Sobre o fim

Ângela era uma garota comum. Bonita, alegre, às vezes teimosa. Tinha lá seus dezesseis anos incompletos. “Tinha” porque agora estava morta. Atropelada. Mais um número para as estatísticas.

Seus pais estavam acabados. A fé – outrora inabalável – do pai lhe faltava, fazendo pensar se aquele era mesmo o Deus justo e bondoso que ele conhecia. Isso é, se ele ainda estivesse realmente acreditando neste Deus. A mãe, por outro lado, rezava. Rezava pelo bem da filha que agora descansava na sua frente. A filha que não ia mais levantar, independentemente de quantas preces fossem feitas. O irmãozinho, também presente, não acreditava no que via. Sempre implicou com a irmã. Agora era real a idéia de não tê-la mais por perto. E doía. Doía muito.

Os amigos sofriam também. Até os menos chegados sentiam o golpe. Ela era muito nova, eles também. Palavras de dor e consolo eram trocadas em meio a lágrimas. Mas nada daquilo a traria de volta. Ela iria para baixo da terra e de lá não sairia nunca mais.

Longe do funeral, um homem chorava. Era o motorista. Não dormia desde o acidente e a situação se prolongaria por dias. A culpa atravessava seu peito tal qual um punhal. Suava frio e tomava remédios, pequenas pílulas de alegria momentânea. Tinha o apoio da família e dos amigos, mas isso não diminuía a culpa e ele sabia disso.

Mas o tempo passou. Dias, meses, anos. A pequena família seguiu sua vida com um retrato que jamais envelheceria na parede. A mãe nunca mais se preocupou em preparar um segundo prato para alguém que não quisesse comer peixe. O pai não trouxe mais salgados da padaria na volta do trabalho. O irmão ganhou um quarto só seu, e nunca descobriu que batendo na parede atrás do armário causa um som engraçado.

Os amigos terminaram a escola, e nenhuma aluna usou um vestido verde que se destacaria por anos. E nas reuniões e festas dos amigos nenhum inventaria uma piada tão genial quanto à dos sucrilhos. Isso porque a garota que inventaria a piada não estava ali. Outra pessoa assumiria seu lugar na universidade. O garoto da sua vida estaria com outra e o emprego perfeito não teria a pessoa perfeita.

Porque tudo o que começa está fadado a terminar, e quando termina deixa apenas o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

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