Sobre Divindades

Começou como uma pequena chateação. Rodolfo estava calmamente andando pela rua quando um homem de meia idade chegou até ele, tocou em sua mão e se ajoelhou:
– Salve, Rodolfo, senhor de todo o universo. Imploro para que perdoe os meus erros e me ofereça suas bençãos hoje e sempre!
O jovem, assustado e confuso, saiu de perto do homem. Este, ainda ajoelhado, observava os próprios dedos com a admiração de quem tocou em algo sagrado. E o que poderia ser um episódio isolado de um maluco urbano qualquer, logo começou a crescer.
Ao andar nas ruas, fazer compras ou simplesmente aparecer na janela de casa, o universitário reparava em pessoas olhando-o fixamente. Umas com medo, outras com adoração. O espelho não revelava nada de anormal. O mesmo cabelo castanho, os mesmos olhos verdes, a mesma cara de cansado de um estudante de dezenove anos.
Duas semanas depois do primeiro homem, ao fazer compras no mercado Rodolfo foi surpreendido por uma senhora. Era uma mulher com quase setenta anos e acompanhava uma criança pequena. Elas pararam e olharam para ele. A mais velha, então, explicou à criança:
– E esse, minha netinha, é o nosso Deus comprando ervilhas.
– Ele gosta de crianças, vó?
– Ele gosta de todos nós, pequena. Agora vamos andando.
Rodolfo apenas observou ambas se afastarem. A atmosfera ao redor era simplesmente surreal. Aquelas pessoas que surgiram do nada e foram para lugar algum após afirmar, com todas as letras, que ele, com a lata de ervilhas na mão e tudo, era Deus.
Obviamente que tudo poderia fazer parte de um contexto maior. A idosa poderia estar falando sobre como Deus está presente em todas as coisas do universo e como cada pessoa é bondosa ou algo assim. Mas impossível não associar com o maluco na rua, no outro dia.
E o tempo passou, com cada vez mais pessoas olhando e cochichando. E nem bem cinco dias depois, ao entrar em uma livraria, outra surpresa:
– A que devemos a honra de sua abençoada visita, senhor Criador?
O atendente da livraria falava em tom pomposo e educado, obviamente se dirigindo ao cliente de chinelo, bermuda e camiseta que entrava na loja. Rodolfo apenas observou, sem saber ao certo como reagir aquilo. Todos ao redor o olhavam com adoração.
– O que está acontecendo aqui!? Porque vocês acham que eu sou Deus?
– Nosso Senhor testa a nossa fé! – Gritou outro cliente – Alegando não ser quem realmente é para que possa ver o quanto cremos na verdade. Mas nada teme aquele que nada deve. Deus Rodolfo, criador do céu e da Terra, não achamos que o senhor é Deus porque não há opiniões que possam contrariar os fatos.
– Mas eu nem mesmo…
– Viva o nosso Deus!
E todos os clientes da livraria, e todos os vendedores e algumas pessoas que passavam pela rua se ajoelharam e louvaram. E Rodolfo correu para longe. Aquilo estava errado. Aquilo estava muito errado.
Rodolfo nunca foi exatamente um rapaz religioso. Acreditava em um Deus – que, definitivamente, não era ele mesmo – mas dificilmente ia para igreja ou algo assim. Frente a tal situação, porém, resolveu ver se conseguiria algum apoio divino.
Entrou no templo sorrateiramente e se ajoelhou em algum dos bancos. Começou a se concentrar e rezar. Ou fazer perguntas ou algo assim. Estava em silêncio, apenas organizando os pensamentos. Foi subitamente interrompido pela voz cansada do padre já idoso:
– Os mistérios divinos são mesmo fascinantes. Nosso Senhor Rodolfo conversando consigo mesmo. Para quem Deus pede ajuda quando se sente só? Deus nunca se sente só, eu acho, e talvez, assim como nós, apenas procure a igreja para refletir melhor. Sua presença aqui sempre foi louvada, Senhor, e me sinto honrado de poder lhe receber. Mas me responda, Todo Poderoso, o amor entre dois homens é, afinal, certo ou errado?
Rodolfo arregalou seus olhos. Aquilo era completamente surreal. Nada fazia sentido. E o que diabos ele tinha a ver com o amor dos outros? Rodolfo correu. Correu para fora e correu pelas ruas. As pessoas gritando e cantando hinos de adoração. O jovem se trancou em casa.
Perdeu um pé do chinelo no caminho, mas não sairia de casa para procurar. Do jeito que o mundo estava era bem possível encontrar uma “Igreja da Chinela Sagrada” assim que colocasse o pé para fora. Não, o garoto não sairia. E não saiu.
Três dias depois alguém bateu na porta da sua casa.
– Quem é?
– Aqui é a polícia federal! Temos um mandado para prendê-lo, Rodolfo! Abra a porta ou teremos que usar a força.
– Me prender? Mas por quê?
– Um homem entrou em um teatro e metralhou a platéia. Houveram sete mortes. Depois de preso ele alegou que fazia tudo em seu nome. Abra a porta agora!
Rodolfo abriu a porta e a polícia o algemou. Levaram-no até o carro e o transportaram para a delegacia, onde seria escutado. No caminho ele percebeu as placas nas igrejas. “Igreja Rodolfista”, “Igreja do Rodolfo do Sétimo Dia”, “Igreja do Evangelho Rodolfangular”, “Igreja Rodolfica”.
Tentou explicar a verdade na delegacia. Ele era um jovem normal, estudante, morando sozinho, nunca ouviu falar do acusado antes. O delegado apenas respondeu:
– Não minta para nós, Senhor, todos sabem que você é onisciente. Não sei se isso faz parte de um plano maior ou não, mas devemos prendê-lo mesmo assim. E que meus erros sejam perdoados, Rodolfo.
E Rodolfo foi fichado e enviado a prisão. Recebeu um uniforme e foi mandado para a sua cela. Os presos o olhavam admirados.
– O nosso Deus é o Deus dos humildes! – diziam – Rodolfo se juntou a nós para compreender o nosso sofrimento, perdoar os nossos erros e nos guiar a salvação!
Logo um agito começou. Os presos, exaltados, queriam sair das celas mediante a promessa de liberdade que Rodolfo significava. Os policiais tentavam contê-los e logo começou a violência. Uma grande briga. Rodolfo precisou ser retirado do local. Foi realocado em outra cela, sozinho.
Não entendia mais nada do que se passava, mas talvez já nem se importasse mais. Era confuso, desesperador. Em um momento é apenas um cara andando na rua e, no momento seguinte, é Deus. Se ao menos tivesse os poderes dele ou algo assim.
No dia seguinte, Rodolfo foi levado para junto dos outros presos, que pareciam menos agitados. Ficou isolado durante o dia, deprimido e confuso. A noite, um dos presos quebrou o seu pescoço. Por que de nada adiantava um Deus que não salvava.
Seu corpo foi retirado da prisão e mandado para o necrotério. E três dias depois, não ressucitou.

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