Sobre Metáforas e Vida Urbana

Em uma certa cidadezinha do interior, em algum lugar qualquer, moravam duas garotas. As duas não eram o que se pode chamar de melhores amigas, pelo contrário, eram terríveis inimigas declaradas.

A primeira delas se chamava Senso Comum. Era uma garota esbelta, alta, magra, atendendo a todos os padrões para ser modelo. Vivia cercada de muitas pessoas, a grande maioria jovens e crianças. Tudo o que ela gostava aparecia na TV, no rádio, caia nas graças do povo. Seus amigos eram também amigos entre si porquanto todos gostavam e desgostavam das mesmas coisas. Formavam uma legião as avessas: Uma alma para mil corpos.

A outra garota, rival de Senso Comum, se chamava Senso Crítico. Numa primeira vista ela não pareceria tão bonita. Fugia dos padrões, era bem verdade, mas bastava um olhar mais atento para reconhecer seu charme. Não tinha tantos amigos assim, mas o reduzido número era muito mais fiel do que se imaginaria. Se algum amigo de Senso Comum resolvesse quebrar a amizade logo correria para Senso Crítico, mas a recíproca não era verdadeira. A verdade é que ninguém quebrava a amizade com Senso Crítico. Infelizmente tal grupo não era tão homogêneo quanto o anterior, e não bastasse as discórdias externas ainda geravam brigas internas completamente desnecessárias. Em geral tal grupo era composto por pessoas de mais idade, saídas da adolescência há certo tempo. Por conta da baixa popularidade de Senso Crítico e das desavenças internas do grupo, seus gostos raramente vinham a público. Seus filmes favoritos não passavam na TV, suas músicas não tocavam nas rádios, suas roupas e livros não estavam nas vitrines.

Pode parecer estranho que a vida social da pacata cidade rodasse em torno de duas garotas de idade colegial, mas é assim que as coisas eram por lá. Devido a forte influência das massas a maioria das crianças iniciava a vida no grupo de Senso Comum, mas com a educação certa dos pais que não concordassem com isso os filhos poderiam mudar de lado.

As “brigas” que ocorriam eventualmente entre os dois grupos costumavam ser rápidas. Os adeptos de Senso Crítico – e até mesmo a própria – costumavam falar por algumas horas, mas os adeptos de Senso Comum sabiam que aquilo era apenas inveja por não serem tão populares e que eles jamais seriam capazes de fazer algo melhor.

Já as brigas internas envolvendo Senso Crítico eram muito piores. Levavam horas, dias, anos expondo cada vez mais sobre seus pontos de vista, mas nunca se chegava a conclusão alguma, o final sempre era a discórdia.

As pessoas de Senso Crítico acabaram sendo mais infelizes por conta disso. Não achavam sua alma gêmea na imensidão de divergências, não tinham para onde ir. Sempre pensavam no objetivo da vida e não chegavam a conclusão alguma.

Tão mais simples era o grupo de Senso Comum. A garota unia casais com extrema facilidade, e em sua rotina de alegrias banais, lugares lotados e programas de televisão não sobrava tempo para pensar na vida. E assim todos eram felizes.

Mas se o grupo de Senso Comum era tão melhor e mais fácil, porque o grupo de Senso Crítico não voltava para lá? Porque não valia a pena.

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2 Respostas to “Sobre Metáforas e Vida Urbana”

  1. Débora Says:

    E esse, até aqui, foi o conto que eu mais gostei. =)

  2. Maria Paula F. de Figueiredo Says:

    Ei autor x, bons contos! Essa coisa de pseudo-filosofia pode incomodar, mas achei este em particular muito didático (sendo esta ou não a intenção). Parabéns, keep writing.

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