Sobre Répteis

O garoto estava no quarto. Bebia um copo de vodka barata, comprada com a mesada dos pais economizada do dinheiro da comida. O quarto devia medir dois metros por dois metros. Ele sentava em uma cadeira. No canto da janela havia uma lagartixa pequena, verde, com músculos tensos, olhar predador e aspecto irritadiço. Na parede a esquerda estava uma lagartixa preta, maior, mais relaxada e despreocupada. O garoto bebia. Olhava para uma e olhava para outra. A primeira era Trixie, a segunda era Drake.

– Eu acredito que a natureza humana seja bondosa.
Assim começou o garoto, sendo completamente ignorado pelas lagartixas.
– Acho que nós não gostamos de fazer o mau, sabe? Nós somos capazes, é fato. Mas nós somos capazes de muitas coisas. Nós somos capazes de mandar homens a lua e de mandar homens pra cova. Acho que não somos maus porque nos arrependemos. Não dos homens na lua, mas dos homens na cova. Toda vez que eu faço algo moralmente condenável eu sinto um peso na consciencia, acredito que seja a minha natureza humana.

– Mas o que é moralidade? – Não perguntou Trixie, porquanto era uma lagartixa incapaz de falar
– Boa pergunta! – respondeu o ébrio de qualquer forma – Li muito sobre religiões e sistemas legais e cheguei a seguinte conclusão: Qualquer sistema normativo parte do mesmo princípio, um princípio tão universal que se excluirmos todos os dogmas teremos apenas uma única corrente de pensamento. O princípio do “não incomode o próximo”. Claro que cada corrente filosófica classifica o próximo de um modo diferente, mas respeitando isso estamos salvos.
– Salvos? Pensei que não acreditasse em inferno – Não comentou Drake, que estava mastigando uma mariposa.
– Os mortos não me assustam, mas os vivos sim. Aquele que não incomoda ninguém não deve temer a repreensão de ninguém. Não sofrerá nenhum mau porque os humanos não fazem mau a seres inofencivos.

Um som de gargalhadas encheu o ambiente, embora as lagartixas permanecessem apáticas.
– Eu sei que muitas de vocês morrem, mas é porque os homens acham que vocês são prejudiciais a saúde. Venenosas. Nós só agimos em legítima defesa.
– Vocês matam uns aos outros em legítima defesa? – Não disse Trixie, que permanecia na ponta da janela.
– De certa forma. Veja bem, os humanos gostam de pensar que são maus, mas isso ocorre de uma simples arrogância.  Os humanos se julgam muito humanos. Somos animais. Como qualquer outro, somos animais. Todos nossos atos são justificados por sexo e comida. – O garoto encheu novamente seu copo – Temos um bom emprego, uma boa casa, juntamos muita grana. Tudo por comida e sexo. Comida e comida. Homens buscam várias parceiras, mulheres buscam seguranças. Somos um bando de super macacos, entendem?
– Cara, somos répteis, não temos nada a ver com isso. – Drake ia saindo pela janela, provavelmente sem ter dito isso.
– Assim, a gente não é mau. A gente só tenta sobreviver. Se a gente faz alguma “malvadeza” é porque a gente corre riscos, sabe? A gente tem medo! Ninguém quer morrer. A gente faz tudo certo e interpreta tudo errado.
– Você está bêbado, moço, vá dormir antes que passe mal nesse quarto minúsculo. – Não se sabe de onde veio o conselho, pois Trixie não era vista em parte alguma.
O jovem resolveu seguir o conselho mesmo assim.

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2 Respostas to “Sobre Répteis”

  1. Felipi Says:

    E se, na totalidade do solipsismo, as lagartixas percebem que só existem no imaginário do garoto, ao passo que o garoto só existe no imaginário das lagartixas, e nada passa de uma abastração metafísica do próprio delírio de ser algo que não é?

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