Sobre Sapatos

Desligou o despertador em gesto mecânico. Levantou no piloto automático. Acordou com a água do chuveiro. Saiu do banho, vestiu a camisa, as calças e os sapatos. A camisa era nova, verde clara, bonita. Os jeans já eram um pouco usados, mas de bom aspecto. Mas os sapatos… ah, os sapatos. Os anos desbotaram o preto, dobraram o couro, tiraram seu brilho. Ainda era um sapato bonito, mas não podia esconder a idade.

Comprou o par havia quase sete anos. Era verão e seu irmão ia casar. Não precisava de um sapato novo, mas estava passando em frente a loja e o viu na vitrine. Sapato preto, couro, bico quadrado, sem cadarço. Entrou, provou, comprou.

Usou no casamento, mas ninguém comentou. Não que estivesse esperando comentários. Ninguém comenta sapatos masculinos, por mais bonitos que sejam. Na verdade, nunca comentavam suas roupas. Sua gravata caía muito bem pelo peito.

Mas era um sapato bonito demais, não para usar no dia-a-dia. Ficou no armário até o dia da colação de grau, cerca de sete meses depois. Terminou o ensino médio com louvor, riu das colegas com dificuldade em arrumar vestidos e se equilibrar no salto. Estava feliz por seus sapatos.

Começou a universidade, curso de administração. Mais estudos, mais festas e uma rápida visita ao tribunal. O juiz não se importou com os sapatos, mas não gostou do cabelo arrepiado. O caso não gerou nenhum problema futuro.

Na formatura os pais, os amigos, os colegas e os sapatos. As roupas eram elegantes, já mantinha o cabelo arrumado e curto. Estava adentrando, oficialmente, ao mundo adulto. Sem o menor preparo, logicamente.

Abriu o próprio negócio. Teve prejuízo, se recuperou, lucrou. Começou a viver. O sapato acompanhou seus grandes momentos. Grandes festas, reuniões e eventos. Alugou um apartamento pequeno, no centro da cidade. E olhou seus sapatos. Ainda bonitos, elegantes, com o aspecto de um velho veterano de guerra, que não mais ostenta a força de antigamente, mas jamais perde a imponência. Era hora de dar uma nova carreira ao par. Não era nenhuma situação especial, mas era um sapato bonito, e merecia ser usado. O telefone tocou, cortando seus pensamentos.

– Alô? – Era a voz do irmão do outro lado da linha

– Oi, já estou descendo.

Chegou no térreo, o carro já estava parado. Entrou. O irmão sorriu.

– O que foi?

– É a primeira vez que te vejo usar esses sapatos com uma roupa comum. Sempre achei que combinava mais com os vestidos. Porque a mudança, Fernanda?

Ela apenas sorriu. As vezes as pessoas comentam sapatos masculinos.

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2 Respostas to “Sobre Sapatos”

  1. Débora Says:

    Ah, quanto tempo! Tu não deveria parar de escrever por aqui~

  2. allinemnzes Says:

    Dá até inveja de você.

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