O Restaurante Onde a Comida Não Tinha Gosto de Nada

Em um bairro afastado de uma cidade grande, dentro de uma pequena viela, escondido dentro de um pequeno porão e identificado por uma pequena placa de madeira, havia uma restaurante onde a comida não tinha gosto de nada.

As paredes do restaurante eram velhas e de aspecto desbotado. As toalhas estavam encardidas, os porta-guardanapos sujos e o quadro que tentava – futilmente – decorar a parede da esquerda estava torto.

O restaurante servia buffet durante o horário de almoço e lanches no período da tarde. Havia uma pequena porção de opções no cardápio do almoço e algumas variedades do lanche da tarde, mas todas elas, invariavelmente, não tinham gosto de nada.

O dono do restaurante, Seu José, não se importava. Era um homem grande e carrancudo que cozinhava a mesma comida do mesmo jeito com os mesmos ingredientes há exatos quatorze anos, três meses e vinte e dois dias, desde que a garota que amava começara a namorar com outro.

O restaurante era, por mais incrível que pareça, bastante frequentado. O velho Frederico almoçava ali todos os dias. Todos os dias o velho Frederico chegava, pegava o seu prato, servia salada, arroz, feijão, a carne do dia e um pouco de massa. Pesava o seu prato – nunca mais do que quinhentas gramas –, pegava os talheres e se dirigia a mesma mesa para comer. Nunca reclamou do sabor da comida porque a comida não tinha sabor algum. Só deixava de ir ao restaurante duas vezes por ano: No Natal e no próprio aniversário, quando os filhos o convidavam para um almoço em família.

Luzia, a poeta, almoçava ali todos os dias. Saía do seu turno no trabalho, ainda com o uniforme da loja, largava a bolsa em uma mesa qualquer, nunca a mesma mesa, e servia o seu prato. Muita salada, um pouco de arroz branco e, as vezes, um pedaço de carne. Terminava de almoçar em menos de dez minutos, mas passava os vinte seguintes sentada, rabiscando versos em um caderno que trazia dentro da bolsa. Tinha tantos poemas escritos quanto publicações rejeitadas.

Durante a tarde Marcos, office boy do escritório da rua de cima, descia para comer alguma coisa. Geralmente um pastel. Assistia um pouco do que quer que estivesse passando na TV e logo voltava para o escritório. Pendurava a conta para pagar no final do mês, quando recebesse o salário. No mês de setembro nunca aparecia, para economizar o dinheiro do lanche e comprar um presente de aniversário para sua namorada, que sempre lhe perguntava quando arrumaria trabalho melhor.

Haviam também os outros visitantes frequentes, como Manoel, o carteiro; Dona Cíntia, a costureira; Lucas, filho da Dona Hilda. Figuras corriqueiras, que passavam por ali, pegavam alguma coisa para comer e voltavam, correndo, para a sua rotina. Sem ter tempo sequer para perceber que a comida do restaurante não tinha gosto algum.

E fazia já algum tempo que Felipe começara a frequentar o restaurante. Encontrou o lugar enquanto procurava emprego. Andava sempre com um currículo embaixo do braço. Usava uma camisa branca, mas com o colarinho encardido. Usava uma gravata azul marinho, mas com o nó frouxo. Usava um terno preto, mas um número menor do que o recomendado. Estava com uma aparência quase apresentável, mas não estava.

O restaurante do Seu José era barato, era perto, e não era ruim. Uma comida sem gosto ainda é melhor do que uma comida com gosto ruim. E Felipe incorporou o ambiente a sua rotina. Saía pela manhã a procura de emprego, distribuía currículos, conversava com pessoas e descia as escadas para o restaurante.

Almoçava arroz, feijão, carne e massa. Sem salada. Bebia uma água sem gás para acompanhar. Se sentava sozinho em uma mesa no centro do restaurante e nunca conversava com ninguém. Terminava de comer e ia até o balcão tomar um café. Bebia lentamente, como se não quisesse encarar que devia se retirar do ambiente e voltar a exaustiva rotina de desempregado.

E assim se seguiam os dias e os dias que prosseguiam aos dias até que se perdessem as contas das páginas do calendário ou que algum evento extraordinário acontecesse. Até que um evento extraordinário aconteceu.

O dia amanheceu cinzento e sem sol, com os ventos fracos fazendo com que as pessoas se arrependessem de ter esquecido seus cachecóis dentro do armário. Seu José já estava no restaurante preparando a comida do almoço. O velho Frederico lia o jornal dentro da sua casa. Luzia vestia o uniforme da loja onde trabalhava. Marcos perdia o horário do trabalho devido a um mal funcionamento no seu despertador. Felipe arrumava o nó da gravata – sem perceber que continuava frouxo – e colocava um currículo embaixo do braço.

A manhã transcorria completamente igual a tantas outras, não fosse pela insistência do sol em não sair de detrás das nuvens. E não fosse um pequeno filete alaranjado que podia ser facilmente visto perambulando pelas ruas quando olhado do topo de um edifício.

Tudo transcorria exatamente como sempre transcorrera, com exceção do vento constante e gélido que fazia com que as pessoas se encolhessem em suas próprias roupas. E com exceção do “toc-toc” constante que fazia um sapato azul marinho que nunca andara por aquelas calçadas antes.

O meio dia chegou da mesma forma que chegava todos os dias, fosse como fosse, sem exceção. E ao meio dia Felipe entrou no restaurante do Seu José e foi se servir no buffet. E naquele dia, onde tudo parecia transcorrer de modo diferente dos outros dias como aquele, algo diferente aconteceu novamente. E naquele dia, dentre tantos outros dias, entrou pela porta do restaurante uma moça de longos cabelos alaranjados, sardas no rosto e pequenos olhos verdes. Vestia uma blusa branca e um casaco fino demais para o frio que fazia. E usava sapatos azuis marinho que em nada combinavam com a simplicidade do restaurante. E o olhar de Felipe se encontrou com o olhar da moça por meia fração de segundo e nada mais aconteceu de diferente.

Felipe voltou a servir a sua comida e a moça entrou na fila do buffet. E Felipe pesou o seu prato e pegou a sua comanda e largou tudo em cima de sua mesa. Quando, surpreendendo a todos – mas não mais do que ao próprio Felipe – o seu celular tocou. O restaurante, sempre silencioso e taciturno, foi subitamente invadido pelo som de uma melodia polifônica que tentava simular um riff de guitarra composto havia pouco menos de quarenta anos por um músico excêntrico nos subúrbios de Nova York.

E a atenção de todos se voltou novamente para os seus devidos pratos enquanto Felipe murmurava ao telefone. E da ligação veio a notícia de que seu currículo despertara a atenção de um pequeno empresário e que uma entrevista estava sendo marcada. Ao desligar o telefone, ainda com um sorriso no rosto, o homem percebeu uma pessoa se aproximando. E ao virar o rosto se deparou com dois pequenos olhos verdes que, acompanhados de um sorriso tímido e da voz baixa de sua dona, revelavam que aquela música era a sua favorita e quem sabe ela não poderia se sentar para almoçar com ele?

E então Felipe sorriu e concordou e observou a moça. E sorriu percebendo o laranja de seus cabelos, e o verde de seus olhos. E observou o branco de sua blusa, o preto de seu casaco, o azul dos seus sapatos. E só então percebeu o amarelo que cobria as paredes do restaurante, o vermelho do porta-guardanapos, e até mesmo o azul do quadro torto da parede da esquerda, que alegremente decorava o ambiente. E viu o grisalho do bigode do velho Frederico, e o lilás da capa do caderno de poemas de Luzia, viu todas as cores e formas de tudo que estava ao seu redor enquanto ouvia a voz suave da moça que comentava sobre a coleção de discos que ganhara do avô. E comentou e conversou sobre música, e sobre cinema e sobre o clima e a cidade. E a moça, que era nova, quis conhecer tudo e sair com ele e quem sabe não poderiam se conhecer melhor. E em meio a toda euforia e alegria que coloria a sua vida, Felipe levou o garfo a boca e pôde, pela primeira vez desde que passara a frequentar o restaurante, sentir o sabor da comida.

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