Sobre Mais Metáforas e Mais Vida Urbana

Fernando, assim como muitos do nosso tempo, nasceu pela metade. Possuía uma perna, um braço, um pulmão. Obviamente isso era um incomodo. Porém, outros muitos eram como ele. Seus amigos também nasceram pela metade, por exemplo.

Tal fato os impedia de sair sozinhos. Onde quer que um fosse, outro sempre iria atrás. Juntavam as metades, causando alguns incômodos pelas pequenas diferenças. As vezes um pé mais comprido, um braço mais curto. Mas sem esse apoio ele não saía de casa. Outro transtorno frequente era decidir para onde ir. Alguém sempre haveria de abrir mão da sua escolha.

Fernando também teve diversas namoradas. Quando as pessoas incompletas namoram, elas se juntam simbioticamente passando a ser apenas uma entidade. Sempre tentam relevar as pequenas diferenças, mas o fato de não poderem se desgrudar complica a situação. Se um não pode sair de casa o outro sofre do mesmo mal. Ambos veem filmes juntos, leem livros juntos, passeiam juntos.

Quando Fernando fica sozinho acaba sempre entrando em crise. Mesmo no seu lar é difícil se locomover. Ele precisa sempre de algum apoio. E Fernando tem momentos felizes, mas não é feliz. E não sabe porque.

Maurício, por outro lado, nasceu inteiro. Suas duas pernas o levam para onde ele quer ir. Seus amigos também são inteiros. Eles frequentemente saem juntos. Geralmente vão todos para o mesmo lugar, alguns abrindo mão de sua vontade. Outras vezes o grupo se divide, e cada um vai pra onde quer ir. Alguns ainda optam por ficar em casa. Assistem filmes que querem, leem livros que querem.

Não é por preconceito, Maurício até tentou fazer amizade com pessoas incompletas, mas a missão é impossível. Os incompletos precisam muito de companhia e acabam sugando não só a liberdade, mas toda a vida de quem eles se apoiam.

A primeira namorada de Maurício era incompleta e tentou convencê-lo a cortar metade do corpo. O motivo? Ela não permitia, não suportava a ideia de que ele pudesse sair sem ela. Na sua concepção os dois não poderiam se separar nunca. Deveriam ir aos mesmos lugares, e se um dos dois não pudesse, nenhum iria.

Sua atual namorada, por outro lado, nasceu inteira. Os dois compartilham gostos e desgostos, mas existem as desavenças. Quando não podem estar juntos Maurício reúne os amigos para beber e conversar, pois sua namorada não gosta do barulho e dos assuntos da roda. Mas ela não pode impedi-lo de sair com os amigos. Já ela aproveita para fazer compras, ou alugar algum romance barato que ele detesta, mas que ela gosta. Eles acreditam que podem ser felizes juntos, mas mais do que isso, não precisam se sufocar.

Maurício tem momentos felizes com os amigos. E Maurício tem momentos felizes sozinho. Isso porque ele não cobra de ninguém a sua outra metade. Ninguém tem a obrigação de completá-lo e ele não precisa completar ninguém. Ele sabe ser feliz sozinho.

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2 Respostas to “Sobre Mais Metáforas e Mais Vida Urbana”

  1. Mikaellis Says:

    Dark, isso foi incrível.
    Prepare-se para causar epifanias nas pessoas.

  2. Vanessa Says:

    baaah tri bom, (estamos aí pagando pau denovo :S)

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