Arnaldo e Leonel em: O Roubo do Cofre da Loja de Cosméticos

Uma sala pequena e ligeiramente abafada. Havia um sofá, uma estante cheia de livros, duas mesas com computadores, cadeiras e um tapete escuro. As cortinas eram amarelas e permaneciam sempre fechadas, gerando uma atmosfera abafada e escurecida no ambiente.

Leonel compunha uma canção em sua mesa. Rabiscava a letra em uma folha de papel e cantarolava a melodia. O computador ligado logo ao lado, mas preferia o papel e a caneta. Tão imerso em seu próprio trabalho que ignorava completamente a presença do outro.

Arnaldo estava vidrado no computador. Com o rosto muito próximo a tela, pintava com cuidado as camadas coloridas de uma ilustração. Um campo cheio de girassóis, sob um céu limpo e, ao longe, um moinho. Era apenas mais um quadro de uma obra maior.

O silêncio foi quebrado pelo toque estridente do telefone. Arnaldo atendeu. Falou rapidamente, anotou o endereço, desligou o telefone, pegou seu casaco e levantou.

– Leo. – Chamou, mas não recebeu resposta.

– Leo! – Chamou de novo, sendo novamente ignorado.

Tocou no braço do sócio, que se assustou. Leonel mexeu na orelha com um gesto bastante característico e se desculpou.

– Estava compondo, que foi?

– Temos trabalho!

– Sim, eu sei. Eu estava trabalhando. E você também, não? A propósito, você viu que pintou os girassóis de verde nesse seu último trabalho?

Arnaldo virou para a tela do computador. Desligou o computador descartando todo o trabalho em cores das últimas horas.

– Depois eu faço isso. Mas não, trabalho de verdade! Do tipo que nos pagam.

– Opa, o que foi?

– Uma loja de cosméticos. Roubo no cofre. Serviço interno.

– Ah, entendi. Vamos lá, então.

Leonel levantou em um pulo, procurando o chapéu que largou em algum lugar quando chegou.

– Eu adoro essa nossa vida secreta! – Comentou, saindo atrás do sócio – A investigação, o mistério, tudo o que pode acontecer!

– Essa não é nossa vida secreta. Essa é nossa vida oficial! – Ralhou Arnaldo, passando pela porta de madeira com os dizeres “Arnaldo e Leonel – Detetives Particulares”


A loja ainda estava fechada. Eram nove da manhã, a dona do estabelecimento chegou para a abertura as oito horas e encontrou o cofre aberto e vazio. A primeira coisa que os detetives notaram foi que não havia sinal de arrombamento. A segunda coisa que Arnaldo reparou foi que nunca havia visto aquela loja antes, e passava frequentemente por aquela rua. A segunda coisa que Leonel reparou foi no fato de todas as funcionárias serem mulheres e estarem bem maquiadas. A terceira coisa que repararam foi que a dona da loja já estava falando com eles havia pelo menos três minutos:

– …nenhum alarme disparou durante a noite. Aí eu dormi tranquila, né? Porque eu não posso ir dormir todas as noites pensando “será que vão roubar a minha loja enquanto eu durmo?” porque aí eu não durmo mesmo. E eu preciso de pelo menos nove horas de sono por dia! Se eu não tiver minhas nove horas de sono por dia eu não fico bem. Eu passo bastante mal, eu preciso ir pra casa dormir. De manhã eu acordei e não tinha nenhum aviso de alarme, nenhum disparo. Eu fiz meu café da manhã, quer dizer, eu não fiz. Eu como uma barra de cereal e tomo um iogurte. Ainda pensei comigo será que eu não devia comer duas barrinhas? Mas eu preciso manter a forma e isso não é nada fácil.

Enquanto a dona da loja continuava o seu monólogo, os detetives tomavam nota. Leonel mexeu na orelha e passou a investigar a cena do crime. Sem impressões digitais anormais. Sem arrombamento. Sem uso de equipamento. Quem quer que tivesse feito o serviço sabia como entrar e sair da loja, além de possuir a senha do cofre. A loja possuía câmeras, mas muitos pontos cegos. Uma pessoa que conhecesse bem o local só seria avistada no momento de inserir a senha no cofre. Ainda assim, era uma pista. O fato de nenhum outro produto ter sido mexido também indicava que o ladrão sabia bem o que queria.

Arnaldo tomava notas do que a mulher falava, mas sem prestar muita atenção. Seu bloco de notas continha uma lista com os itens “Assalto” “Cofre” “Dieta do chá verde (pesquisar)” e o desenho de uma torre protegida por um dragão. Todas as funcionárias da loja já estavam presentes. Eram cinco ao todo. Uma no caixa e quatro atendentes. Todas vestiam o mesmo uniforme, variando apenas o calçado e a maquiagem. Como ilustrador, Arnaldo logo reparou que cada uma das meninas tinha preferência por uma cor específica, o que as deixaria em uma ótima harmonia visual se a moça de azul trocasse de lugar com a moça de vermelho.

Após terminar de investigar, Leonel voltou para junto do colega e mexeu na orelha novamente.

– Pronto?

– Pronto.

E, dirigindo-se a dona do estabelecimento:

– Senhora, pode trabalhar normalmente. Nós precisamos passar no escritório e buscar o aparelho captador de impressões digitais e infravermelho, dentro de instantes estaremos de volta para finalizar as investigações. Precisaremos conversar com suas atendentes em particular, uma a uma. Nos aguarde que já sabemos quem é o criminoso.


– E aí, quem foi? – Perguntou Leonel, mordendo um sanduíche.

– Não tenho a menor ideia – Respondeu Arnaldo, tomando um gole de café.

Os dois saíram da loja e foram tomar o seu merecido café da manhã em uma padaria próxima. Leonel pediu um sanduíche e um suco. Arnaldo preferiu apenas o café.

– Foi uma das meninas, se não a própria dona. Achou alguma pista?

– Tem que ver a imagem das câmeras. Nenhum sinal de arrombamento, nada no cofre, nenhum produto faltante.

– É só pressionar nas perguntas. Certeza.

– Deixa que eu faço as perguntas. Procura as imagens na câmera. Os ângulos não são muito bons, mas tem uma que foca no cofre.

– Tranquilo.

Terminaram seu café da manhã e voltaram para a loja.


Gabriela estava sentada na privada. Leonel encostado na pia. Infelizmente o pequeno banheiro era o único local fechado dentro da loja, o que ia tornar a situação toda ainda mais constrangedora do que de costume. A garota era pequena, baixa, magra, ocupava pouco espaço. Tinha os cabelos pretos e os olhos castanhos. Usava as unhas pintadas de azul, bem como o sapato. Trabalhava como vendedora fazia sete meses, manhã e tarde. Não tinha as chaves da loja e nunca era a última a sair. Depois dela sempre ficavam Luciana e Juliane.

A segunda a se espremer no banheiro foi Marcela. Uma moça alta e esguia. Os joelhos dela roçavam os do detetive dentro da pequena cabine. Usava os cabelos curtos e poucas joias. As unhas, porém, eram pintadas de roxo. Era sempre a primeira a chegar de manhã e a primeira a sair no fim da tarde. Trabalhava ali fazia quase um ano.

Em seguida foi a vez de Luciana, a que mais teve dificuldade em dividir o apertado banheiro com outra pessoa. Era a trabalhadora mais antiga da loja, com quase quatro anos de loja. Era a responsável pelo caixa e a última a ir embora. Foi a última a mexer no cofre antes de sair e assegurou que havia fechado como sempre. Usava os cabelos pintados de loiro e as unhas em um tom bastante indiscreto de amarelo. Quando interrogada sobre os valores do cofre, respondeu apenas que era “mais de nove mil”.

Joana entrou logo depois, contrariada. Tinha o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, deixando à mostra a tatuagem de “Carpe Diem” na nuca. Usava uma sombra forte demais nos olhos e as unhas pintadas de verde. Não colaborou com a investigação. Não forneceu informações. Aparentemente nem trabalhando queria estar.

A última a reclamar do banheiro apertado foi Juliane. Uma moça morena de olhos verdes, usando tanto o batom quanto as unhas vermelhas. Era sempre a última vendedora a deixar a loja, porque gostava de fofocar um pouco com Luciana. Trabalhava lá faziam dois anos e alguns meses. Nunca teve problemas com a chefe. Não sabia quem poderia ter roubado a loja, mas não confiava muito na garota mais nova, Joana.


Enquanto isso, Arnaldo assistia aos vídeos das câmeras. Uma câmera filmava a entrada principal da loja. Durante todo o fim da tarde, noite e amanhecer, nenhum movimento se deu naquela câmera. Quem quer que tivesse entrado na loja não entrou pela porta da frente. As únicas probabilidades eram o duto de ar, cuja entrada se dava pelo telhado do prédio. Bastaria descer de corda pelos sete andares, rastejar pelo caminho em meio ao prédio até chegar na saída de ar do banheiro da loja, roubar o cofre e escalar de volta. Ou, a pessoa poderia ter entrado pela porta de funcionários, aos fundos.

A segunda câmera mostrava a vitrine e parte do mostruário. Nada pôde ser visto enquanto a loja estava aberta, mas apenas minutos após fechar as portas da frente, uma sombra foi avistada se mexendo por ali. A iluminação do sol ainda devia entrar por através das grades do mostruário. O roubo não se deu a noite. Era ainda fim de tarde quando o cofre foi violado.

A terceira câmera mostrava o cofre. Nela, logo após o fechamento da loja, foi possível ver uma figura feminina, vestida completamente de preto, aparecer. Tudo foi muito rápido. A gatuna mal apareceu na área de foco da câmera e já a cobriu com algo. Poucos minutos se passaram e o pano usado para cobrir a câmera é retirado. A câmera balança um pouco e filma o cofre aberto pelo resto da noite.

A quarta câmera, que focava no outro lado da loja, nada revela.


Os dois detetives se reúnem no banheiro apertado. Leonel se senta, mas quando percebe que está na altura da virilha do outro, opta por levantar.

– Precisamos mesmo estar aqui dentro? – Indaga Arnaldo

– Não, mas agora é tarde e precisamos manter o profissionalismo.

– Ok. Descobriu algo?

– Nada conclusivo. Nenhuma delas pareceu nervosa com as perguntas. Apenas uma delas, Joana, não parecia muito à vontade. E você?

– Não parecia muito à vontade? Bom, eu acho que eu tenho a solução do nosso caso, meu caro. Vamos.


Ao final do expediente, os dois detetives, a dona da loja e as cinco funcionárias se reuniram em frente ao caixa. Arnaldo pigarreou e começou a falar.

– No final do dia de ontem, houve um roubo acontecendo dentro dessa loja. Eu e meu colega fomos chamados para investigar e estamos prontos para dar os resultados. Primeiramente, gostaríamos de dizer que sim! A ladra trabalha aqui!

Apesar da frase enfática, nenhuma das meninas parecia surpresa. Constrangido, o detetive continuou.

– Tudo se sucedeu da seguinte forma: A ladra veio trabalhar normalmente. Após o expediente, foi até sua casa, vestiu as roupas do crime, pegou os apetrechos e voltou para cometê-lo! Isso parecia mais elaborado antes de eu falar. Enfim. Era preciso haver algum tempo de preparo e algum conhecimento do local, mas isso todas possuíam. O que a ladra não contava que fosse traí-la era justamente aquilo que ela usa no seu trabalho. O que traiu a gatuna foi o seu esmalte!

De novo, nenhuma surpresa. Alguns olhares confusos.

– Eu explico. A ladra entrou pela entrada dos funcionários, cobriu a câmera e roubou o cofre. Quando foi esconder as evidências, raspou a unha na câmera de vigilância, que agora ainda está marcada com a cor do crime! Portanto, se vocês observarem aquela mancha azul na câmera central poderiam se unir a mim e segurar Gabriela como a verdadeira culpada por esse crime nefasto de roubar a própr…

– Arnaldo, é roxo – interrompeu Leonel, antes que o colega concluísse a revelação – a mancha é roxa.

– Sério?

– Sim.

– Putz. Que vacilo. Desculpa, Gabriela, nada contra você. Eu que errei aqui. Me mostrem as mãos, sim? Você? Ok. Então, meninas, a verdadeira culpada é Marcela!

– Sim, fui eu! – Confessou a culpada – Eu roubei o cofre! É claro que alguém ia roubar o cofre! Quem é que tem um cofre com mais de nove mil reais em uma loja de maquiagem?! Eu precisei roubar! Não podia deixar passar. E eu teria escapado. Sim, nunca teriam descoberto a minha trama se não fossem… se não fossem…

– Dois profissionais pagos exatamente para isso?

– Exatamente!

A polícia foi acionada e Marcela presa. Arnaldo e Leonel receberam o pagamento e voltaram para suas respectivas casas. O dia se encerrava, mas os profissionais dormiam tranquilos, sabendo que pelo menos na investigação criminal eles eram… acima de qualquer defeito!

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