Sobre Bonecas Assustadoras

Luciano estava farto da vida na cidade grande. Trabalho, transito, barulho, poluição. Não queria mais. Estava farto, cansado, estressado. Resolveu, então, que sairia da cidade. Daria um jeito de viver em um lugar mais tranquilo, longe de tudo o que lhe perturbava. Vendeu seu apartamento a vista. Passou no banco e retirou todo o seu dinheiro. Colocou tudo dentro de uma sacola e entrou no carro, sem um destino muito certo.
Após algumas centenas de quilometros, avistando cada vez menos placas e mais árvores, Luciano se deparou com uma pequena cidade. Era simpática naquela maneira rupestre. Pequena e antiga como as vilas européias dos contos de fadas. Resolveu, então, que aquele parecia um bom lugar para trocar de vida. Tudo ali era simples e prático. As pessoas se cumprimentavam na rua. Perfeito.
Andou por algumas ruas, pediu algumas informações, e logo estava na imobiliária da cidade. O atendente ficou surpreso ao ver um rosto desconhecido. Aparentemente aquilo era raro na pequena cidade que nem prédios possuía. A impressão de Luciano era de que a imobiliária fazia as vezes de um pequeno jornal, sendo a sua única função divulgar quem estava vendendo o que, já que todos se conheciam na cidade mesmo.
– Em que posso ajudar? – Perguntou o vendedor, sendo genuinamente simpático
– Olá, eu estou querendo me mudar e estou procurando uma casa nessa cidade. Vocês tem algo a oferecer?
– Oh, o senhor está com sorte. Estamos com vários terrenos disponíveis, mas receio que sejam praticamente todos nos arredores da cidade e…
– Não, não. Perdão. Eu estou procurando um lugar para me mudar imediatamente. Não posso esperar para construir uma casa.
– Oh… Nesse caso – O jovem começou a remexer em alguns papéis – Eu receio informar que… não, espere! Temos uma casa, sim, mas…
– Mas?
– Ahn? Ah, nada. Temos uma casa, no topo da colina. O senhor gostaria de vê-la?
– Sim, por favor.
Saíram da imobiliária e entraram no carro da empresa. O atendente sorria, tranquilo, enquanto falava um pouco sobre a cidade. As ruas eram todas de paralelepípedo e as casas de estilo europeu. A vila surgiu por acidente. Os antigos senhores ricos das terras ao redor construíram uma pequena aldeia de verão, onde passavam as férias apenas entre pessoas selecionadas. Mandavam, porém, criados para tomar conta das casas durante o ano e deixar as coisas em ordem. Com o passar dos anos e a decadência dos senhores, os criados passaram a povoar a vila, que manteve seu aspecto de luxo simples das férias de campo.
Após andar por três ou quatro ruas, o carro saiu do caminho da cidade e seguiu por uma pequena estrada de terra. A medida que as árvores rareavam era possível observar uma casa maior e mais suntuosa que as demais. Era pintada de cores escuras e parecia ligeiramente abandonada, como se não recebesse visitantes há anos. O atendente da imobiliária tirou um grande molho de chaves do bolso e utilizou a maior delas para abrir a porta da frente. Havia muita poeira e teias de aranha nos móveis.
– Perdoe o estado da casa, ela não é muito visitada. As pessoas não se interessam em comprá-la.
– Estou vendo, mas porque não? É muito cara?
– Não, não foge muito do padrão das outras. Deve ser pela distância da cidade, sabe? A estrada de terra. As pessoas querem comodidade.
– Hum…
A casa era enorme. Havia um quarto com banheiro, um quarto de hóspedes, um banheiro social, uma sala de estar com lareira, cozinha, área de serviço e sótão. Os móveis remetiam ao século XVIII, de madeira, pesados e detalhados. As paredes precisavam de uma pintura, as portas rangiam um pouco e o sótão estava trancado. A chave provavelmente estava na imobiliária. Mas com uma ou duas semanas de trabalho a casa estaria como nova. Luciano fechou negócio. A casa mobiliada custou menos do que seu antigo apartamento na cidade e era quase duas vezes maior.
Os dois voltaram, então, para a cidade. Luciano assinou alguns papéis e pegou as chaves do imóvel. A chave do sótão não foi encontrada e já estava no final da tarde. O atendente se desculpou e prometeu providenciar a chave o quanto antes, mas Luciano não se importou com a demora. Não usaria o sótão tão cedo mesmo.
Após fechar negócio, entrou no seu próprio carro e foi até seu novo lar. O sol estava quase se pondo. Apesar de antiga, as instalações elétricas da casa eram muito boas. Luciano varria e tirava o pó dos móveis ao mesmo tempo que ia descobrindo certos detalhes sobre os mesmos. Havia algumas marcas de faca na mesa da cozinha, arranhões nas poltronas da sala e uma mancha escura no corredor que levava aos quartos. As paredes estavam descascando, mas poderiam esperar alguns dias para receber uma pintura.
Não havia comida na casa, então, a noite, Luciano comeu apenas alguns biscoitos que possuía dentro do carro. Estava cansado da viagem e da faxina, então resolveu dormir cedo. No dia seguinte lavaria as paredes e os pisos e iria até a cidade comprar algumas antiguidades para decorar a casa. Suas roupas já estavam no guarda roupa e seu grande saco de dinheiro da cidade estava ao lado da lareira.
Luciano deitou sob os lençóis e dormiu. Ou tentou. Acordou no meio da noite ouvindo um barulho muito alto no sótão. Parecia o movimentar de móveis e uma risada abafada. Quando tentou acender as luzes, viu que o interruptor não funcionava. Pegou então uma lanterna e seguiu, lentamente, até a escada que dava para o sótão. No meio do caminho se armou com um espeto de ferro que decorava a cozinha.
Com a lanterna em uma mão e o espeto na outra, Luciano encarava a porta do sótão, agora silencioso. Com a mão da lanterna, tentou abrir a fechadura. Para sua surpresa, a porta estava aberta. O feiche de luz da lanterna captou alguma coisa se movendo na escuridão. Movendo a luz, porém, tudo o que ele viu foi um vestido velho sobre uma cadeira. Do outro lado do sótão, porém, havia uma boneca assustadora. Os cabelos estavam cortados em comprimentos diferentes, o vestido sujo e as mãos retorcidas. Um dos olhos estava fechado e o outro aberto. A boca se retorcia em um estranho sorriso.
Enquanto Luciano a observava, o olho que estava fechado abriu e fechou novamente, em uma piscada lenta. O outro olho estava sempre aberto. Rapidamente ele voltou para a escada e fechou a porta do sótão atrás de si. Subitamente, acordou em sua cama com o sol em seu rosto.
Convencido de que foi tudo apenas um sonho, Luciano levantou da cama e se preparou para um novo dia. Tomou um longo banho e se preparou para sair de casa. Iria comprar algumas antiguidades para decorar a casa e na volta lavaria os pisos e as paredes. Até o fim da semana ainda tinha planos de pintar a casa e começar um jardim.
Entrou no seu carro e dirigiu pela estrada de terra batida. A cidade não ficava exatamente longe, talvez um quilometro ou dois, se muito. Para andar a pé até seria uma distância a considerar.
Primeiro Luciano procurou um mercado, onde comprou frutas, verduras, carnes e comida de forma geral. Não poderia viver de biscoitos para sempre. Depois parou em um pequeno restaurante para almoçar. De forma geral, todos pareciam excessivamente simpáticos e receptivos com ele, embora ninguém fizesse nenhum tipo de pergunta pessoal. Ninguém se interessava sobre de onde ele veio, se tinha família, nada. Parecia algo até mesmo atípico para uma cidade pequena.
No começo da tarde, deixou o carro estacionado em frente ao restaurante e saiu caminhando. Faria digestão, conheceria a cidade e procuraria uma loja por conta própria. As ruas eram tranquilas, tudo parecia perto e silencioso. Haviam mercados, lojas de roupa e casas. Muitas casas. Era aquilo que Luciano precisava, fugir da cidade grande.
Encontrou, depois de algum tempo caminhando, um antiquário. Estava vazio, então Luciano pode observar a vontade os produtos. Haviam baús, vasos, móveis, quadros, e uma série de outros objetos. Todos muito delicados. Luciano não sabia bem o que estava procurando, então observava tudo com interesse. Levou um susto ao perceber que não estava mais sozinho na loja. Sentado em uma cadeira, ao fundo da loja, estava um senhor de muita idade. Usava uma longa barba cinzenta e vestia roupas simples. Seu olho esquerdo vagava desnorteado, enquanto o direito estava fixo no cliente.
– Oh, olá, eu só estou dando uma olhada aqui.
O velho riu. Só então Luciano percebeu que estava em seu colo uma pequena caixa de madeira de um forte tom escarlate ornamentada de pequenos detalhes e fechadura prateados. Luciano pôde ouvir os ossos do velho estalando a medida que movia a mão para lhe estender a caixa. Depois de pegar a caixa o velho estendeu a chave. Uma pequena e suja chave prateada. Ao observar de perto, Luciano percebeu que o seu nome estava escrito na chave, e logo sabia, de alguma forma, o que estava dentro da caixa.
Com cuidado, Luciano colocou a chave na fechadura e girou. A tampa fez um leve estalo, revelando que poderia ser facilmente aberta. Ao empurrá-la para cima, Luciano encontrou a mesma boneca do seu sótão. O mesmo cabelo mal cortado, as mesmas roupas sujas e o mesmo olho que não se fechava, olhando fixamente para ele. Fechou a tampa com força e olhou novamente para o velho, mas ele não estava mais ali. Havia apenas a cadeira de madeira. Luciano então saiu da loja e voltou para seu carro. Dirigiu apressadamente até sua casa e só então se deu conta de que ainda carregava a caixa de madeira.
Levou a caixa até o sótão e a largou lá dentro, sem nem mesmo se perguntar como a porta estava destrancada. Assustado e desesperado, mas sem saber o que fazer, Luciano foi cuidar do jardim. Ficar exposto a luz do sol lhe faria bem. Cavou alguns buracos na terra, arrancou mato e ervas daninhas, cortou a grama. Não tinha sementes ainda, mas, se tudo desse certo, poderia plantar flores e árvores frutíferas ainda no dia seguinte. Depois decidiu que lavaria o chão da casa. Ao chegar na área de serviço em busca de baldes e escovão, porém, Luciano encontrou, novamente, a boneca. Parada, sobre o armário, observando. Assustado, pegou os baldes e saiu. Sem tocar na boneca. Quando chegou na sala, porém, viu que ela estava lá. Sobre a lareira. Observando. A boca moldada naquele sorriso torto.
Luciano correu de volta para a área de serviço, apenas para confirmar o que temia: A boneca não estava lá. Não era outra boneca. Era a mesma. Voltou, cautelosamente para a sala. A boneca estava lá. Seu olho sempre aberto. Luciano riu. Riu alto. Encheu os baldes com água e começou a limpar o chão, sendo observado pela boneca. Quando terminou a sala e passou para o corredor, lá estava ela novamente. E quando foi jogar a água suja fora de casa, a boneca esperou do lado de dentro, olhando pela janela. Observando.
Quando a noite chegou, Luciano tomou um banho e vestiu seu pijama. Foi até o seu quarto e viu, novamente, a boneca. Sob sua mesa de cabiceira, apenas esperando. Ele riu. Um riso desesperado. E deitou na cama. Virava para um lado, virava para outro. Toda vez que fechava os olhos podia sentir a boneca observando. Desistiu, então, de tentar dormir. Foi até a cozinha preparar um chá. Esquentou a água, colocou o sachê e colocava mel tranquilamente quando escutou uma voz fraca e aguda, como uma criança:
– Você realmente precisa de todo esse mel?
Era a boneca, sentada na mesa.
– Ok, agora chega!
Luciano violentamente agarrou a boneca e a levou para o sótão. Abriu a caixa de madeira e jogou a boneca dentro, trancando logo em seguida. Carregou a caixa para baixo até a sala de estar, onde a jogou na lareira. Em seguida pegou alcool e fósforos e colocou fogo na caixa, logo ao lado do saco de dinheiro da cidade grande.
Luciano ria desesperadamente enquanto via a chama acender e a sala se encher de fumaça. A chaminé devia estar fechada e Luciano não poderia abrir agora que as chamas estavam altas. Quando foi abrir a porta para sair dali, porém, percebeu que estava trancada. A porta que levava até o corredor também não abria. A fumaça começava a tomar conta de toda a sala e tornava difícil a respiração.
Ele correu então até a janela, na esperança de um pouco de ar. Qual não foi a sua surpresa ao perceber que ali, do outro lado da janela, estava a boneca. Observando com seu olho sempre aberto. Não era ela quem estava na caixa em chamas. Era ele.

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