Sobre Escritores

Lucas não sabia bem o que esperar. Estava a toa pela universidade quando leu o cartaz que informava sobre o evento daquela noite. Uma palestra com o famoso escritor Estefano Reis. Lucas não era escritor e muito menos aluno do curso de letras. Lucas era apenas um estudante de Administração que esperava sua namorada sair da aula de prática de enfermagem. Ele estudava no turno da manhã, ela no turno da noite. Naquela noite em especial completariam seis meses de namoro e jantariam juntos para comemorar. Nada muito refinado ou elegante. A bem da verdade, iriam comer um cachorro quente e, mais tarde, assistir um filme.
Acontece que a casa de Lucas ficava longe da universidade, que por sua vez ficava longe do local onde ele trabalhava que, também, ficava longe de casa. Ao sair do trabalho, se optasse por voltar para casa, mal chegaria e já se veria obrigado a sair novamente. Sendo assim, saiu do trabalho e foi diretamente para a universidade. Tinha uma hora e meia livre antes da aula de sua namorada terminar.
Dessa forma, Lucas resolveu assistir a palestra. Parecia melhor do que ficar observando os pombos. De qualquer forma, se estivesse equivocado, poderia sair da palestra a qualquer momento. Os pombos ainda estariam por ali. Os pombos estavam sempre ali.
Entrou no auditório despretenciosamente e varreu o local com os olhos. Os acadêmicos possuiam um perfil engraçado, quase extraterreno, em comparação ao que o rapaz conhecia. Sujeitos barbados e de roupas simples, meninas de espírito livre e cabelos presos. Bem diferente do que estava acostumado. Bem diferente dele.
Lucas não era exatamente um sujeito chamativo. Vestia uma camiseta e calça jeans, um tênis um pouco surrado e carregava uma mochila. Tinha o cabelo curto e não usava barba. Era o que se pode chamar de jovem típico. Nada muito fora do comum. Morava com os pais, tinha uma namorada, estudava e trabalhava meio período. Comum. Lucas era comum.
Não encontrou nenhum conhecido no auditório e procurou sentar-se longe de desconhecidos. Acabou por sentar no meio da platéia. Nem muito longe, nem muito perto. Próximo a porta, caso quisesse fugir de um escritor chato que falava de coisas chatas. Estefano Reis era um daqueles nomes muito famosos dos quais ninguém realmente conhece. Lucas sabia que ele era o autor do famoso livro “A Espera de uma Coisa”, que ele nunca lera. Também dava palestras que ele nunca ouvira e lecionava em uma universidade que ele nunca frequentara. Mas era um sujeito famoso.
Pouco depois de sentar, Lucas viu dois homens entrarem no auditório. Um era velho, já grisalho e enrugado. Vestia um terno surrado e sujo de giz, além de carregar alguns livros. Era, obviamente, um professor. O outro era um pouco mais novo, provavelmente perto dos quarenta anos, cabelo curto e barba por fazer. Vestia uma camiseta branca por baixo de um blazer preto. Simples e eficaz. Provavelmente o escritor.
O primeiro homem, mais velho, subiu ao palco. O outro se sentou. Formalidades. O professor Küerten – esse era seu nome – apresentou brevemente o autor e logo se retirou. O escritor foi até o palco, pegou o microfone, agradeceu a instituição, ao professor, aos acadêmicos, aos escritores, aos demais presentes, só faltando agradecer aos pais e a Xuxa.
O tema da palestra era bastante simples, ainda assim parecia assombrar a maioria dos presentes: Como começar uma história. Era o começo de uma série de palestras voltadas para escritores amadores. Os temas variavam sobre como começar, como manter o foco, como trabalhar tramas paralelas e, por fim, como encerrar.
Lucas não se interessava por nada disso, mas ainda tinha uma hora para esperar. Além do mais, Estefano era um homem enfático. Falava alto, gesticulava bastante e tinha energia o suficiente para não deixar que os presentes morressem de sono. “Muitos aqui, imagino” ele falava “já devem ter tido excelentes ideias para escrever. Mas então, ao se depararem com a folha em branco, pensavam: E agora?”.
“Para alguém que vai ensinar a começar um livro” pensava Lucas “ele escolheu um grande clichê para começar uma palestra.” E era verdade. Muito embora todos parecessem atentos, ninguém parecia impressionado. O sujeito parecia impressionante, mas não falava nada que já tivessem escutado ou deduzido. Bloqueio criativo, medo da folha em branco, dificuldade de organizar pensamento. Todos ali – com a exceção de Lucas e, muito provavelmente, da velhinha na terceira fila que parecia não saber ao certo o que se passava por ali – já sabiam dessas coisas. Estavam ali para descobrir como evitar essas coisas.
“O segredo” disse, subitamente, o palestrante “é pensar primeiro no personagem e depois na história. Muitos fazem o contrário. Quando elaboramos uma história medieval e jogamos lá um cavaleiro, fica dificil trabalharmos a personalidade dele, porquanto o vemos apenas como cavaleiro. Agora, quando criamos um órfão rico que opta por defender o rei, é muito mais fácil construir uma história medieval a partir dele.”
Os alunos tomavam notas. Criar personagens antes de criar histórias. Lucas não sabia se aquele era um conselho bom ou ruim. Lucas não sabia nada e também não sabia se queria saber. O autor falava, empolgado, do processo de criação de seus livros. Sobre como cada personagem era um filho para ele. O autor criava o personagem e imaginava um leve tema ou objetivo para este. O resto se desenvolvia por conta. Para começar, bastava levar o personagem ao tema.
“Vamos fazer uma didática aqui, pessoal. Vamos escrever uma história.” Disse o palestrante “Vamos imaginar um sujeito normal. Vinte e poucos anos, estudante, mora com os pais. Ele tem uma namorada? Sim, vamos dar a ele uma namorada. E um emprego. Não há meio de ser mais normal do que isso. Ele deve ter um nome normal, usar roupas normais, frequentar lugares normais.”
“E o que um cara tão normal pode fazer?” perguntou uma moça na platéia. “Ora, aí que está o truque da escrita. Eu disse que precisamos criar o personagem antes da história, mas não antes da ideia de história.” Começou o escritor “Devemos ter em mente se queremos um romance, uma aventura ou uma ação. Aí criamos o herói e o deixamos livre. Nosso sujeito pacato não viverá um romance. Ele viverá um horror psicológico. Ele é um sujeito tão pacato, mas tão pacato, que surtará ao descobrir a verdade!”
Lucas ouvia, atento. Alguma coisa dentro dele dizia que aquilo era importante. Nunca parara para pensar no que seria um jovem comum. Um personagem clichê. Não era clichê, na verdade. Era apenas comum. E nunca havia percebido o quão comum ele era. Sentia-se levemente incomodado com a palestra. Não sabia bem porque. Por outro lado, não podia sair. Não queria sair. Queria ir até o final. Nem olhava mais para o relógio.
“Um sujeito comum não tem acesso a informações confidenciais. Um sujeito comum não tem super poderes e nem contatos com a máfia. Esse jovem estava apenas indo buscar a namorada para jantar e a verdade veio e lhe deu um tapa na cara. Derrubou-o no chão e fez seu mundo desabar. É assim que se começa uma história, meus jovens. Você tem um personagem e você dá a ele um objetivo. Você começa falando do quão pacato ele é e termina na grande virada, ou no grande beijo ou na inevitável tragédia. No nosso pequeno exemplo, terminamos na verdade.”
“Mas Sr. Reis” perguntou um senhor de meia idade “Esse não seria o desenrolar da trama? Mesmo criando um personagem, por onde eu começo?”
“Muito bem, senhor. Está quase correto.” continuou o palestrante “Mas ao ter um personagem e uma meta, você saberá identificar o começo, o meio e o fim. Quer dizer, o começo será sempre o nascimento, o fim será sempre a morte. Assim é a vida. Resta saber o quanto disso você considera importante. No nosso pequeno exercício, o começo é irrelevante e não precisamos chegar até o fim. Apenas a verdade basta.”
“No nosso pequeno exemplo, esse garoto veio de algum lugar por algum motivo. E isso não nos interessa. Esse jovem comum está indo buscar a sua namorada comum. Eles se conheceram no passado, mas isso não nos importa. Eles vão jantar juntos e, por algum motivo, isso nos importa.” o escritor parecia animado “o importante é não omitir fatos importantes que possam prejudicar o entendimento da verdade.”
Lucar perdia a noção do tempo. Porque tudo aquilo parecia tão familiar? Quem era aquele cara? Por que ele resolveu assistir justamente aquela palestra?
“Nosso jovem rapaz não vai salvar o mundo. Nem ao menos terá chance de se despedir da sua namorada. Ele vai ser atacado pela súbita realização e o livro termina. Porque um livro começa onde deve começar e termina onde deve terminar.”
“Nenhum personagem pode mandar no escritor. E o nosso pequeno jovem não pode fugir daquilo que o atormenta. Ele não quer, mas ele precisa descobrir a verdade…”
“Mas e qual é a verdade!?” gritou Lucas, antes mesmo que pudesse perceber o que fazia. Estava de pé, no meio do auditório, suando. Suas mãos tremiam e o coração batia acelerado. Ele sabia. Ele não queria acreditar, mas ele sabia.
O escritor sorriu, cínico.
“A verdade, jovem Lucas, é que você não existe. Eu criei você.”

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