Sobre Loucura

Ninguém lembrava ao certo quando o velho louco apareceu na cidade. De repente, no raiar de uma aurora qualquer, lá estava ele, conversando com os pombos. Usava uma longa barba cinzenta que ocultava uma camiseta verde musgo por baixo de um moleton azul claro. As calças jeans estavam surradas e os sapatos marrons quase furando. Não cheirava mal, não era sujo, só pobre, velho e louco.
Diziam as más linguas que era fugitivo da polícia, mas ninguém nunca apareceu para procurá-lo. E também, nunca causou nenhum tipo de tumulto para merecer a atenção das autoridades. Os policiais até procuraram por algum registro ou informação sobre ele. Sabiam apenas que se chamava Lucca.
Qualquer tentativa de conversar com o velho era infrutífera, resultando apenas em estresse, desespero ou ainda risos, dependendo do ponto de vista do interlocutor. O velho falava sobre como eram bonitas as cores da liberdade e sobre como ele gostaria de um pastel com o mesmo sabor. Quando menos inspirado, falava apenas com as pombas, ignorando qualquer um que se aproximasse. Sussurrava sobre os nutrientes presentes nos diferentes tipos de pão.
O velho louco morava sozinho em um quarto nos fundos de uma pensão. A dona da pensão dizia apenas que ele pagava, e nem ela e nem ninguém sabiam informar de onde ele tirava o dinheiro. O velho não trabalhava e muito menos pedia esmola. Vez ou outra alguém lhe pagava um almoço. “Não tem cor de liberdade”, ele dizia. “Tem gosto de vórtex caleidoscópico ambidimensional”, ele dizia. E ninguém entendia. Mas tudo bem, porque o velho louco era louco, afinal de contas.
A cidade não era grande, tampouco pequena. O velho louco não era o único louco – e muito menos o único velho. Havia a Lurdinha, uma senhora com cerca de sessenta anos, vinte quilos e hábito de tirar a roupa no meio da rua. O Zé da Paulista – grande Seu Zé! – vivia dizendo que era o fundador da Avenida Paulista. E o dono também. As vezes era dono, as vezes fundador. E haviam alguns outros, também, menos famosos. Gente que perde a cabeça e nunca mais encontra. Gente que só queria um pastel de liberdade que não tivesse gosto de vórtex caleidoscópico ambidimensional.
Mas acontece que em um crepúsculo qualquer, um forasteiro chegou a cidade. Era fim de tarde e ele pensou em passar a noite na pequena cidade antes de prosseguir viagem. Parou em uma pequena pensão e pediu por um quarto para passar a noite. A dona, muito simpática, ofereceu um quarto vago e disse para o viajante não se incomodar com os outros hóspedes.
Sem entender muito bem, o recém-chegado largou as suas malas no quarto e desceu novamente a fim de tomar um copo d’água. Da cozinha, ouviu a porta da frente se abrir e se fechar. Curioso e querendo se mostrar simpático, o novato foi até a sala dar um “olá”. Dizer “eu existo, eu vi você, não vamos nos perturbar mutuamente porque amanhã vou embora”. Ao baixar os olhos sobre a figura do velho, porém, o estranho exclamou, surpreso: Lucca!
O velho, surpreso e nervoso, tentava balbuciar alguma coisa, mas era tarde. O outro já estava com os braços ao redor do seu corpo, em um fraternal abraço. “Que disfarce é esse, cara? Por que a barba? Você não sabe o quanto nós te procuramos!”
A dona da pensão apareceu do alto da escada, abismada. O velho louco tinha amigos? Conhecidos? Família, talvez? Mais assustada ficou ao ver o velho levar a mão a barba e retirá-la do rosto com um gesto vagaroso. Por baixo do disfarce havia um homem que não devia ter mais de trinta e cinco anos. O que estava acontecendo?
“Obrigado, Renato.” o tom do velho – que não era velho – oscilava entre o cinismo e a mais pura raiva “Você conseguiu. Me achou. Feliz agora?”
“Eu não entendo, Lucca. Porque isso? Você saiu sem dizer nada, não avisou ninguém. Ninguém te achava”
“Bom, talvez porque eu não quisesse ser achado.”
“Mas agora eu te achei e eu quero uma explicação.”
“Já que ferrou com tudo mesmo, porque não, né? Eu tava cansado. Cansado daquela maldita empresa, de ter que lidar com as pessoas todos os dias, ouvir os problemas delas, ter que ser simpático, porra, porque é que as pessoas não podem viver suas vidas sem interferir nas dos outros? Para que tanto contato? Aí eu peguei toda aquela grana que eu nem sabia onde usar mesmo e me mandei pra cá. Um lugar pequeno onde eu podia evitar todo tipo de gente. Eu só queria ser uma espécie de heremita. Eu só queria que me deixassem em paz. Sem amigos. Sem inimigos. Só eu.”
“Se fazendo passar por louco.”
“Estava funcionando. Mas aí não! Tem que aparecer o Renato no meio do nada e me reconhecer por trás do disfarce. Vai se ferrar, cara.”
Lucca simplesmente passou pelo amigo e entrou no seu quarto, nos fundos da pensão. Nem dois minutos depois saiu com a mala na mão.
“E agora eu vou precisar de outro disfarce e outra cidade pequena. Valeu, cara. Valeu mesmo.”
E foi embora sem dizer para onde.

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