O Grande Totem de Gelo

Todo viajante que ousasse se aventurar por dentro do caminho dos Picos Congelados sabia que poderia encontrar abrigo na pequena vila de Targrum, cujas cabanas foram construídas ao pé de um vulcão inativo há mais tempo do que os anciões eram capazes de lembrar. Após a primeira montanha os viajantes poderiam optar por seguir caminho para o topo da próxima, ou descer a encosta em busca de abrigo e alimentação.

Por ficar ao pé de um vulcão inativo, o vilarejo se valia de fontes de águas termais. Além de conforto e proteção contra o frio, o vapor da água ajudava a manter a temperatura ambiente um pouco menos desagradável. Era fonte de turismo e era, também, onde os membros do povoado se reuniam para os momentos de lazer.

Todos os viajantes que por lá passavam, porém, precisavam antes de mais nada cumprimentar e agradecer ao imenso totem de gelo que se localizava no meio da cidade. O totem estava lá muito antes do avô do ancião da aldeia ser, ele mesmo, o ancião. O totem sempre estivera lá sendo um símbolo de paz, harmonia, e também de frieza e apatia.

A base do totem era composta por desenhos rústicos, cujo significado há muito se perdera. Após havia o desenho de um lobo, sob um urso, sob um falcão. A imensa escultura devia chegar a quase quatro metros de altura, sendo larga o bastante para que uma pessoa sozinha não fosse capaz de abraça-la.

O que tornava o totem único e idolatrado, entretanto, não era seu tamanho ou sua arte, mas sim o estranho fato de o totem nunca derreter.

Por mais que estivesse localizado em uma região fria, o totem nunca sofreu a ação dos vapores das fontes. Tampouco se curvava perante o sol do verão ou se esfarelava nos ventos do inverno. Dia e noite o totem continuava impassível no centro da aldeia, causando os mais diversos sentimentos dentre os moradores e viajantes.

Os viajantes idolatravam e pediam forças ao grande totem. Tal qual o lobo, tomavam a frente de suas vidas e buscavam ser aquele que guiaria os seus para um caminho melhor, para uma vida mais fácil. Tal qual o urso, não se apressavam e sabiam muito bem quando parar e quando prosseguir. E ainda assim procuravam manter a vista erguida e os olhos atentos, feito o falcão.

Para o viajante, o Grande Totem de Gelo – como era chamado – era um exemplo a ser seguido. Uma fonte de inspiração. Não havia viajante que não desejasse ser forte e firme como o totem. Nem as montanhas, tampouco os caminhos além delas, seriam mais fortes do que aqueles que realmente quisessem atravessá-las. E não importa quantas pessoas entrassem e saíssem de suas vidas, o totem permanecia sempre forte.

Nem todos os moradores do vilarejo, porém, pensavam da mesma forma. Para muitos deles, o totem era algo desprezível. Muitos eram os que diziam que o totem estava certo e que o melhor a fazer era imitá-lo. Mas para aqueles que perdiam um ente querido, ou para aqueles a quem a desgraça e o azar jamais abandonavam, para eles o totem era a materialização do descaso.

Pois não importa o quão más fossem as notícias, ou quão triste estivessem as pessoas. Não importava se a vila passasse por uma crise ou se as pessoas morressem de fome e de doença, o totem continuava inerte.

Se havia um Deus por trás daquele símbolo, ou se o seu construtor possuía algum objetivo com ele, de nada servia. Mesmo nos mais negros dias, mesmo nas piores horas, o totem não se movia um centímetro sequer. Como se o lobo apenas observasse calado, como se o urso hibernasse enquanto o falcão meramente observava a sua presa enfraquecer antes de dar o bote. Não importava o quão frágeis estivessem as pessoas ao seu redor, pois o totem continuava forte.

E de nada servia aos moradores da vila um Deus que carece de compaixão.

Outros ainda se perguntavam meramente o porquê de o totem estar ali. Se ali não fazia nada, nem dali saía e nem ali se alterava. Um gelo que não derrete é uma eterna lembrança do que foi, sem nunca dar chance a algo novo de surgir. Enquanto o lobo, o urso e o falcão permanecerem em seu lugar, nenhum outro animal poderia ganhar espaço na tribo.

Um gelo que não derrete é a marca do passado. E alguns moradores da vila questionavam se não deveriam simplesmente levar o totem para outro lugar e dar espaço para algo novo, visto que o totem, por si só, se recusava a deixar o passado para trás e ganhar, enfim, nova forma. Os desejos de mudança eram muitos e diversos, mas o totem seguia forte.

E os dias e as semanas se passavam, sempre com o totem firme em seu posto. Os viajantes iam e vinham, se apresentavam e despediam, mas o totem nada mudava. Não havia calor que o derretesse, tampouco frio que o trincasse.

E mesmo o choro das viúvas e o lamentar dos apaixonados de nada significavam para o imenso bloco de gelo que os ouvia. E as lamúrias ecoavam no espaço ao redor e o lobo, o urso e o falcão mantinham a mesma inexpressão do dia anterior, e a mesma que manteriam no dia que havia por vir.

E os mais moços e mais cansados oravam para que o gelo derretesse, para que o passado fosse esquecido e para que algo novo fosse feito. E o totem, que nada mais era do que um imenso gelo trabalhado, se recusava a derreter. E ali ficavam, todos ao redor, enquanto o gelo se mantinha em seu lugar.

E a noite, quando todos dormiam e ninguém podia ver o que estava sendo feito. O escultor, que era neto do escultor antes dele, que por sua vez era também neto de escultor, saía para fazer o trabalho da família.

E a noite o gelo era enxugado, e retalhado e retrabalhado, noite após noite, para reparar os desgastes que o totem sofria durante o dia. E mais gelo era adicionado, e mais lapidadas eram as runas para que a ação do tempo não pudesse ser notada. E todas as noites o ritual secreto da família era repetido para que a vila pudesse manter a paz e tranquilidade que sempre apresentou.

Era um trabalho árduo e um segredo difícil a ser mantido, mas alguém havia de fazê-lo. Porque mesmo que não seja visto, mesmo que não seja de conhecimento de ninguém, ainda que as pessoas não acreditem, não existe gelo que nunca se derreta, tampouco estruturas que nunca balancem. Nenhum totem é forte o tempo inteiro.

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