Sobre Fábulas

Era uma vez, em uma fazenda muito, muito distante, um cavalo que sonhava em voar. Seu nome era Cavalo Horse. Preso dentro de seu cercado, ele passava os dias a observar as aves que migravam para lá e para cá. Durante a noite, sonhava com as nuvens, e os raios de sol e o vento e o vôo. Em seus sonhos possuía longas asas que cobriam todo o céu.

Mas o cavalo, coitado, não era muito inteligente. Apesar de rápido, grande e forte, não sabia o que fazer para voar. E então escondia o seu sonho de todos. E nenhum dos outros animais da fazenda sabia que o cavalo queria voar.

Numa noite, porém, estando muito cansado do trabalho do dia, cavalo falou enquanto dormia. Em seus devaneios, soltava frases como “eu amo estar aqui em cima” e “sempre quis estar no céu”. Acordou assustado com o som da própria voz, e percebeu também que não estava sozinho. Dentro do estábulo, um pequeno rato o observava.

– Você estava sonhando? – Perguntou o roedor.

– Sim, sim, eu estava. – Respondeu o cavalo.

– Eu sonho também, sabia? Sonho com o queijo gigante que fica lá no céu, e sonho em comê-lo um dia.

– Oh, se eu pudesse realizar o meu sonho eu certamente lhe ajudaria, pequenino. Eu sonho em voar, voar pelos céus.

– Ora, mas isso é muito simples, meu caro. Você só precisa de penas! Todos os pássaros que voam tem penas, nós não voamos por causa disso. Se quiser voar, role na lama e depois em um amontoado de penas. Elas se juntarão ao seu corpo e você poderá voar.

– Oh, eu nunca havia pensado nisso! Obrigado pela dica, meu amigo. Quando voar, volto para te buscar e te levar até o seu queijo.

E Cavalo Horse voltou ao seu sonho, onde dessa vez voava por um céu negro-azulado, onde uma forte lua cheia brilhava projetando centenas de pequenas sombras sob seus cascos. E o cavalo dava voltas em torno da lua e nada podia parar as suas asas emplumadas.

Na manhã seguinte, ao acordar, foi até o galinheiro. As galinhas, sempre as primeiras a levantar, já estavam do lado de fora, ciscando despreocupadamente. Cavalo chegou perto da primeira galinha e perguntou:

– Bom dia, dona Galinha. Será que a senhora poderia me ceder as suas penas?

– As minhas penas, Cavalo Horse? Mas eu preciso delas muito mais do que você.

E o cavalo, com vergonha de seu sonho, foi perguntar a outra galinha:

– Bom dia, dona Galinha. Será que a senhora poderia me ceder as suas penas?

E a galinha respondeu exatamente o mesmo que a primeira:

– As minhas penas, Cavalo Horse? Mas eu preciso delas muito mais do que você.

E o cavalo se desculpou e foi conversar com outra galinha, e toda vez que fazia a pergunta recebia a mesma resposta. Assim, todas as galinhas negaram o pedido do cavalo, sem saber ao certo o que estava acontecendo. O galo, obviamente, reparou no movimento todo ao redor do galinheiro e foi tirar satisfação com o cavalo.

– Cavalo Horse, me responda uma coisa.

– Sim?

– Por que é que você quer as penas das galinhas?

– Ah, você vai rir de mim, senhor galo.

– Ora, vamos lá, diga.

– É que eu sonho em voar. E para voar eu preciso ter penas, aí eu pensei que as galinhas pudessem me emprestar as penas delas para que eu as grudasse no corpo.

– Ah, mas é isso? Meu caro, você está fazendo errado. Nenhuma galinha irá te dar todas as penas, mas tenho certeza que todas as galinhas não se importarão em perder algumas penas.

E o galo saiu pelo galinheiro, arrecando três ou quatro penas de cada galinha, de forma a fazer um grande amontoado ao lado do cavalo.

– Aqui está, meu amigo. Agora realize o seu sonho.

E o cavalo andou até uma poça de lama, onde rolou até estar completamente sujo. Voltou ao galinheiro e rolou no monte de penas, ficando completamente coberto. Todas as galinhas e até o rato apareceram para ver o que ia acontecer. O cavalo, coberto de penas, pulou. Tão rápido quanto subiu, caiu. E pulou de novo e de novo e de novo. Não voou.

O fazendeiro, então, chegou e viu o cavalo coberto de penas. Confuso com a situação, gritou, espantou as galinhas e levou o cavalo até o rio. Extremamente decepcionado, o cavalo perdeu suas penas.

Durante a noite, sonhou que pulava de um precipício, mas não voava. Se esborrachava no chão frio de pedra. Acordou assustado e resolveu dar uma volta pela fazenda. Próximo a cerca, encontrou um boi.

– Cavalo, o que te traz aqui a uma hora dessas?

– Boa noite, seu Boi, tive um pesadelo e achei melhor passear um pouco.

– Oh, é normal. Toda vez que eu como demais sonho que estou pendurado em um local muito gelado. É horrível.

– Eu geralmente sonho que estou voando, mas hoje, quando fui tentar, caí no chão.

– Havia algo de errado com o seu bico?

– Bico?

– Sim, é impossível voar sem ter um bico.

– E como eu posso fazer para ter um?

– Ah, você não pode. Mas pode imitar um. O fazendeiro tem um círculo brilhante com um furo na ponta. Fica pendurado perto da porta. Use. Mas cuidado para não ser pego.

O cavalo agradeceu o conselho do boi e voltou a dormir. Ao raiar da aurora, antes que o fazendeiro acordasse, esgueirou-se para perto da porta e viu o tal objeto reluzente. Com cautela, pegou com a boca e girou no ar, encaixando corretamente no seu rosto comprido. Empolgado com seu novo bico, começou a pular ali mesmo, imaginando que não tornaria a cair no chão. Ledo engano. Pulava e tornava a cair pesadamente sobre o chão.

Com o barulho, obviamente, o fazendeiro acordou e foi ver o que acontecia. Gritou algo sobre um funil, tirou o bico do cavalo e voltou para dentro.

O cavalo estava desolado. Queria desistir de seus sonhos. Voltou para dentro do estábulo e lá ficou. “Cavalos não sabem voar” dizia para si mesmo “não sabem e nunca vão saber”. O sol se pôs e a noite veio escura. O cavalo apenas murmurava, tristemente, para si mesmo.

Uma coruja, que passava por ali, ouviu os resmungos do cavalo e resolveu parar para conversar.

– Meu nobre senhor, o que te incomoda?

– Nada, Coruja, nada. Eu desisto. A partir de amanhã não vou mais me incomodar em tentar.

– Ora, mas como assim? Desiste do quê?

– De voar.

– Mas como assim?

– Desde que eu era um pequeno potro eu sonho em voar. Eu olho por sobre a cerca e vejo os pássaros para lá e para cá. Eu sempre quis voar, Coruja, mas nada do que eu tento funciona. Nem penas, nem bicos, nada.

– Ah, mas eu sei qual o motivo?

– E qual seria?

– Você não tem asas, cavalo.

– E nem tenho como adquirir.

– Ora, mas é claro que tem. É só correr por baixo do arco-íris.

– O que?

– Quando surgir um arco-íris no céu, não perca tempo. Ignore o fazendeiro, os animais, a cerca, o que for. Corra para passar por baixo dele. Quando você passar as suas asas vão crescer e você nunca mais precisará ficar com os pés no chão.

Antes que o cavalo pudesse perguntar mais alguma coisa, a Coruja saiu. Subitamente, o cavalo levantou a cabeça e havia sol lá fora. A visita da coruja realmente aconteceu ou teria sido apenas um sonho? Levantou ainda atordoado. Do lado de fora do estábulo estavam todos os animais, preocupados com seu sumiço no dia anterior. O cavalo se desculpou e disse já estar melhor. Saiu para o seu trabalho e olhou para o céu. O sol estava alto no céu, mas algumas nuvens acinzentadas também apareciam. Lembrou das palavras da coruja. Correr por baixo do arco-íris? Parecia loucura, mas o que ele teria a perder?

Durante a tarde, o cavalo ainda puxava os arados, próximo ao fazendeiro. De repente, sentiu um pingo cair no seu rosto. Depois outro, outro e mais um. Subitamente, um chuva leve começou. Instintivamente, Cavalo Horse olhou para o céu e, lá no fundo do horizonte, avistou a linha multicolorida que esperava. Um grande arco-íris pintava o céu daquela tarde chuvosa e ensolarada.

Lembrando-se do conselho da coruja, Cavalo Horse soltou-se do arado e correu. Ignorou a ferramenta caindo sobre o chão duro, ignorou os gritos do fazendeiro, ignorou a euforia dos outros animais e ignorou completamente a cerca que havia em seu caminho, destruindo-a na passagem.

O cavalo corria. Corria como se sua vida inteira dependesse disso. Corria como se nada no mundo pudesse alcançá-lo. Enquanto corria, o vento brincava com sua crina. Os pingos gelados da chuva caíam por todo o seu corpo. Os cascos esmagavam a grama e acima de sua cabeça havia apenas o céu.

Enquanto corria, as árvores eram deixadas para trás e novas apareciam no horizonte sem fim. Os pássaros acompanhavam, do alto, o trajeto enquanto o campo verde continuava a se estender pela imensidão sem fim. o arco-íris brilhava ao fundo do céu, garantindo o colorido dos sonhos. O ar gelado e úmido entrando pelas narinas, o coração bombeando o sangue na velocidade máxima, os músculos contraídos, as pupilas dilatadas. O cavalo apenas corria.

E enquanto corria. Enquanto todo o seu corpo se movia velozmente sobre o chão, enquanto tudo parecia não importar, foi que ele percebeu:

Mesmo que seus cascos tocassem o chão, ele já estava voando.

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