Sobre Outros Tempos

A brisa da noite remexia preguiçosamente as folhas das árvores. Um assovio gelado arrepiava aqueles que se aventuravam pelos campos. O sol ainda demoraria para surgir no horizonte, mas as sombras dos trabalhadores já se viam aqui ou ali.

Alheio a tudo isso, um cavalo branco trazia em suas costas um grande e pesado cavaleiro. Tigerot vestia uma resistente armadura prateada que lhe protegia todo o corpo. Trazia presa as costas uma pesada espada de cabo escuro, e na mão esquerda um escudo ostentando o brasão da família – o tigre.

Carpejante, o cavalo, aguentava bem o peso do cavaleiro e troteava em ritmo rápido. O homem era alto e truculento, com uma postura ereta para que os cabelos compridos e escuros não atrapalhassem a visão. O semblante era sério, o nariz reto e a barba já estava visível a esta altura do trajeto.

Viajavam rumo ao oeste, sempre com o sol iluminando o seu caminho pela manhã. Eram motivados por uma antiga lenda. Dizia a história que aquele que fosse para o oeste, sempre a oeste, encontraria a mais alta das torres, e no topo da torre estaria a mais bela das princesas. Mas a viagem não seria simples, pois a princesa estava prisioneira. Para salvar a vida de sua mãe, a rainha, seu pai ofertou sua filha para a morte personificada. Esta, encantada pela criança, não a levou para seu reino, mas também não a deixou com seus pais. Ela seria sua, sempre sua. Por isso, até hoje, todos que tentaram tirá-la da torre encontraram sua madrasta pela estrada. Tigerot sonhava não repetir a história.

Já seguia a mesma rota há quatro dias e, pelo que se sabe, ainda faltavam dois. Ainda possuía provisões, mas não via nem sinal da torre. Cumprimentou os camponeses pelo caminho e viu sua sombra começar a se projetar logo a sua frente. O dia começava.

Estava em um campo aberto, pelo meio da manhã, quando percebeu algo estranho. A sua sombra não estava normal. Parecia ligeiramente acima do chão, como se quisesse se desprender. Movia-se como um lenço ao vento, ondulando-se pouco a pouco. Tigero voltou os olhos para a estrada e percebeu uma figura coberta de negro, empunhando uma enorme foice. Exibia um largo sorriso, com todos os dentes muito brilhantes logo abaixo de dois olhos vermelhos que brilhavam sob o capuz.

Subitamente a sobra do cavaleiro se desprendeu do chão, formando uma cópia exata e escura do mesmo. Passaram a cavalgar lado a lado. Tigerot apenas observava, até que seu rival começou a desembainhar a espada.

O original imitou a cópia e começaram a se digladiar. Faíscas voavam a medida que os metais se chocavam. Escudos defendiam, quando não a própria espada era usada para tal. Carpejante corria veloz, disputando consigo mesmo, tentando ajudar como podia. Em um daqueles casos em que a sorte ajuda mais do que o talento, os duelistas adentraram em uma floresta. Não demorou para Tigerot perceber a fraqueza de sua sombra quando longe da luz. Era óbvio, não existe sombra sem luz para projetar. Embrenharam-se na mata e, na total escuridão, a espada prateada perfurou a armadura negra. O vencedor sorriu ao ver o inimigo sumir como fumaça no ar.

Bebeu um grande gole d’água, alimentou o parceiro e prosseguiu viagem. A floresta era densa, difícil de cruzar montado. No chão, o cavaleiro puxava o animal e prosseguiam lentamente. Não havia nenhum sinal de perigo, mas os caminhos pareciam todos iguais. Depois de algumas horas Tigerot percebeu que andando apenas em linha reta estava andando em círculos.

Buscou uma rota alternativa e permanecia voltando ao mesmo lugar. Estava preso na floresta. Optou por algo diferente e começou a andar de costas. Foi difícil, especialmente considerando que precisava manobrar Carpejante, mas após cair e se machucar algumas vezes pôde, finalmente, se ver livre da floresta.

Cavalgou ainda por algumas horas e dormiu sob o abrigo de algumas rochas. Teve um sono perturbado e nem um pouco reparador. Um cavaleiro sem cabeça, com chamas saindo do pescoço o perseguia. Gritos desesperados ecoavam por todos os lados. A voz dos pais chamavam seu nome. Sua pele ardia, sua cabeça doía, se sentia preso e impotente. Acordou cansado, cedo, mas aquele seria o último dia daquela jornada.

Retomou a estrada pouco antes do sol nascer, e após subir um monte pôde avistar a torre. Era imensa, localizada no alto de um rochedo, a beira do mar. Uma construção fina, feita de pedra, com poucas janelas. Em frente a porta era possível ver a figura de manto negro.

Carpejante começou a correr, aquele seria o último confronto. Com um gesto rápido, o manto da morte se abriu e tomou a forma de duas grandes asas. O corpo, outrora escondido, agora se revelava extremamente magro e completamente branco. Os membros eram longos e afinados. Ao ser jogado para trás, o capuz revelou um rosto cadavérico. Cabelos negros caíam desgranhados por frente dos olhos vermelhos. Eram o único indício de pelos por todo o corpo. Além disso, a estranha criatura não possuía nenhum sinal que lhe pudesse distinguir o sexo.

Com um rápido movimento um grande foice surgiu em suas mãos. Tigerot desembainhou a espada. As grandes asas negras e escamadas, que nada mais lembravam o antigo manto, começaram a bater com potência, levantando voo. O duelo final começou.

Tigerot estava em clara desvantagem. Seu adversário era mais rápido, mesmo com uma arma maior e mais pesada. E voava, podendo desviar e atacar com muito mais facilidade. O escudo do cavaleiro sofria pancadas violentas e sua espada mal conseguia ser usada para desviar alguns golpes.

A morte era violenta, rápida e precisa. Carpejante corria desesperado. Descer d cavalo poderia facilitar os movimentos, mas tornaria o homem um alvo fácil. Não sabia bem o que fazer, previu o seu fim.

Entretanto, em um rápido olhar para a torre, tudo fez sentido. Pelo pequena janela apareceu a princesa, olhando por ele. Seus longos cabelos ruivos destacavam os belos olhos azuis. Os contornos de seus rosto pareciam tão angelicais que em nada impressionava terem acovardado a morte de cumprir seu trabalho.

Devido a sua distração, com o cabo da foice a morte jogou para longe o escudo de Tigerot. Abriu a guarda em um movimento ousado, que, se bem executado, cortaria o cavaleiro em dois. Aproveitando dessa abertura, porém, este transpassou-lhe a espada pelo peito nu. Por um momento o tempo pareceu congelar.

A ameaçadora figura desapareceu. O cavalo parou. O cavaleiro, exausto, desceu e se dirigiu até a torre. A porta se abriu pelo lado de dentro. A figura que apareceu era, sem sombra de dúvidas, a mesma morte que estivera enfrentando até momentos atrás. Agora, porém, seu rosto era visivelmente feminino, os cabelos estavam longos e lisos, em um corte reto. Ela sorriu, com carinho, e desapareceu no ar, deixando a escadaria livre.

Tigerot subiu as escadas lentamente. Estava cansado, mas sorria também. Não teve pressa. Chegou até a porta do quarto e entrou sem bater.

A princesa o aguardava, solene. Ele se ajoelhou aos seus pés, beijou sua mão, olhou em seus olhos e declamou:

– Minha doce princesa, musa dos meus sonhos, razão da minha jornada. Sou Tigerot, da casa de Feliseu, fiel servo do rei na Terra e de Deus no céu. Viajei seis dias, enfrentei demônios, labirintos e toda sorte de tormentos e pesadelos. Então, minha senhora, gostaria de saber a verdade, do fundo da sua alma. Não minta, nem desvies o olhar, pois preciso da verdade. Se no alto da mais alta árvore, situada no mais alto monte, houver um coqueiro com um coco. E por força do destino, da natureza ou do nosso Senhor, este vier a cair. Rola ou não rola?

– Nobre cavaleiro, reconheço o seu valor e agradeço seus esforços. Mas este fruto, assim como qualquer outro, não rola e em nenhum outro momento virá a rolar.

Anúncios

Uma resposta to “Sobre Outros Tempos”

  1. Maria Paula F. de Figueiredo Says:

    hahahaha ótimo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: