela gosta. Eles acreditam que podem ser felizes juntos, mas mais do que isso, não precisam se sufocar.

Maurício tem momentos felizes com os amigos. E Maurício tem momentos felizes sozinho. Isso porque ele não cobra de ninguém a sua outra metade. Ninguém tem a obrigação de completá-lo e ele não precisa completar ninguém. Ele sabe ser feliz sozinho.

Sobre O Outro Lado Da Moeda

dezembro 9, 2009 por Arthur Losquiavo

Desde pequeno Irwin tinha um sonho: Acabaria com todo o mal e colocaria ordem no mundo. Ele nasceu em uma pequena vila do interior, que se subsistia a base de produtos rurais. Ainda na infância ganhou uma espada de madeira e com ela aprendeu a lutar relativamente bem.

Quando chegou na idade adulta percebeu que não queria viver no campo. Juntou seus pertences e rumou para a cidade grande. Se antes a injustiça do mundo eram os ladrões de galinhas, agora a figura mudava. Irwin se deparou com toda a pobreza e miséria das cidades. Ele sabia que para resolver isso precisava ser rei.

Passou alguns dias arquitetando seu plano. Começou de maneira singela. Aos poucos, sob a forma de boatos, se espalhou nas periferias a idéia de revolução. Como uma bola de neve, em pouco tempo já estavam armados e prontos. A tentativa de tomar o castelo consistia em invadi-lo pela porta da frente. Mas enquanto isso ocorria, Irwin subiu por uma janela, chegou até o rei e o assassinou.

Os guardas se renderam e, sem muita escolha, a população passou a seguir as normas do novo rei. A jornada de trabalho foi aumentada, o lucro subiu, novos trabalhos surgiram. Para garantir que todos trabalhassem o novo rei construiu robôs armados com chicotes. As coisas estavam tranquilas até o primeiro “deles” aparecer. Uma fábrica havia sido destruída. Um garoto com uma espada anormalmente grande foi o responsável. Depois de algum tempo ele foi visto, aliado a uma garota, destruindo uma caverna e arruinando as escavações arqueológicas.

Irwin não entendia as ações daqueles arruaceiros. Ele estava trazendo prosperidade para a terra e eles queriam voltar aos problemas anteriores. O pequeno grupo – já com quatro integrantes – se dirigia ao castelo, sempre derrotando a guarda do reino.

O caos se completou quando chegaram ao castelo. Nem toda guarda conseguiu impedir que eles saqueassem o castelo, levando armas, armaduras e dinheiro do rei. Logo após isso, invadiram a sala em que este se encontrava.

    - Viemos acabar com seu reino de terror! – berrou o brutamontes do grupo.

    - E libertar da escravidão os povos! – complementou outro, mais franzino, com um robe comprido.

    - E vingar o meu pai! - lembrou a garota do grupo.

O garoto de cabelo esquisito apenas segurava sua gigantesca espada sem dizer nada.

    - Reino de terror? Escravidão? Do que estão falando? Meu reino é perfeito.

    - Cale-se – Interrompeu o grandalhão – Você usa robôs para o mau e força as pessoas a trabalharem, nós vamos acabar com isso!

A batalha começou antes mesmo que Irwin pudesse dizer algo. A vantagem numérica do grupo se mostrou extremamente relevante, mesmo com o grande talento como espadachim que o atual rei possuía. Depois de algum tempo e uma sofrida batalha, o rei morreu. Seu reino acabou junto com sua vida.

O garoto se casou com a garota e se tornaram reis. A paz e a tranquilidade prosperaram e, após dois anos, o reino estava completamente endividado. Foi invadido e destruído por não poder se sustentar economicamente.