Sobre Sonhos

Acordei em um pulo. Daqueles que a gente mexe as pernas e sente uma momentânea falta de ar. Quando o nosso cérebro pensa que estamos morrendo. Acordei assim. Abri os olhos rapidamente, ainda tentando me localizar. Estava no meu próprio quarto, na minha cama, obviamente. Onde mais poderia estar dormindo? Procurei pelo relógio digital, na cabeceira da cama. Quatro horas e vinte e sete minutos. Madrugada.
Eu estava tendo um sonho, não estava? Não era um pesadelo, mas também não era um sonho bom. Era um daqueles sonhos estranhos, confusos. Eu estava na rua, eu acho. Ou seria no parque? Não, claro, eu lembro, eu estava na rua, logo acima da escadaria que dá acesso ao parque. Alguns carros passavam, era dia claro, ainda. E tinha uma garota. Quem era ela mesmo?
Baixinha, pequena, corpo magro, cabelos negros e curtos. Ela estava de costas. Conversamos alguma coisa, parecia importante. Eu gostava de estar ao lado dela, mas… quem era ela?
De repente eu não estava mais na rua. Eu estava sentado na escadaria do parque. Não, minto, não era o parque. Eu estava nas escadas da universidade, apoiado na parede, ocupando quase que o degrau inteiro. Ela também estava lá, os braços apoiados nos joelhos. Ela me julgava e soltava palavras duras. De repente nos beijamos, não sei porque. Eu a observei atentamente. Não lembro do seu rosto, do seu cheiro ou da sua voz. Só consigo me lembrar dos seus olhos. Duas esferas amareladas, um tom muito raro. Mas eram muito mais do que bonitos ou profundos. Eram olhos confiantes, penetrantes, certeiros. Eram os olhos de quem tinha o mundo nas mãos e sabia disso.
Me revirei na cama algumas vezes, tentando dormir. A imagem da garota misteriosa não saía da minha cabeça. Quem era? Porque eu sonhei com ela? E, mais importante, por que ela não me deixava dormir?
Fechei os olhos, virei para o lado. Virei para o outro lado e voltei para o primeiro. Fiquei de bruços e de barriga para cima. Olhei para o relógio: Cinco e cinco. Não adiantava, não ia mais dormir.
Levantei e fui para a escrivaninha. Peguei uma folha de papel em branco e um lápis. Com alguns poucos riscos dei forma a um nariz. Depois comecei a dar forma ao rosto e aos cabelos. Os cabelos eram curtos, estilo pixie, e bastante pretos. Não me recordava bem se haviam sardas no rosto dela ou não. Tomei um cuidado muito grande ao desenhar os olhos. Eram grandes, bonitos, mas não era isso que eu queria transmitir. Eles deviam ser fortes, confiantes. Não posso dizer que alcancei o objetivo, mas não falhei também. Eles eram muito mais vívidos no meu sonho, mas o desenho estava bonito.
Paralelo a isso, o sol já clareava o horizonte. Passava das seis horas da manhã. Fui ao banheiro, tomei um banho quente, escovei os dentes, fiz a barba, me vesti. Preparei uma xícara de café e saí de casa, rumo a universidade. Levei o desenho comigo.
Ainda era cedo quando cheguei. Poucas pessoas estavam presentes. Encontrei um grupo de amigos conversando e me aproximei. Estavam lá o Lucas, o Marcelo, o Gustavo, a Ana e a Julia, falando sobre as provas da semana que vem. Cumprimentei a todos e comecei a ouvir a conversa. Foi o Gustavo quem reparou no meu estado e comentou que eu parecia bem acabado. Perguntou se eu não estava estudando demais. Respondi que não, que estava daquele jeito por causa de um sonho estranho que tive e que não consegui mais dormir. Narrei o  sonho e mostrei o desenho. Todos concordavam que era uma moça muito bonita, mas ninguém a conhecia. A Julia, muito empolgada, sugeriu que eu a encontrasse. Ri, é claro. Como encontrar uma garota que só existe nos meus sonhos?
A Julia começou a explicar que é impossível sonhar com pessoas que não existem. Se eu sonhei com essa garota é porque eu a vi em algum lugar. Talvez se eu refizesse os meus passos de ontem eu a encontrasse. Ela ficou muito empolgada e se prontificou a ir comigo. Para ela era tudo uma brincadeira de detetive.
Aceitei. Não é como se eu tivesse mais o que fazer mesmo. Seria engraçado e uma boa maneira de passar o tempo, mesmo que não a encontrasse. Além do mais, a Julia era uma companhia sempre divertida de se ter por perto. Os outros, obviamente, não quiseram nos acompanhar por motivos de trabalho, preguiça ou falta de vontade mesmo.
Passamos a manhã toda na aula, como sempre. Depois almoçamos juntos, eu e a Julia. Ela falava sobre muitas coisas ao mesmo tempo, era uma garota muito enérgica. Eu comi de forma rápida e apenas afastei meu prato para esperar que ela terminasse o dela. Em seguida, ela pediu para que eu contasse tudo o que fiz no dia anterior, afinal, teríamos que revisar cada um dos meus passos.
O dia anterior foi quarta-feira. Pela manhã estive na universidade, como sempre. Almocei no restaurante onde nos encontrávamos naquele momento, depois fui até o centro da cidade. Fui comprar um par de sapatos novos, depois me dirigi até a papelaria e, por fim, fiz uma parada rápida na livraria.
Julia tinha carro, mas afirmava que seria vital para a nossa investigação que fôssemos a pé. A garota poderia muito bem ter sido vista no caminho e não podíamos deixar que escapasse de nossa vista. Ela estava realmente se divertindo com aquilo tudo.
Saímos do restaurante e fomos caminhando devagar, observando as pessoas ao nosso redor. Devíamos parecer dois turistas indiscretos, olhando para todos os lados ao mesmo tempo. Se não isso, no mínimo, estávamos bem idiotas.
A caminho da loja de sapatos lembrei de um detalhe importante. Eu havia parado na banca de revistas para ver se não encontrava palavras cruzadas. Julia rapidamente me puxou pelo braço e entramos na banca de revistas. A garota que atendia era jovem, mais ou menos da nossa idade. Tinha os cabelos loiros e compridos, olhos castanhos e um tipo físico bastante magro. Quando mostramos para ela o desenho, reparei que alguns traços do rosto do desenho eram bastante semelhantes com os da moça da banca, em especial o queixo e o nariz.
Muito simpática, a moça se recordava da minha visita no dia anterior, mas nunca havia visto a moça do desenho antes. Nos desejou boa sorte e disse que poderíamos voltar sempre que precisássemos de algo.
Saímos dali e prosseguimos até a loja de sapatos. Assim que entrei uma das atendentes veio me perguntar se havia algum problema com os sapatos novos. Sorri constrangido e disse que não. Julia tomou a frente e disse que estávamos procurando uma pessoa. Tirou o desenho da mochila e perguntou se a atendente conhecia a personagem. Ela pegou o desenho e saiu perguntando para as outras atendentes. Quem veio me devolver o desenho foi a mesma moça que me vendeu os sapatos. Uma garota um pouco alta, com cabelos escuros e sardas no rosto. Aparentemente nenhuma das garotas havia visto essa cliente. Ela se desculpou e perguntou se não havia mais nada que pudesse fazer para ajudar.
Agradecemos e nos retiramos. Não foi ali que vi a moça dos meus sonhos também. Seguimos a rua principal em direção a papelaria. Julia comentava sobre como as moças eram simpáticas e como a mocinha das sardas não tirava os olhos de mim e quase brigou para vir me devolver o desenho. Confesso que não prestei atenção em nada disso.
Caminhamos um pouco, observando as pessoas que iam e vinham pela rua. Nenhuma delas era a garota que procurávamos. Chegamos a papelaria e ali fui recebido com sorrisos. Eu podia não ser nenhum artista, mas era um cliente frequente. Na verdade eu adorava desenhar, especialmente retratos. Quem veio nos receber foi a Karen. Uma vendedora alta, quase do meu tamanho. Usava os cabelos castanhos muito curtos, com algumas luzes, ela que me ensinou que o nome do tal corte de cabelo era “pixie”. Era uma moça sempre sorridente e prestativa. Perguntou se eu esqueci de alguma coisa, papel, caneta, algo assim.
Esclareci que não e mostrei o desenho. Ela prontamente chamou todas as pessoas para verem aquilo. Só então me dei conta de que comprava materiais com eles há meses e nunca havia mostrado um trabalho sequer. Julia explicou a história do desenho e de como eu sonhei com a moça que agora nós procurávamos. Todos se olharam, buscando alguma manifestação, mas não. Ninguém a tinha visto. Agradeci, prometi trazer outros desenhos para que vissem que o material estava sendo usado, e saímos.
Julia ainda não estava desanimada. Ela tinha certeza de que encontraríamos a garota na livraria. Bem o perfil “garota de livraria” de filme americano, ela comentava. Eu não concordava, mas não estranharia também. Era possível, creio.
A livraria era relativamente grande. Fomos seguindo os meus passos, primeiramente observando os lançamentos. Ignorávamos completamente os títulos, focando nos vendedores e clientes. Eu não sabia dizer se todas as garotas que trabalhavam ali eram bonitas ou se eu possuía algum tipo de fetiche com garotas e livros, mas a segunda opção parecia mais próxima da realidade. Depois de perambular pela sessão de literatura internacional e quadrinhos, resolvemos pedir ajuda. Chamamos uma menina que trabalhava ali, uma garota um pouco acima do peso, com os cabelos presos em uma trança. Mostramos o desenho para ela e fizemos as perguntas de sempre. Assim como nos outros lugares, a moça pegou o desenho e foi pedir ajuda aos colegas. Voltou algum tempo depois e disse que não. Ninguém viu a moça do desenho. O modo como a garota falava, olhando diretamente em meus olhos, me incomodava um pouco. Era como se ela observasse diretamente no fundo da minha alma. Como se não houvesse medo ou dúvida para esconder. Agradeci mais rápido que o habitual e saímos da livraria.
Sentamos em uma sorveteria para descansar um pouco. Julia parecia chateada, então achei que um sorvete de chocolate a deixaria melhor. Ela realmente queria encontrar o amor da minha vida e servir de cupido. Eu até consigo imaginar ela contando para todo mundo como foi ela, e somente ela, a responsável pelo meu namoro, casamento e nascimento de sete filhos saudáveis.
Não foi dessa vez, porém. Eu já estava contente só por ter saído de casa e me divertido um pouco. Julia comentava que a menina da livraria estava me devorando com os olhos e que talvez eu devesse parar de sonhar e perceber o que acontecia ao meu redor, mas eu não estava realmente prestando atenção nela. Eu sentia que estava faltando alguma coisa.
Levantei subitamente da cadeira. Em seguida, percebendo que todos estavam olhando para mim, me sentei. Comentei com a Julia que eu havia esquecido um pequeno detalhe. No dia anterior, na universidade, eu não fui direto para a aula. Eu precisei passar no outro prédio para corrigir um erro na minha matrícula. Talvez fosse alguém de lá.
Minha amiga quase engoliu o sorvete inteiro, de tão rápido que terminou. Saímos da sorveteria e pegamos um ônibus direto para a universidade. Ela variava entre me xingar por ter esquecido algo tão fundamental e dar pulinhos empolgados pela busca não ter terminado.
Chegamos na universidade e nos dirigimos para o prédio da administração da universidade. Perambulamos pelas salas, fomos até a secretaria, nada. Havia um homem por trás do balcão, perguntamos a ele sobre a menina do desenho, mas ele não soube responder. Nunca viu ninguém como ela por ali, e ele já trabalhava ali fazia anos. Agradecemos e nos retiramos, cabisbaixos. Até eu já estava ficando empolgado a essa altura. De repente, porém, olhei um pequeno vão entre os prédios. Uma espécie de beco escuro, com uma torneira e algumas caixas. Me aproximei devagar e, entre as caixas, percebi dois brilhantes olhos amarelos me observando.
Fui mais perto e mais perto. Quando estava já dentro do beco percebi o que eram aqueles olhos. Um gato. Um gato preto escondido entre as caixas. Julia ficou me olhando, esperando uma explicação. Eu, meio sem jeito, expliquei que os olhos da garota dos sonhos eram muito parecidos com aqueles, principalmente a cor.
Observei novamente o desenho que fiz no meio da madrugada. Os traços da moça da banca de jornal, o cabelo da atendente da papelaria, as sardas da vendedora de sapatos, os modos da garota da livraria e os olhos de um gato preto.
Era isso. A garota existia, sim. Talvez Julia tivesse razão. Eu tinha que parar de sonhar com a garota ideal. Ela estava ali, em toda parte. Toda garota tem algo de bonito e interessante. É possível se apaixonar rapidamente se soubermos encontrar a beleza. Ninguém é perfeito e nunca encontrarei a garota dos meus sonhos, mas posso muito bem acordar e encontrar a garota com quem eu quero sonhar. Não posso simplesmente separar as partes das pessoas e criar um Frankenstein bonito. É preciso aceitar as pessoas como um todo, com defeitos e qualidades. Julia ficou decepcionada, mas achou uma conclusão bonitinha.
Coloquei meu braço por cima dos ombros dela, fiz um ligeiro cafuné e saímos do beco, sorrindo. Estava terminada a aventura. O gato saiu do seu esconderijo, mais tranquilo com a ausência de pessoas. Caminhou um pouco pelo campus da universidade e logo foi encontrado por sua dona. Uma garota que estava andando por aquela região fazia uns dias, a procura do seu gato. Uma garota de lindos olhos amarelos.

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2 Respostas to “Sobre Sonhos”

  1. Maria Paula Fontana Says:

    Aloha, Arthur! Tava passando por aqui e… bom, quase fiquei presa nas teias de aranha. Por novos contos, oremos! rs 🙂

    • Arthur Losquiavo Says:

      Ah, nem me fale! Pior que eu andei tendo umas ideias bem bacanas esses tempos, mas né? Último ano de faculdade, não tem sobrado tempo pra muita coisa. Mas em breve, quem sabe, não sai algo novo, haha 🙂
      Qualquer novidade eu faço questão de avisar 😀

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