Arnaldo e Leonel em: O Roubo do Cofre da Loja de Cosméticos

maio 18, 2016

Uma sala pequena e ligeiramente abafada. Havia um sofá, uma estante cheia de livros, duas mesas com computadores, cadeiras e um tapete escuro. As cortinas eram amarelas e permaneciam sempre fechadas, gerando uma atmosfera abafada e escurecida no ambiente.

Leonel compunha uma canção em sua mesa. Rabiscava a letra em uma folha de papel e cantarolava a melodia. O computador ligado logo ao lado, mas preferia o papel e a caneta. Tão imerso em seu próprio trabalho que ignorava completamente a presença do outro.

Arnaldo estava vidrado no computador. Com o rosto muito próximo a tela, pintava com cuidado as camadas coloridas de uma ilustração. Um campo cheio de girassóis, sob um céu limpo e, ao longe, um moinho. Era apenas mais um quadro de uma obra maior.

O silêncio foi quebrado pelo toque estridente do telefone. Arnaldo atendeu. Falou rapidamente, anotou o endereço, desligou o telefone, pegou seu casaco e levantou.

– Leo. – Chamou, mas não recebeu resposta.

– Leo! – Chamou de novo, sendo novamente ignorado.

Tocou no braço do sócio, que se assustou. Leonel mexeu na orelha com um gesto bastante característico e se desculpou.

– Estava compondo, que foi?

– Temos trabalho!

– Sim, eu sei. Eu estava trabalhando. E você também, não? A propósito, você viu que pintou os girassóis de verde nesse seu último trabalho?

Arnaldo virou para a tela do computador. Desligou o computador descartando todo o trabalho em cores das últimas horas.

– Depois eu faço isso. Mas não, trabalho de verdade! Do tipo que nos pagam.

– Opa, o que foi?

– Uma loja de cosméticos. Roubo no cofre. Serviço interno.

– Ah, entendi. Vamos lá, então.

Leonel levantou em um pulo, procurando o chapéu que largou em algum lugar quando chegou.

– Eu adoro essa nossa vida secreta! – Comentou, saindo atrás do sócio – A investigação, o mistério, tudo o que pode acontecer!

– Essa não é nossa vida secreta. Essa é nossa vida oficial! – Ralhou Arnaldo, passando pela porta de madeira com os dizeres “Arnaldo e Leonel – Detetives Particulares”


A loja ainda estava fechada. Eram nove da manhã, a dona do estabelecimento chegou para a abertura as oito horas e encontrou o cofre aberto e vazio. A primeira coisa que os detetives notaram foi que não havia sinal de arrombamento. A segunda coisa que Arnaldo reparou foi que nunca havia visto aquela loja antes, e passava frequentemente por aquela rua. A segunda coisa que Leonel reparou foi no fato de todas as funcionárias serem mulheres e estarem bem maquiadas. A terceira coisa que repararam foi que a dona da loja já estava falando com eles havia pelo menos três minutos:

– …nenhum alarme disparou durante a noite. Aí eu dormi tranquila, né? Porque eu não posso ir dormir todas as noites pensando “será que vão roubar a minha loja enquanto eu durmo?” porque aí eu não durmo mesmo. E eu preciso de pelo menos nove horas de sono por dia! Se eu não tiver minhas nove horas de sono por dia eu não fico bem. Eu passo bastante mal, eu preciso ir pra casa dormir. De manhã eu acordei e não tinha nenhum aviso de alarme, nenhum disparo. Eu fiz meu café da manhã, quer dizer, eu não fiz. Eu como uma barra de cereal e tomo um iogurte. Ainda pensei comigo será que eu não devia comer duas barrinhas? Mas eu preciso manter a forma e isso não é nada fácil.

Enquanto a dona da loja continuava o seu monólogo, os detetives tomavam nota. Leonel mexeu na orelha e passou a investigar a cena do crime. Sem impressões digitais anormais. Sem arrombamento. Sem uso de equipamento. Quem quer que tivesse feito o serviço sabia como entrar e sair da loja, além de possuir a senha do cofre. A loja possuía câmeras, mas muitos pontos cegos. Uma pessoa que conhecesse bem o local só seria avistada no momento de inserir a senha no cofre. Ainda assim, era uma pista. O fato de nenhum outro produto ter sido mexido também indicava que o ladrão sabia bem o que queria.

Arnaldo tomava notas do que a mulher falava, mas sem prestar muita atenção. Seu bloco de notas continha uma lista com os itens “Assalto” “Cofre” “Dieta do chá verde (pesquisar)” e o desenho de uma torre protegida por um dragão. Todas as funcionárias da loja já estavam presentes. Eram cinco ao todo. Uma no caixa e quatro atendentes. Todas vestiam o mesmo uniforme, variando apenas o calçado e a maquiagem. Como ilustrador, Arnaldo logo reparou que cada uma das meninas tinha preferência por uma cor específica, o que as deixaria em uma ótima harmonia visual se a moça de azul trocasse de lugar com a moça de vermelho.

Após terminar de investigar, Leonel voltou para junto do colega e mexeu na orelha novamente.

– Pronto?

– Pronto.

E, dirigindo-se a dona do estabelecimento:

– Senhora, pode trabalhar normalmente. Nós precisamos passar no escritório e buscar o aparelho captador de impressões digitais e infravermelho, dentro de instantes estaremos de volta para finalizar as investigações. Precisaremos conversar com suas atendentes em particular, uma a uma. Nos aguarde que já sabemos quem é o criminoso.


– E aí, quem foi? – Perguntou Leonel, mordendo um sanduíche.

– Não tenho a menor ideia – Respondeu Arnaldo, tomando um gole de café.

Os dois saíram da loja e foram tomar o seu merecido café da manhã em uma padaria próxima. Leonel pediu um sanduíche e um suco. Arnaldo preferiu apenas o café.

– Foi uma das meninas, se não a própria dona. Achou alguma pista?

– Tem que ver a imagem das câmeras. Nenhum sinal de arrombamento, nada no cofre, nenhum produto faltante.

– É só pressionar nas perguntas. Certeza.

– Deixa que eu faço as perguntas. Procura as imagens na câmera. Os ângulos não são muito bons, mas tem uma que foca no cofre.

– Tranquilo.

Terminaram seu café da manhã e voltaram para a loja.


Gabriela estava sentada na privada. Leonel encostado na pia. Infelizmente o pequeno banheiro era o único local fechado dentro da loja, o que ia tornar a situação toda ainda mais constrangedora do que de costume. A garota era pequena, baixa, magra, ocupava pouco espaço. Tinha os cabelos pretos e os olhos castanhos. Usava as unhas pintadas de azul, bem como o sapato. Trabalhava como vendedora fazia sete meses, manhã e tarde. Não tinha as chaves da loja e nunca era a última a sair. Depois dela sempre ficavam Luciana e Juliane.

A segunda a se espremer no banheiro foi Marcela. Uma moça alta e esguia. Os joelhos dela roçavam os do detetive dentro da pequena cabine. Usava os cabelos curtos e poucas joias. As unhas, porém, eram pintadas de roxo. Era sempre a primeira a chegar de manhã e a primeira a sair no fim da tarde. Trabalhava ali fazia quase um ano.

Em seguida foi a vez de Luciana, a que mais teve dificuldade em dividir o apertado banheiro com outra pessoa. Era a trabalhadora mais antiga da loja, com quase quatro anos de loja. Era a responsável pelo caixa e a última a ir embora. Foi a última a mexer no cofre antes de sair e assegurou que havia fechado como sempre. Usava os cabelos pintados de loiro e as unhas em um tom bastante indiscreto de amarelo. Quando interrogada sobre os valores do cofre, respondeu apenas que era “mais de nove mil”.

Joana entrou logo depois, contrariada. Tinha o cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, deixando à mostra a tatuagem de “Carpe Diem” na nuca. Usava uma sombra forte demais nos olhos e as unhas pintadas de verde. Não colaborou com a investigação. Não forneceu informações. Aparentemente nem trabalhando queria estar.

A última a reclamar do banheiro apertado foi Juliane. Uma moça morena de olhos verdes, usando tanto o batom quanto as unhas vermelhas. Era sempre a última vendedora a deixar a loja, porque gostava de fofocar um pouco com Luciana. Trabalhava lá faziam dois anos e alguns meses. Nunca teve problemas com a chefe. Não sabia quem poderia ter roubado a loja, mas não confiava muito na garota mais nova, Joana.


Enquanto isso, Arnaldo assistia aos vídeos das câmeras. Uma câmera filmava a entrada principal da loja. Durante todo o fim da tarde, noite e amanhecer, nenhum movimento se deu naquela câmera. Quem quer que tivesse entrado na loja não entrou pela porta da frente. As únicas probabilidades eram o duto de ar, cuja entrada se dava pelo telhado do prédio. Bastaria descer de corda pelos sete andares, rastejar pelo caminho em meio ao prédio até chegar na saída de ar do banheiro da loja, roubar o cofre e escalar de volta. Ou, a pessoa poderia ter entrado pela porta de funcionários, aos fundos.

A segunda câmera mostrava a vitrine e parte do mostruário. Nada pôde ser visto enquanto a loja estava aberta, mas apenas minutos após fechar as portas da frente, uma sombra foi avistada se mexendo por ali. A iluminação do sol ainda devia entrar por através das grades do mostruário. O roubo não se deu a noite. Era ainda fim de tarde quando o cofre foi violado.

A terceira câmera mostrava o cofre. Nela, logo após o fechamento da loja, foi possível ver uma figura feminina, vestida completamente de preto, aparecer. Tudo foi muito rápido. A gatuna mal apareceu na área de foco da câmera e já a cobriu com algo. Poucos minutos se passaram e o pano usado para cobrir a câmera é retirado. A câmera balança um pouco e filma o cofre aberto pelo resto da noite.

A quarta câmera, que focava no outro lado da loja, nada revela.


Os dois detetives se reúnem no banheiro apertado. Leonel se senta, mas quando percebe que está na altura da virilha do outro, opta por levantar.

– Precisamos mesmo estar aqui dentro? – Indaga Arnaldo

– Não, mas agora é tarde e precisamos manter o profissionalismo.

– Ok. Descobriu algo?

– Nada conclusivo. Nenhuma delas pareceu nervosa com as perguntas. Apenas uma delas, Joana, não parecia muito à vontade. E você?

– Não parecia muito à vontade? Bom, eu acho que eu tenho a solução do nosso caso, meu caro. Vamos.


Ao final do expediente, os dois detetives, a dona da loja e as cinco funcionárias se reuniram em frente ao caixa. Arnaldo pigarreou e começou a falar.

– No final do dia de ontem, houve um roubo acontecendo dentro dessa loja. Eu e meu colega fomos chamados para investigar e estamos prontos para dar os resultados. Primeiramente, gostaríamos de dizer que sim! A ladra trabalha aqui!

Apesar da frase enfática, nenhuma das meninas parecia surpresa. Constrangido, o detetive continuou.

– Tudo se sucedeu da seguinte forma: A ladra veio trabalhar normalmente. Após o expediente, foi até sua casa, vestiu as roupas do crime, pegou os apetrechos e voltou para cometê-lo! Isso parecia mais elaborado antes de eu falar. Enfim. Era preciso haver algum tempo de preparo e algum conhecimento do local, mas isso todas possuíam. O que a ladra não contava que fosse traí-la era justamente aquilo que ela usa no seu trabalho. O que traiu a gatuna foi o seu esmalte!

De novo, nenhuma surpresa. Alguns olhares confusos.

– Eu explico. A ladra entrou pela entrada dos funcionários, cobriu a câmera e roubou o cofre. Quando foi esconder as evidências, raspou a unha na câmera de vigilância, que agora ainda está marcada com a cor do crime! Portanto, se vocês observarem aquela mancha azul na câmera central poderiam se unir a mim e segurar Gabriela como a verdadeira culpada por esse crime nefasto de roubar a própr…

– Arnaldo, é roxo – interrompeu Leonel, antes que o colega concluísse a revelação – a mancha é roxa.

– Sério?

– Sim.

– Putz. Que vacilo. Desculpa, Gabriela, nada contra você. Eu que errei aqui. Me mostrem as mãos, sim? Você? Ok. Então, meninas, a verdadeira culpada é Marcela!

– Sim, fui eu! – Confessou a culpada – Eu roubei o cofre! É claro que alguém ia roubar o cofre! Quem é que tem um cofre com mais de nove mil reais em uma loja de maquiagem?! Eu precisei roubar! Não podia deixar passar. E eu teria escapado. Sim, nunca teriam descoberto a minha trama se não fossem… se não fossem…

– Dois profissionais pagos exatamente para isso?

– Exatamente!

A polícia foi acionada e Marcela presa. Arnaldo e Leonel receberam o pagamento e voltaram para suas respectivas casas. O dia se encerrava, mas os profissionais dormiam tranquilos, sabendo que pelo menos na investigação criminal eles eram… acima de qualquer defeito!

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O Grande Totem de Gelo

outubro 6, 2015

Todo viajante que ousasse se aventurar por dentro do caminho dos Picos Congelados sabia que poderia encontrar abrigo na pequena vila de Targrum, cujas cabanas foram construídas ao pé de um vulcão inativo há mais tempo do que os anciões eram capazes de lembrar. Após a primeira montanha os viajantes poderiam optar por seguir caminho para o topo da próxima, ou descer a encosta em busca de abrigo e alimentação.

Por ficar ao pé de um vulcão inativo, o vilarejo se valia de fontes de águas termais. Além de conforto e proteção contra o frio, o vapor da água ajudava a manter a temperatura ambiente um pouco menos desagradável. Era fonte de turismo e era, também, onde os membros do povoado se reuniam para os momentos de lazer.

Todos os viajantes que por lá passavam, porém, precisavam antes de mais nada cumprimentar e agradecer ao imenso totem de gelo que se localizava no meio da cidade. O totem estava lá muito antes do avô do ancião da aldeia ser, ele mesmo, o ancião. O totem sempre estivera lá sendo um símbolo de paz, harmonia, e também de frieza e apatia.

A base do totem era composta por desenhos rústicos, cujo significado há muito se perdera. Após havia o desenho de um lobo, sob um urso, sob um falcão. A imensa escultura devia chegar a quase quatro metros de altura, sendo larga o bastante para que uma pessoa sozinha não fosse capaz de abraça-la.

O que tornava o totem único e idolatrado, entretanto, não era seu tamanho ou sua arte, mas sim o estranho fato de o totem nunca derreter.

Por mais que estivesse localizado em uma região fria, o totem nunca sofreu a ação dos vapores das fontes. Tampouco se curvava perante o sol do verão ou se esfarelava nos ventos do inverno. Dia e noite o totem continuava impassível no centro da aldeia, causando os mais diversos sentimentos dentre os moradores e viajantes.

Os viajantes idolatravam e pediam forças ao grande totem. Tal qual o lobo, tomavam a frente de suas vidas e buscavam ser aquele que guiaria os seus para um caminho melhor, para uma vida mais fácil. Tal qual o urso, não se apressavam e sabiam muito bem quando parar e quando prosseguir. E ainda assim procuravam manter a vista erguida e os olhos atentos, feito o falcão.

Para o viajante, o Grande Totem de Gelo – como era chamado – era um exemplo a ser seguido. Uma fonte de inspiração. Não havia viajante que não desejasse ser forte e firme como o totem. Nem as montanhas, tampouco os caminhos além delas, seriam mais fortes do que aqueles que realmente quisessem atravessá-las. E não importa quantas pessoas entrassem e saíssem de suas vidas, o totem permanecia sempre forte.

Nem todos os moradores do vilarejo, porém, pensavam da mesma forma. Para muitos deles, o totem era algo desprezível. Muitos eram os que diziam que o totem estava certo e que o melhor a fazer era imitá-lo. Mas para aqueles que perdiam um ente querido, ou para aqueles a quem a desgraça e o azar jamais abandonavam, para eles o totem era a materialização do descaso.

Pois não importa o quão más fossem as notícias, ou quão triste estivessem as pessoas. Não importava se a vila passasse por uma crise ou se as pessoas morressem de fome e de doença, o totem continuava inerte.

Se havia um Deus por trás daquele símbolo, ou se o seu construtor possuía algum objetivo com ele, de nada servia. Mesmo nos mais negros dias, mesmo nas piores horas, o totem não se movia um centímetro sequer. Como se o lobo apenas observasse calado, como se o urso hibernasse enquanto o falcão meramente observava a sua presa enfraquecer antes de dar o bote. Não importava o quão frágeis estivessem as pessoas ao seu redor, pois o totem continuava forte.

E de nada servia aos moradores da vila um Deus que carece de compaixão.

Outros ainda se perguntavam meramente o porquê de o totem estar ali. Se ali não fazia nada, nem dali saía e nem ali se alterava. Um gelo que não derrete é uma eterna lembrança do que foi, sem nunca dar chance a algo novo de surgir. Enquanto o lobo, o urso e o falcão permanecerem em seu lugar, nenhum outro animal poderia ganhar espaço na tribo.

Um gelo que não derrete é a marca do passado. E alguns moradores da vila questionavam se não deveriam simplesmente levar o totem para outro lugar e dar espaço para algo novo, visto que o totem, por si só, se recusava a deixar o passado para trás e ganhar, enfim, nova forma. Os desejos de mudança eram muitos e diversos, mas o totem seguia forte.

E os dias e as semanas se passavam, sempre com o totem firme em seu posto. Os viajantes iam e vinham, se apresentavam e despediam, mas o totem nada mudava. Não havia calor que o derretesse, tampouco frio que o trincasse.

E mesmo o choro das viúvas e o lamentar dos apaixonados de nada significavam para o imenso bloco de gelo que os ouvia. E as lamúrias ecoavam no espaço ao redor e o lobo, o urso e o falcão mantinham a mesma inexpressão do dia anterior, e a mesma que manteriam no dia que havia por vir.

E os mais moços e mais cansados oravam para que o gelo derretesse, para que o passado fosse esquecido e para que algo novo fosse feito. E o totem, que nada mais era do que um imenso gelo trabalhado, se recusava a derreter. E ali ficavam, todos ao redor, enquanto o gelo se mantinha em seu lugar.

E a noite, quando todos dormiam e ninguém podia ver o que estava sendo feito. O escultor, que era neto do escultor antes dele, que por sua vez era também neto de escultor, saía para fazer o trabalho da família.

E a noite o gelo era enxugado, e retalhado e retrabalhado, noite após noite, para reparar os desgastes que o totem sofria durante o dia. E mais gelo era adicionado, e mais lapidadas eram as runas para que a ação do tempo não pudesse ser notada. E todas as noites o ritual secreto da família era repetido para que a vila pudesse manter a paz e tranquilidade que sempre apresentou.

Era um trabalho árduo e um segredo difícil a ser mantido, mas alguém havia de fazê-lo. Porque mesmo que não seja visto, mesmo que não seja de conhecimento de ninguém, ainda que as pessoas não acreditem, não existe gelo que nunca se derreta, tampouco estruturas que nunca balancem. Nenhum totem é forte o tempo inteiro.

O Restaurante Onde a Comida Não Tinha Gosto de Nada

julho 6, 2015

Em um bairro afastado de uma cidade grande, dentro de uma pequena viela, escondido dentro de um pequeno porão e identificado por uma pequena placa de madeira, havia uma restaurante onde a comida não tinha gosto de nada.

As paredes do restaurante eram velhas e de aspecto desbotado. As toalhas estavam encardidas, os porta-guardanapos sujos e o quadro que tentava – futilmente – decorar a parede da esquerda estava torto.

O restaurante servia buffet durante o horário de almoço e lanches no período da tarde. Havia uma pequena porção de opções no cardápio do almoço e algumas variedades do lanche da tarde, mas todas elas, invariavelmente, não tinham gosto de nada.

O dono do restaurante, Seu José, não se importava. Era um homem grande e carrancudo que cozinhava a mesma comida do mesmo jeito com os mesmos ingredientes há exatos quatorze anos, três meses e vinte e dois dias, desde que a garota que amava começara a namorar com outro.

O restaurante era, por mais incrível que pareça, bastante frequentado. O velho Frederico almoçava ali todos os dias. Todos os dias o velho Frederico chegava, pegava o seu prato, servia salada, arroz, feijão, a carne do dia e um pouco de massa. Pesava o seu prato – nunca mais do que quinhentas gramas –, pegava os talheres e se dirigia a mesma mesa para comer. Nunca reclamou do sabor da comida porque a comida não tinha sabor algum. Só deixava de ir ao restaurante duas vezes por ano: No Natal e no próprio aniversário, quando os filhos o convidavam para um almoço em família.

Luzia, a poeta, almoçava ali todos os dias. Saía do seu turno no trabalho, ainda com o uniforme da loja, largava a bolsa em uma mesa qualquer, nunca a mesma mesa, e servia o seu prato. Muita salada, um pouco de arroz branco e, as vezes, um pedaço de carne. Terminava de almoçar em menos de dez minutos, mas passava os vinte seguintes sentada, rabiscando versos em um caderno que trazia dentro da bolsa. Tinha tantos poemas escritos quanto publicações rejeitadas.

Durante a tarde Marcos, office boy do escritório da rua de cima, descia para comer alguma coisa. Geralmente um pastel. Assistia um pouco do que quer que estivesse passando na TV e logo voltava para o escritório. Pendurava a conta para pagar no final do mês, quando recebesse o salário. No mês de setembro nunca aparecia, para economizar o dinheiro do lanche e comprar um presente de aniversário para sua namorada, que sempre lhe perguntava quando arrumaria trabalho melhor.

Haviam também os outros visitantes frequentes, como Manoel, o carteiro; Dona Cíntia, a costureira; Lucas, filho da Dona Hilda. Figuras corriqueiras, que passavam por ali, pegavam alguma coisa para comer e voltavam, correndo, para a sua rotina. Sem ter tempo sequer para perceber que a comida do restaurante não tinha gosto algum.

E fazia já algum tempo que Felipe começara a frequentar o restaurante. Encontrou o lugar enquanto procurava emprego. Andava sempre com um currículo embaixo do braço. Usava uma camisa branca, mas com o colarinho encardido. Usava uma gravata azul marinho, mas com o nó frouxo. Usava um terno preto, mas um número menor do que o recomendado. Estava com uma aparência quase apresentável, mas não estava.

O restaurante do Seu José era barato, era perto, e não era ruim. Uma comida sem gosto ainda é melhor do que uma comida com gosto ruim. E Felipe incorporou o ambiente a sua rotina. Saía pela manhã a procura de emprego, distribuía currículos, conversava com pessoas e descia as escadas para o restaurante.

Almoçava arroz, feijão, carne e massa. Sem salada. Bebia uma água sem gás para acompanhar. Se sentava sozinho em uma mesa no centro do restaurante e nunca conversava com ninguém. Terminava de comer e ia até o balcão tomar um café. Bebia lentamente, como se não quisesse encarar que devia se retirar do ambiente e voltar a exaustiva rotina de desempregado.

E assim se seguiam os dias e os dias que prosseguiam aos dias até que se perdessem as contas das páginas do calendário ou que algum evento extraordinário acontecesse. Até que um evento extraordinário aconteceu.

O dia amanheceu cinzento e sem sol, com os ventos fracos fazendo com que as pessoas se arrependessem de ter esquecido seus cachecóis dentro do armário. Seu José já estava no restaurante preparando a comida do almoço. O velho Frederico lia o jornal dentro da sua casa. Luzia vestia o uniforme da loja onde trabalhava. Marcos perdia o horário do trabalho devido a um mal funcionamento no seu despertador. Felipe arrumava o nó da gravata – sem perceber que continuava frouxo – e colocava um currículo embaixo do braço.

A manhã transcorria completamente igual a tantas outras, não fosse pela insistência do sol em não sair de detrás das nuvens. E não fosse um pequeno filete alaranjado que podia ser facilmente visto perambulando pelas ruas quando olhado do topo de um edifício.

Tudo transcorria exatamente como sempre transcorrera, com exceção do vento constante e gélido que fazia com que as pessoas se encolhessem em suas próprias roupas. E com exceção do “toc-toc” constante que fazia um sapato azul marinho que nunca andara por aquelas calçadas antes.

O meio dia chegou da mesma forma que chegava todos os dias, fosse como fosse, sem exceção. E ao meio dia Felipe entrou no restaurante do Seu José e foi se servir no buffet. E naquele dia, onde tudo parecia transcorrer de modo diferente dos outros dias como aquele, algo diferente aconteceu novamente. E naquele dia, dentre tantos outros dias, entrou pela porta do restaurante uma moça de longos cabelos alaranjados, sardas no rosto e pequenos olhos verdes. Vestia uma blusa branca e um casaco fino demais para o frio que fazia. E usava sapatos azuis marinho que em nada combinavam com a simplicidade do restaurante. E o olhar de Felipe se encontrou com o olhar da moça por meia fração de segundo e nada mais aconteceu de diferente.

Felipe voltou a servir a sua comida e a moça entrou na fila do buffet. E Felipe pesou o seu prato e pegou a sua comanda e largou tudo em cima de sua mesa. Quando, surpreendendo a todos – mas não mais do que ao próprio Felipe – o seu celular tocou. O restaurante, sempre silencioso e taciturno, foi subitamente invadido pelo som de uma melodia polifônica que tentava simular um riff de guitarra composto havia pouco menos de quarenta anos por um músico excêntrico nos subúrbios de Nova York.

E a atenção de todos se voltou novamente para os seus devidos pratos enquanto Felipe murmurava ao telefone. E da ligação veio a notícia de que seu currículo despertara a atenção de um pequeno empresário e que uma entrevista estava sendo marcada. Ao desligar o telefone, ainda com um sorriso no rosto, o homem percebeu uma pessoa se aproximando. E ao virar o rosto se deparou com dois pequenos olhos verdes que, acompanhados de um sorriso tímido e da voz baixa de sua dona, revelavam que aquela música era a sua favorita e quem sabe ela não poderia se sentar para almoçar com ele?

E então Felipe sorriu e concordou e observou a moça. E sorriu percebendo o laranja de seus cabelos, e o verde de seus olhos. E observou o branco de sua blusa, o preto de seu casaco, o azul dos seus sapatos. E só então percebeu o amarelo que cobria as paredes do restaurante, o vermelho do porta-guardanapos, e até mesmo o azul do quadro torto da parede da esquerda, que alegremente decorava o ambiente. E viu o grisalho do bigode do velho Frederico, e o lilás da capa do caderno de poemas de Luzia, viu todas as cores e formas de tudo que estava ao seu redor enquanto ouvia a voz suave da moça que comentava sobre a coleção de discos que ganhara do avô. E comentou e conversou sobre música, e sobre cinema e sobre o clima e a cidade. E a moça, que era nova, quis conhecer tudo e sair com ele e quem sabe não poderiam se conhecer melhor. E em meio a toda euforia e alegria que coloria a sua vida, Felipe levou o garfo a boca e pôde, pela primeira vez desde que passara a frequentar o restaurante, sentir o sabor da comida.

A Longa e Terrível Transformação de Oliver Barbosa

junho 9, 2015

Naquela fatídica manhã de quarta-feira, Oliver Barbosa levantou de sua cama com o esforço comum de todas as manhãs. Coçou de leve a imensa barriga e arrastou-se lentamente até o banheiro, ainda de olhos semicerrados. Coçou a orelha, mexeu no cabelo, na barba, e começou a tirar a sua roupa de dormir.

Entrou no chuveiro, onde tomou um demorado banho, tomando cuidado para lavar as dobras de sua pele. Lavou os cabelos com shampoo e não se importou em usar o condicionador de sua mãe.

Abriu a janela do banheiro na esperança de que o ar frio do lado de fora desembaçasse o espelho e começou a se vestir. Colocou sua cueca, suas meias, sua calça jeans e a camisa verde clara da empresa. Assim que pôde ter uma visão melhor, parou em frente ao espelho. Penteou os curtos cabelos cor de cobre, passou a mão na barba falha que insistia em cultivar e pegou a escova de dentes.

Colocou a pasta na escova, molhou ambas com a água da torneira e enfiou na boca. Escovou a lateral direita, então a esquerda, a frente e cuspiu. Molhou a escova novamente. Repetiu o processo. Cuspiu. Sorriu para o espelho. Todos os dentes brancos e retos, com exceção dos caninos excessivamente longos. Oliver se dirigiu para fora do banheiro, foi até o corredor e parou. Voltou ao banheiro e olhou para o espelho novamente. Oliver nunca teve os caninos excessivamente longos.

Após se certificar de que sim, era aquilo mesmo, seus dentes estavam mais longos, Oliver saiu para o corredor e se dirigiu até a cozinha. Sua mãe já estava preparando o seu café da manhã, como fazia todos os dias antes de fazer os seus exercícios aeróbicos. Oliver deu um beijo de bom dia em sua mãe, sentou-se na mesa e perguntou para ela se havia algo de diferente nos seus dentes. A velha senhora respondeu que não, que estava com os dentes exatamente como no dia anterior, ao que o filho consertou a pergunta e apontou para os próprios dentes.

A mãe observou e comentou que sim, dois deles estavam maiores. Perguntou se estavam doendo ou incomodando e, diante da negativa do filho, disse que ligaria para a dentista e marcaria um horário para aquela semana, ainda.

Após comer duas torradas, um pedaço de bolo e tomar uma xícara de café com leite, Oliver se despediu de sua mãe e foi até a garagem. Lá entrou em seu carro e dirigiu até a empresa onde trabalhava havia quatro anos.

A empresa não ficava muito longe, de modo que Oliver chegou em poucos minutos. Cumprimentou timidamente a recepcionista e seguiu para sua mesa. Trabalhou todo o período da manhã sem grandes incomodações. Ninguém o questionou sobre nada e não precisou falar em público, de modo que mesmo que alguém se importasse com sua saúde bucal, não teria a oportunidade de ver seus dentes.

Durante o almoço Oliver se sentou sozinho, como de costume. Serviu-se de salada, arroz, feijão, macarrão, um pedaço de carne de porco e duas panquecas. Na hora de pegar uma bebida, lembrou-se de que talvez fosse melhor cuidar da dentição, e optou por uma água mineral no lugar da coca-cola.

Terminada a hora do almoço, voltou até sua mesa. No período da tarde, o sol entrava na sala de Oliver por uma janela lateral. Ocasionalmente, naquele dia as cortinas se encontravam abertas, de modo que o rapaz ficou exposto a forte luz solar durante um grande período. De uma forma geral, aquilo não devia incomodar. Sempre ficou no sol sem problemas, mesmo no verão. Dessa vez, porém, sentiu a pele ficar bastante avermelhada. O calor não era algo que o incomodava, mas não podia deixar de reparar que estava lentamente se assemelhando a um tomate.

Discretamente fechou as cortinas e voltou ao seu lugar, mas com medo de que algo muito estranho pudesse estar acontecendo consigo. Passou o resto do dia com um ligeiro nervosismo e inquietação, mas nada que alguém pudesse ter reparado. Bateu o ponto ao fim do expediente e voltou para sua casa.

Estacionou na garagem e entrou pela porta lateral. Sua mãe já estava pondo a mesa e fazendo diversas perguntas sobre o trabalho. Perguntou acerca dos dentes e o filho respondeu que estavam iguais. A consulta no dentista estava marcada para o final da semana.

Oliver se sentou a mesa e junto de sua mãe comeu quatro sanduíches e bebeu um suco de laranja. Após a refeição a mãe foi lavar a louça e o rapaz foi até o seu quarto. Resolveu ligar o computador e pesquisar na internet o que poderia estar acontecendo com o seu corpo. Obviamente a profissional na área de ortodontia teria um diagnóstico mais qualificado, mas pesquisar por conta própria não poderia fazer mal algum.

Após abrir o site de buscas, Oliver começou a digitar os seus sintomas. Dentes crescendo e reação adversa ao sol. Primeiro resultado: vampiros. Riu, obviamente. Refinou a busca para encontrar respostas separadamente, visto que ambos os sintomas poderiam não estar relacionados. A queimação na pele era considerada normal. Talvez tivesse estado no sol mais tempo do que percebera. Quanto ao crescimento anormal dos dentes não conseguiu nenhum resultado conclusivo. Melhor seria ficar atento ao sol da janela e esperar a consulta na dentista.

Ficou mais algumas horas acordado, assistindo a um filme junto de sua mãe. Dormiu sem dificuldades e acordou ao som de seu despertador, como todos os dias. Desligou o aparelho e levantou-se com o esforço cotidiano. Arrastou-se até o banheiro e se olhou no espelho. Os dentes pareciam um pouco mais compridos, mas poderia muito bem ser impressão. Sua barba ainda possuía muitas falhas, mas o bigode parecia estar crescendo melhor. Entrou no chuveiro e lavou os cabelos, e o imenso corpo. Sempre tomando cuidado com as dobras da pele. Pele esta que parecia um tanto quanto áspera. Precisaria comprar um sabonete diferente na próxima vez que fosse ao mercado.

Vestiu-se e foi até a cozinha, onde sua mãe já o esperava com o café pronto. Conversaram um pouco sobre o sonho que ela tivera, alguma coisa envolvendo um helicóptero e um astro de cinema dos anos 50. Oliver comeu uma torrada, um pedaço de bolo e duas maçãs. Seguiu para seu carro e dirigiu até a empresa.

Durante o trajeto, percebeu que o carro acelerava com muita facilidade, o que poderia ser um risco no trânsito. Por sorte era um motorista cauteloso, bem como sua mãe, mas teria de levar o carro a oficina e verificar os freios.

Na empresa, sentou-se na sua mesa e encontrou um memorando de seu chefe. Não era nada urgente, mas Oliver teria muito trabalho nos próximos dias. Um supervisor da matriz da empresa visitaria a filial onde trabalhavam e todos os setores precisavam estar 100% em ordem. Dessa forma, a manhã foi destinada a fazer um relatório completo do andamento atual do setor.

No almoço, Oliver comeu salada, arroz, feijão, e quatro pedaços de peixe frito. Não que fosse o maior fã de peixe da empresa, mas a carne estava tão passada do ponto que resolveu trocar a dieta naquele dia. A carne mal passada parecia sempre mais apetitosa.

O resto da tarde se passou como de costume. As cortinas permaneceram fechadas e o serviço ocupou a mente de todos na empresa durante as horas que se seguiram. Tomando cuidado com o acelerador, Oliver foi para casa.

Entrando pela porta lateral, encontrou sua mãe na sala de estar. A mesa da cozinha já estava posta e ela assistia televisão enquanto esperava seu filho. Segundo ela, um cano do banheiro parecia ter se soltado e ela precisava da ajuda do filho para colocá-lo de volta no lugar. Em seguida poderiam jantar com tranquilidade.

Enquanto a mãe ia buscar a caixa de ferramentas, o filho se dirigiu ao banheiro para ver o estrago. O chão ainda estava úmido, mas no mais havia apenas um cano solto. O cano era um pouco alto para que a mãe alcançasse, mas o jovem, com todo o seu tamanho, conseguia com facilidade.

Antes mesmo que sua mãe voltasse, Oliver pegou o cano, colocou de volta em seu lugar de origem e o rosqueou com as próprias mãos. Em outros tempos aquela seria uma tarefa difícil, mas parecia que os braços dele estavam mais fortes que de costume. Quase mais compridos, também. Quando chegou com a caixa de ferramentas e viu que o filho já havia resolvido o problema, a Sra. Barbosa o chamou para jantar.

A mesa estava farta, como de costume, mas nada daquilo parecia apetecer Oliver. Comeu um sanduíche com patê de atum e uma pera, apenas para comer algo e se retirou para o quarto. Estava confuso com o que estava acontecendo com seu corpo. Primeiro os dentes, então a pele e agora parecia mais forte, também. Recorreu, novamente, à internet. Os resultados eram variados. Ou ele estava fazendo exercícios que desconhecia, ou estava se transformando em algo fora do comum. Foi então que começou a se preocupar.

Dentes compridos, alergia ao sol, força fora do comum, falta de apetite. Aquilo não poderia ser coincidência. Oliver estava lentamente se transformando em uma criatura das trevas. Olhou para fora da janela de seu quarto, onde a luz da lua iluminava a rua. Sentiu medo. Medo daquilo que poderia se transformar.

Foi até a cozinha e deu um demorado abraço em sua mãe. Disse que a amava e agradeceu a ela por tudo o que já tinha feito. Sem entender muito o gesto abrupto de afeto, a senhora agradeceu e disse que o filho fora o melhor presente que a vida já havia lhe dado.

Naquela noite, Oliver não dormiu. Ao nascer do sol, correu para o espelho do banheiro. Os dentes estavam anormalmente maiores, quase alcançando o seu queixo. Os cabelos de sua cabeça começavam a cair e sua pele parecia mais acinzentada do que de costume. Algo estava muito errado.

Ligou o computador e pesquisou pelos diversos tipos de monstros da noite. Encontrou uma foto de um ser careca, de dentes afiados, membros compridos. Forte, inteligente, diferente daquilo que imaginava. Oliver encarava na tela brilhante do computador uma imagem de Nosferatu.

Em pânico, se trancou no quarto e chamou pela mãe. Esta apareceu preocupada na porta, perguntando o que estava acontecendo. Entre soluços, Oliver disse que estava doente. Pediu que a mãe telefonasse na empresa e avisasse que ele não poderia trabalhar. Quando a mãe tentou entrar no quarto respondeu com raiva. Não queria que ela lhe visse daquele modo. Assustada, a velha senhora correu para o telefone da sala.

Oliver ficou ali, deitado em sua cama, escondido sob as cobertas. Sentia o sangue gelar em suas veias. Sentia os dentes crescerem em sua boca. Era tarde demais para ele. A pele se enrijecia e se tornava cada vez mais áspera. Os cabelos caíam em tufos de sua cabeça. Os membros se alongavam. A sensibilidade dos dedos diminuía. E então aconteceu.

Ao cair da noite, sob a grande sombra noturna, ele se levantou. Aquele, que outrora fora um homem como outro qualquer. Aquele que não era mais.

Caía uma forte tempestade do lado de fora de sua casa. O vento uivava forte e a escuridão tomava conta do céu. Nuvens negras pairavam sobre a cidade, densas. A água escorria gelada pelas paredes. Atraído pelo frio e pelas trevas que englobavam a noite, Oliver se levantou.

Arrastou-se pelo quarto e abriu a grande janela. Pulou para fora e caiu pesadamente no gramado. Foi andando do modo que pôde até a rua. Avistou ao longe, escondidos sob uma parada de ônibus, um casal de adolescentes abraços.

Estavam ambos tão distraídos nos braços um do outro, tão envoltos de paixão, que sequer repararam na sombra que se aproximava lentamente. Sem fazer barulho e com muita calma, a sombra foi se aproximando mais e mais. Somente quando já estava dentro do ponto de ônibus foi que o casal pôde ver, sob a fraca luz de uma lâmpada elétrica, aquilo que outrora fora Oliver Barbosa transformado completamente… EM UMA MORSA!

Sobre Sonhos

julho 11, 2013

Acordei em um pulo. Daqueles que a gente mexe as pernas e sente uma momentânea falta de ar. Quando o nosso cérebro pensa que estamos morrendo. Acordei assim. Abri os olhos rapidamente, ainda tentando me localizar. Estava no meu próprio quarto, na minha cama, obviamente. Onde mais poderia estar dormindo? Procurei pelo relógio digital, na cabeceira da cama. Quatro horas e vinte e sete minutos. Madrugada.
Eu estava tendo um sonho, não estava? Não era um pesadelo, mas também não era um sonho bom. Era um daqueles sonhos estranhos, confusos. Eu estava na rua, eu acho. Ou seria no parque? Não, claro, eu lembro, eu estava na rua, logo acima da escadaria que dá acesso ao parque. Alguns carros passavam, era dia claro, ainda. E tinha uma garota. Quem era ela mesmo?
Baixinha, pequena, corpo magro, cabelos negros e curtos. Ela estava de costas. Conversamos alguma coisa, parecia importante. Eu gostava de estar ao lado dela, mas… quem era ela?
De repente eu não estava mais na rua. Eu estava sentado na escadaria do parque. Não, minto, não era o parque. Eu estava nas escadas da universidade, apoiado na parede, ocupando quase que o degrau inteiro. Ela também estava lá, os braços apoiados nos joelhos. Ela me julgava e soltava palavras duras. De repente nos beijamos, não sei porque. Eu a observei atentamente. Não lembro do seu rosto, do seu cheiro ou da sua voz. Só consigo me lembrar dos seus olhos. Duas esferas amareladas, um tom muito raro. Mas eram muito mais do que bonitos ou profundos. Eram olhos confiantes, penetrantes, certeiros. Eram os olhos de quem tinha o mundo nas mãos e sabia disso.
Me revirei na cama algumas vezes, tentando dormir. A imagem da garota misteriosa não saía da minha cabeça. Quem era? Porque eu sonhei com ela? E, mais importante, por que ela não me deixava dormir?
Fechei os olhos, virei para o lado. Virei para o outro lado e voltei para o primeiro. Fiquei de bruços e de barriga para cima. Olhei para o relógio: Cinco e cinco. Não adiantava, não ia mais dormir.
Levantei e fui para a escrivaninha. Peguei uma folha de papel em branco e um lápis. Com alguns poucos riscos dei forma a um nariz. Depois comecei a dar forma ao rosto e aos cabelos. Os cabelos eram curtos, estilo pixie, e bastante pretos. Não me recordava bem se haviam sardas no rosto dela ou não. Tomei um cuidado muito grande ao desenhar os olhos. Eram grandes, bonitos, mas não era isso que eu queria transmitir. Eles deviam ser fortes, confiantes. Não posso dizer que alcancei o objetivo, mas não falhei também. Eles eram muito mais vívidos no meu sonho, mas o desenho estava bonito.
Paralelo a isso, o sol já clareava o horizonte. Passava das seis horas da manhã. Fui ao banheiro, tomei um banho quente, escovei os dentes, fiz a barba, me vesti. Preparei uma xícara de café e saí de casa, rumo a universidade. Levei o desenho comigo.
Ainda era cedo quando cheguei. Poucas pessoas estavam presentes. Encontrei um grupo de amigos conversando e me aproximei. Estavam lá o Lucas, o Marcelo, o Gustavo, a Ana e a Julia, falando sobre as provas da semana que vem. Cumprimentei a todos e comecei a ouvir a conversa. Foi o Gustavo quem reparou no meu estado e comentou que eu parecia bem acabado. Perguntou se eu não estava estudando demais. Respondi que não, que estava daquele jeito por causa de um sonho estranho que tive e que não consegui mais dormir. Narrei o  sonho e mostrei o desenho. Todos concordavam que era uma moça muito bonita, mas ninguém a conhecia. A Julia, muito empolgada, sugeriu que eu a encontrasse. Ri, é claro. Como encontrar uma garota que só existe nos meus sonhos?
A Julia começou a explicar que é impossível sonhar com pessoas que não existem. Se eu sonhei com essa garota é porque eu a vi em algum lugar. Talvez se eu refizesse os meus passos de ontem eu a encontrasse. Ela ficou muito empolgada e se prontificou a ir comigo. Para ela era tudo uma brincadeira de detetive.
Aceitei. Não é como se eu tivesse mais o que fazer mesmo. Seria engraçado e uma boa maneira de passar o tempo, mesmo que não a encontrasse. Além do mais, a Julia era uma companhia sempre divertida de se ter por perto. Os outros, obviamente, não quiseram nos acompanhar por motivos de trabalho, preguiça ou falta de vontade mesmo.
Passamos a manhã toda na aula, como sempre. Depois almoçamos juntos, eu e a Julia. Ela falava sobre muitas coisas ao mesmo tempo, era uma garota muito enérgica. Eu comi de forma rápida e apenas afastei meu prato para esperar que ela terminasse o dela. Em seguida, ela pediu para que eu contasse tudo o que fiz no dia anterior, afinal, teríamos que revisar cada um dos meus passos.
O dia anterior foi quarta-feira. Pela manhã estive na universidade, como sempre. Almocei no restaurante onde nos encontrávamos naquele momento, depois fui até o centro da cidade. Fui comprar um par de sapatos novos, depois me dirigi até a papelaria e, por fim, fiz uma parada rápida na livraria.
Julia tinha carro, mas afirmava que seria vital para a nossa investigação que fôssemos a pé. A garota poderia muito bem ter sido vista no caminho e não podíamos deixar que escapasse de nossa vista. Ela estava realmente se divertindo com aquilo tudo.
Saímos do restaurante e fomos caminhando devagar, observando as pessoas ao nosso redor. Devíamos parecer dois turistas indiscretos, olhando para todos os lados ao mesmo tempo. Se não isso, no mínimo, estávamos bem idiotas.
A caminho da loja de sapatos lembrei de um detalhe importante. Eu havia parado na banca de revistas para ver se não encontrava palavras cruzadas. Julia rapidamente me puxou pelo braço e entramos na banca de revistas. A garota que atendia era jovem, mais ou menos da nossa idade. Tinha os cabelos loiros e compridos, olhos castanhos e um tipo físico bastante magro. Quando mostramos para ela o desenho, reparei que alguns traços do rosto do desenho eram bastante semelhantes com os da moça da banca, em especial o queixo e o nariz.
Muito simpática, a moça se recordava da minha visita no dia anterior, mas nunca havia visto a moça do desenho antes. Nos desejou boa sorte e disse que poderíamos voltar sempre que precisássemos de algo.
Saímos dali e prosseguimos até a loja de sapatos. Assim que entrei uma das atendentes veio me perguntar se havia algum problema com os sapatos novos. Sorri constrangido e disse que não. Julia tomou a frente e disse que estávamos procurando uma pessoa. Tirou o desenho da mochila e perguntou se a atendente conhecia a personagem. Ela pegou o desenho e saiu perguntando para as outras atendentes. Quem veio me devolver o desenho foi a mesma moça que me vendeu os sapatos. Uma garota um pouco alta, com cabelos escuros e sardas no rosto. Aparentemente nenhuma das garotas havia visto essa cliente. Ela se desculpou e perguntou se não havia mais nada que pudesse fazer para ajudar.
Agradecemos e nos retiramos. Não foi ali que vi a moça dos meus sonhos também. Seguimos a rua principal em direção a papelaria. Julia comentava sobre como as moças eram simpáticas e como a mocinha das sardas não tirava os olhos de mim e quase brigou para vir me devolver o desenho. Confesso que não prestei atenção em nada disso.
Caminhamos um pouco, observando as pessoas que iam e vinham pela rua. Nenhuma delas era a garota que procurávamos. Chegamos a papelaria e ali fui recebido com sorrisos. Eu podia não ser nenhum artista, mas era um cliente frequente. Na verdade eu adorava desenhar, especialmente retratos. Quem veio nos receber foi a Karen. Uma vendedora alta, quase do meu tamanho. Usava os cabelos castanhos muito curtos, com algumas luzes, ela que me ensinou que o nome do tal corte de cabelo era “pixie”. Era uma moça sempre sorridente e prestativa. Perguntou se eu esqueci de alguma coisa, papel, caneta, algo assim.
Esclareci que não e mostrei o desenho. Ela prontamente chamou todas as pessoas para verem aquilo. Só então me dei conta de que comprava materiais com eles há meses e nunca havia mostrado um trabalho sequer. Julia explicou a história do desenho e de como eu sonhei com a moça que agora nós procurávamos. Todos se olharam, buscando alguma manifestação, mas não. Ninguém a tinha visto. Agradeci, prometi trazer outros desenhos para que vissem que o material estava sendo usado, e saímos.
Julia ainda não estava desanimada. Ela tinha certeza de que encontraríamos a garota na livraria. Bem o perfil “garota de livraria” de filme americano, ela comentava. Eu não concordava, mas não estranharia também. Era possível, creio.
A livraria era relativamente grande. Fomos seguindo os meus passos, primeiramente observando os lançamentos. Ignorávamos completamente os títulos, focando nos vendedores e clientes. Eu não sabia dizer se todas as garotas que trabalhavam ali eram bonitas ou se eu possuía algum tipo de fetiche com garotas e livros, mas a segunda opção parecia mais próxima da realidade. Depois de perambular pela sessão de literatura internacional e quadrinhos, resolvemos pedir ajuda. Chamamos uma menina que trabalhava ali, uma garota um pouco acima do peso, com os cabelos presos em uma trança. Mostramos o desenho para ela e fizemos as perguntas de sempre. Assim como nos outros lugares, a moça pegou o desenho e foi pedir ajuda aos colegas. Voltou algum tempo depois e disse que não. Ninguém viu a moça do desenho. O modo como a garota falava, olhando diretamente em meus olhos, me incomodava um pouco. Era como se ela observasse diretamente no fundo da minha alma. Como se não houvesse medo ou dúvida para esconder. Agradeci mais rápido que o habitual e saímos da livraria.
Sentamos em uma sorveteria para descansar um pouco. Julia parecia chateada, então achei que um sorvete de chocolate a deixaria melhor. Ela realmente queria encontrar o amor da minha vida e servir de cupido. Eu até consigo imaginar ela contando para todo mundo como foi ela, e somente ela, a responsável pelo meu namoro, casamento e nascimento de sete filhos saudáveis.
Não foi dessa vez, porém. Eu já estava contente só por ter saído de casa e me divertido um pouco. Julia comentava que a menina da livraria estava me devorando com os olhos e que talvez eu devesse parar de sonhar e perceber o que acontecia ao meu redor, mas eu não estava realmente prestando atenção nela. Eu sentia que estava faltando alguma coisa.
Levantei subitamente da cadeira. Em seguida, percebendo que todos estavam olhando para mim, me sentei. Comentei com a Julia que eu havia esquecido um pequeno detalhe. No dia anterior, na universidade, eu não fui direto para a aula. Eu precisei passar no outro prédio para corrigir um erro na minha matrícula. Talvez fosse alguém de lá.
Minha amiga quase engoliu o sorvete inteiro, de tão rápido que terminou. Saímos da sorveteria e pegamos um ônibus direto para a universidade. Ela variava entre me xingar por ter esquecido algo tão fundamental e dar pulinhos empolgados pela busca não ter terminado.
Chegamos na universidade e nos dirigimos para o prédio da administração da universidade. Perambulamos pelas salas, fomos até a secretaria, nada. Havia um homem por trás do balcão, perguntamos a ele sobre a menina do desenho, mas ele não soube responder. Nunca viu ninguém como ela por ali, e ele já trabalhava ali fazia anos. Agradecemos e nos retiramos, cabisbaixos. Até eu já estava ficando empolgado a essa altura. De repente, porém, olhei um pequeno vão entre os prédios. Uma espécie de beco escuro, com uma torneira e algumas caixas. Me aproximei devagar e, entre as caixas, percebi dois brilhantes olhos amarelos me observando.
Fui mais perto e mais perto. Quando estava já dentro do beco percebi o que eram aqueles olhos. Um gato. Um gato preto escondido entre as caixas. Julia ficou me olhando, esperando uma explicação. Eu, meio sem jeito, expliquei que os olhos da garota dos sonhos eram muito parecidos com aqueles, principalmente a cor.
Observei novamente o desenho que fiz no meio da madrugada. Os traços da moça da banca de jornal, o cabelo da atendente da papelaria, as sardas da vendedora de sapatos, os modos da garota da livraria e os olhos de um gato preto.
Era isso. A garota existia, sim. Talvez Julia tivesse razão. Eu tinha que parar de sonhar com a garota ideal. Ela estava ali, em toda parte. Toda garota tem algo de bonito e interessante. É possível se apaixonar rapidamente se soubermos encontrar a beleza. Ninguém é perfeito e nunca encontrarei a garota dos meus sonhos, mas posso muito bem acordar e encontrar a garota com quem eu quero sonhar. Não posso simplesmente separar as partes das pessoas e criar um Frankenstein bonito. É preciso aceitar as pessoas como um todo, com defeitos e qualidades. Julia ficou decepcionada, mas achou uma conclusão bonitinha.
Coloquei meu braço por cima dos ombros dela, fiz um ligeiro cafuné e saímos do beco, sorrindo. Estava terminada a aventura. O gato saiu do seu esconderijo, mais tranquilo com a ausência de pessoas. Caminhou um pouco pelo campus da universidade e logo foi encontrado por sua dona. Uma garota que estava andando por aquela região fazia uns dias, a procura do seu gato. Uma garota de lindos olhos amarelos.

Sobre Divindades

maio 30, 2013

Começou como uma pequena chateação. Rodolfo estava calmamente andando pela rua quando um homem de meia idade chegou até ele, tocou em sua mão e se ajoelhou:
– Salve, Rodolfo, senhor de todo o universo. Imploro para que perdoe os meus erros e me ofereça suas bençãos hoje e sempre!
O jovem, assustado e confuso, saiu de perto do homem. Este, ainda ajoelhado, observava os próprios dedos com a admiração de quem tocou em algo sagrado. E o que poderia ser um episódio isolado de um maluco urbano qualquer, logo começou a crescer.
Ao andar nas ruas, fazer compras ou simplesmente aparecer na janela de casa, o universitário reparava em pessoas olhando-o fixamente. Umas com medo, outras com adoração. O espelho não revelava nada de anormal. O mesmo cabelo castanho, os mesmos olhos verdes, a mesma cara de cansado de um estudante de dezenove anos.
Duas semanas depois do primeiro homem, ao fazer compras no mercado Rodolfo foi surpreendido por uma senhora. Era uma mulher com quase setenta anos e acompanhava uma criança pequena. Elas pararam e olharam para ele. A mais velha, então, explicou à criança:
– E esse, minha netinha, é o nosso Deus comprando ervilhas.
– Ele gosta de crianças, vó?
– Ele gosta de todos nós, pequena. Agora vamos andando.
Rodolfo apenas observou ambas se afastarem. A atmosfera ao redor era simplesmente surreal. Aquelas pessoas que surgiram do nada e foram para lugar algum após afirmar, com todas as letras, que ele, com a lata de ervilhas na mão e tudo, era Deus.
Obviamente que tudo poderia fazer parte de um contexto maior. A idosa poderia estar falando sobre como Deus está presente em todas as coisas do universo e como cada pessoa é bondosa ou algo assim. Mas impossível não associar com o maluco na rua, no outro dia.
E o tempo passou, com cada vez mais pessoas olhando e cochichando. E nem bem cinco dias depois, ao entrar em uma livraria, outra surpresa:
– A que devemos a honra de sua abençoada visita, senhor Criador?
O atendente da livraria falava em tom pomposo e educado, obviamente se dirigindo ao cliente de chinelo, bermuda e camiseta que entrava na loja. Rodolfo apenas observou, sem saber ao certo como reagir aquilo. Todos ao redor o olhavam com adoração.
– O que está acontecendo aqui!? Porque vocês acham que eu sou Deus?
– Nosso Senhor testa a nossa fé! – Gritou outro cliente – Alegando não ser quem realmente é para que possa ver o quanto cremos na verdade. Mas nada teme aquele que nada deve. Deus Rodolfo, criador do céu e da Terra, não achamos que o senhor é Deus porque não há opiniões que possam contrariar os fatos.
– Mas eu nem mesmo…
– Viva o nosso Deus!
E todos os clientes da livraria, e todos os vendedores e algumas pessoas que passavam pela rua se ajoelharam e louvaram. E Rodolfo correu para longe. Aquilo estava errado. Aquilo estava muito errado.
Rodolfo nunca foi exatamente um rapaz religioso. Acreditava em um Deus – que, definitivamente, não era ele mesmo – mas dificilmente ia para igreja ou algo assim. Frente a tal situação, porém, resolveu ver se conseguiria algum apoio divino.
Entrou no templo sorrateiramente e se ajoelhou em algum dos bancos. Começou a se concentrar e rezar. Ou fazer perguntas ou algo assim. Estava em silêncio, apenas organizando os pensamentos. Foi subitamente interrompido pela voz cansada do padre já idoso:
– Os mistérios divinos são mesmo fascinantes. Nosso Senhor Rodolfo conversando consigo mesmo. Para quem Deus pede ajuda quando se sente só? Deus nunca se sente só, eu acho, e talvez, assim como nós, apenas procure a igreja para refletir melhor. Sua presença aqui sempre foi louvada, Senhor, e me sinto honrado de poder lhe receber. Mas me responda, Todo Poderoso, o amor entre dois homens é, afinal, certo ou errado?
Rodolfo arregalou seus olhos. Aquilo era completamente surreal. Nada fazia sentido. E o que diabos ele tinha a ver com o amor dos outros? Rodolfo correu. Correu para fora e correu pelas ruas. As pessoas gritando e cantando hinos de adoração. O jovem se trancou em casa.
Perdeu um pé do chinelo no caminho, mas não sairia de casa para procurar. Do jeito que o mundo estava era bem possível encontrar uma “Igreja da Chinela Sagrada” assim que colocasse o pé para fora. Não, o garoto não sairia. E não saiu.
Três dias depois alguém bateu na porta da sua casa.
– Quem é?
– Aqui é a polícia federal! Temos um mandado para prendê-lo, Rodolfo! Abra a porta ou teremos que usar a força.
– Me prender? Mas por quê?
– Um homem entrou em um teatro e metralhou a platéia. Houveram sete mortes. Depois de preso ele alegou que fazia tudo em seu nome. Abra a porta agora!
Rodolfo abriu a porta e a polícia o algemou. Levaram-no até o carro e o transportaram para a delegacia, onde seria escutado. No caminho ele percebeu as placas nas igrejas. “Igreja Rodolfista”, “Igreja do Rodolfo do Sétimo Dia”, “Igreja do Evangelho Rodolfangular”, “Igreja Rodolfica”.
Tentou explicar a verdade na delegacia. Ele era um jovem normal, estudante, morando sozinho, nunca ouviu falar do acusado antes. O delegado apenas respondeu:
– Não minta para nós, Senhor, todos sabem que você é onisciente. Não sei se isso faz parte de um plano maior ou não, mas devemos prendê-lo mesmo assim. E que meus erros sejam perdoados, Rodolfo.
E Rodolfo foi fichado e enviado a prisão. Recebeu um uniforme e foi mandado para a sua cela. Os presos o olhavam admirados.
– O nosso Deus é o Deus dos humildes! – diziam – Rodolfo se juntou a nós para compreender o nosso sofrimento, perdoar os nossos erros e nos guiar a salvação!
Logo um agito começou. Os presos, exaltados, queriam sair das celas mediante a promessa de liberdade que Rodolfo significava. Os policiais tentavam contê-los e logo começou a violência. Uma grande briga. Rodolfo precisou ser retirado do local. Foi realocado em outra cela, sozinho.
Não entendia mais nada do que se passava, mas talvez já nem se importasse mais. Era confuso, desesperador. Em um momento é apenas um cara andando na rua e, no momento seguinte, é Deus. Se ao menos tivesse os poderes dele ou algo assim.
No dia seguinte, Rodolfo foi levado para junto dos outros presos, que pareciam menos agitados. Ficou isolado durante o dia, deprimido e confuso. A noite, um dos presos quebrou o seu pescoço. Por que de nada adiantava um Deus que não salvava.
Seu corpo foi retirado da prisão e mandado para o necrotério. E três dias depois, não ressucitou.

Sobre Maldições

abril 30, 2013

– Vi a Clara, ontem.

– Opa, e aí? Rolou um clima? Um remember?

– Ela estava acompanhada…

– Não vai me dizer que…

– Sim, tava com uma menina.

Felipe não sabia se ria ou se chorava. Era a quinta vez consecutiva que isso acontecia com Tiago. Toda menina que ele beijava quase que imediatamente passava a se interessar por outras meninas. Na primeira vez foi engraçado, na segunda vez também, na terceira passou a ser preocupante e agora já não tinha mais a menor graça.

– De novo, cara!?

– De novo. Não ta certo isso, na boa, tem alguma coisa muito errada.

– O que é que você faz com essas minas, velho?

– E eu sei lá? Começou com a Ju e depois não parou mais.

A Ju. Antes ela era uma menina quieta. Baixinha, loira, uma graça. Aí Tiago saiu com ela e a beijou. Então, como num passe de mágica, na semana seguinte ela apareceu quieta, baixinha, loira, uma graça. E beijando meninas. Quando perguntaram a respeito ela apenas deu de ombros.

– Acho que eu apenas nunca tinha experimentado.

Tiago, obviamente, foi motivo de piada por semanas a fio. Mas tudo se esquece, tudo passa, e tudo se repete. Camila era uma menina estudiosa. Gostava de ler e passava as horas tirando notas no violino. Usava uma franja reta na linha das sobrancelhas e óculos que lhe davam um aspecto de intelectual. Quase um estereótipo de seriado adolescente. A menina estudiosa.

Um dia Tiago a encontrou na biblioteca – Oh, a originalidade! – e conversaram um pouco e marcaram de sair. Caminharam pelo parque, jogaram conversa fora e se beijaram.

Três dias depois Tiago a encontrou novamente na biblioteca. Estava entre as prateleiras de geografia e direito, agarrando Sandra como se nada mais importasse no mundo.

– Eu estava confusa, eu acho. – Disse a garota ao ser interrompida – Me desculpe.

E voltou a beijar sua parceira no meio daquele ambiente originalmente habitado por virgens. Obviamente o novo fato fez com todos lembrassem do episódio anterior, e Tiago novamente ficou conhecido como o cara que tornava as meninas lésbicas.

E isso, por algum motivo desconhecido, gerou o efeito contrário do esperado. Ao invés de afastar as meninas dele, atraiu. E atraiu justamente a Marina. O desejo de todo homem em um raio de cem quilômetros. A Marina era simplesmente maravilhosa. Corpo torneado, bronzeado perfeito, lábios carnudos. Parecia ter saído direto de uma propaganda sexista de cerveja. E ela começou a dar em cima do Tiago.

– Vou ensinar ele a agradar uma mulher! – ela dizia.

– Estou vendo uma mulher… – ela disse na semana seguinte.

E todos pararam de rir de Tiago. Não era engraçado. Não era triste, também. Era misterioso, confuso, extraordinário.

Obviamente as teorias começaram a surgir: Macumba, aliens, voodoo, illuminati, maçons e, a mais provável, aquilo tudo era obra da ditadura gay.

Tiago passou um bom tempo sozinho. Meses sem nem ao menos tentar um novo relacionamento. “Frustrado” seria uma palavra muito simples para descrever o que sentia. “Fraxtantrico” talvez fosse uma palavra melhor, se fosse uma palavra de verdade e significasse algo maior do que frustração.

Após meses de reclusão, seus amigos finalmente deram um fim ao seu regime de vídeo-games, doritos e coca-cola. Levaram-no em uma festa, onde conheceu a Paula. E beijou a Paula. E quando foi adicionar Paula nas redes sociais no dia seguinte, recebeu uma resposta que, a essa altura, já nem era mais surpresa.

“Oi, Tiago, tudo bem? Viu, eu estou te aceitando e tal, mas eu preciso te contar uma coisa. Eu estava muito confusa ontem e não sabia bem o porquê, mas não é culpa sua, viu? O problema é comigo, eu preciso aceitar que eu gosto mesmo de meninas. Mas ainda podemos ser amigos, ok? Eu te achei muito divertido, beijos.”

Não era o fim do mundo. Seguir a ordem franciscana e se submeter ao celibato é sempre uma opção. Quem sabe não terminava como monge karateca no tibet, ou mesmo Papa! Tiago não sabia por que seu beijo lesbificava as meninas, e isso era aceitável. Não ter a menor ideia de como a ordem franciscana funcionava e de como o Papa e o Tibet não tem nenhuma ligação, por outro lado, não. Existia o Google, pelo amor de Deus!

Mas Tiago não desistiu. Seguiu sua vida, porque a vida existe para ser seguida. E numa bela manhã de sol, atropelou Clara. Nem toda história de amor começa com a sutileza de um atropelamento, mas tudo bem, porque Clara não rendeu uma história de amor. Ele a levou ao hospital, mesmo contra a vontade da moça, que afirmava não sentir dor. Conversaram, se conheceram, marcaram de tomar um café. E agora Tiago conversava com Felipe.

– Cara…

– Pois é.

– Que merda.

– Nem fale.

O silêncio pairou entre os dois por alguns segundos. Subitamente, um sorriso surgiu no rosto de Felipe.

– Cara, é isso! Você precisa usar esse teu poder para o bem!

– Esse meu… poder?

– Ta ligado a Carol?

– Sim, sei.

– Beija ela!

– Cara, ta sabendo que a Carol…

– Sim, exatamente! A Carol é lésbica, se você beijar ela é capaz dela começar a gostar de homens.

– Isso nem ao menos faz sentido, velho! E como é que eu vou beijar ela se ela só curte mulher?

– Não sei, cara, dá teus pulos. Faz isso pelos irmãos, cara! Ela é demais.

Não havia o que discordar aqui. A Carol era demais. Baixinha, cabelo curtinho, preto. Divertida, gente boa, simpático e muito gostosinha. Ela era, sem dúvida, o motivo por trás de inúmeros torcicolos. O pescoço masculino não foi feito para virar tantos graus.

Mas ela gostava de mulheres e isso nunca foi segredo para ninguém. Ela era confiante o suficiente para deixar isso claro. E não foi por falta de pretendentes. Tanto homens sérios quanto babacas que juravam que ela só era assim por nunca ter encontrado o cara certo. Ela podia ficar com um homem, ela só não queria.

Muita gente não sabia o que fazer no momento do desespero. Tiago era um desses. Após tantos fracassos seguidos resolveu jogar a toalha.

– Quer saber? Eu não tenho nada a perder mesmo. Se der certo eu fico com uma gata, se der errado eu tomo um fora. Ainda vai ser melhor do que as outras situações.

E no dia seguinte Tiago ligou para Carol. Marcou de sair e tomar umas cervejas com os amigos. Uma coisa informal e corriqueira, que ela prontamente concordou. No dia marcado, em cima da hora, Tiago ligou, fazendo sua melhor voz de chateado.

– Carol, é o Tiago, tudo certo?

– Opa, tudo certo sim! Se está esperando uma confirmação está gastando crédito, já estou a caminho do bar.

– Então, te liguei justamente por isso. O pessoal me ligou aqui, diz que um amigo deles convidou pra uma festa, lá na cidade dele. Aí a galera foi. Só sobrou eu e você pra ir no bar.

– Ah, entendo. E você não quer mais ir?

– Não, não é isso! Só quero saber se tem problema, se você quer ligar pra mais alguém e tal.

– Nem te preocupa, vamos nós dois mesmo. Qualquer coisa a gente liga pra alguém depois.

– Beleza, te encontro lá.

Tudo naquela história era mentira, mas o resultado era real. Eles iam para um encontro a dois. Nada mais romântico do que beber cerveja na calçada do bar.

Tiago logo foi ao bar e ainda chegou mais cedo do que sua companheira. Ela também não demorou muito. Vestia uma calça jeans e uma camisa branca. Estava estonteantemente linda. Pediram uma cerveja e começaram a conversar. Sempre banalidades. Falaram de música, televisão, de como os amigos eram cuzões, de cinema, livros, trabalho. E começaram a falar um sobre o outro. Era incrível como Carol era uma companhia agradável, e ela se surpreendeu com Tiago. Ela o conheceu no seu período depressivo, não imaginava que fosse um sujeito tão despreocupado e alegre. Talvez fosse a cerveja.

Ao fim da noite estavam ambos rindo a toa. Cerveja demais. Vendo que já estava tarde, Tiago gentilmente se ofereceu para levar Carol até em casa. Esta aceitou, para a surpresa do mesmo. Caminharam, conversaram, riram. No meio do caminho ela simplesmente segurou na mão dele. Em frente a porta do apartamento dela, se beijaram.

Ele até tentou entrar, mas ela apenas riu.

– Não tão rápido, Don Juan. Boa noite.

Ela entrou em casa e ele ficou parado na porta. E agora? Será que a teoria de Felipe seria verdadeira e Carol passaria a se interessar por rapazes? Ou ela continuaria como era e foi tudo efeito do álcool? O que mais incomodava é que ele estava realmente gostando dela. Bom, somente o tempo diria.

Voltou para casa sozinho, mas com um sorriso bobo estampado no rosto. Dormiu sorridente, ainda que com os testículos azulados.

Despertou sem ressaca na manhã seguinte, escovou os dentes e tomou um banho. Almoçou sozinho e, logo no começo da tarde, recebeu um telefonema:

– Eu nunca sai com um cara antes, então eu não sei se sou eu quem tem que ligar no dia seguinte ou não.

Era Carol! Ela estava ligando para ele e obviamente falando como alguém que quer um relacionamento.

– Ah, nem me importo com esses protocolos, que bom que ligou. Dormiu bem?

– Como uma princesa. E aí, está a fim de fazer alguma coisa?

– Claro, tem algo em mente?

– Então, ta passando um filme bacana no cinema.

– Sobre o que é?

– Ah, é tipo um documentário. O cara perdeu a memória, né. Aí um amigo dele filma todos os primeiros encontros dele com familiares, amigos e tal. E todo mundo diz que ele ta bem mudado, mais otimista. Tempos depois ele começa a sair com uma mulher. E aí ele fica com medo de recuperar a memória e dela não gostar mais dele e tal.

– Massa! Vamos sim. Quer que eu te busque ou a gente se encontra lá?

– Poxa, nem to acostumada a esses cavalheirismos. A gente se encontra lá.

– Beleza, então. Até mais.

E o casal foi ao cinema, onde se beijaram um pouco mais. E tomaram sorvete. E, novamente, ela não o deixou entrar em sua casa. E no dia seguinte foram ao parque, e foram ao zoológico, e aí sim foram para a sua casa.

E duas semanas depois ambos estavam no que se pode chamar de relacionamento sério. Um belo dia, passeando pelo shopping, encontraram Felipe.

– E aí, cara, tudo certo!?

– Fala, Felipe, beleza?

– Firme. Como é que tá, anda sumido.

– Então.

– Meninos, se vocês não se importam, eu vou deixar vocês conversando enquanto olho umas vitrines. – Interrompeu Carol.

– Tudo bem, amor, vai lá.

E ficaram os dois homens a sós.

– Cara, eu disse que era só tu beijar uma lésbica que ela virava hetero.

– Pois é, tava certo mesmo.

– Mas você também fodeu com tudo, né?

– Como assim?

– Porra, cara, era só pra beijar e largar. Pensa em quanta gata que não podia estar disponível agora.

– Velho, você tá dando em cima da minha namorada?

– Não! Não só ela, várias outras. As amigas dela e tal.

– Cara, pára.

– Pensa, a Inês, a Vera, cara! Termina com a Carol.

– Na boa, não é engraçado.

– Você não está entendend…

Antes que pudesse continuar, Tiago agarrou Felipe pelo colarinho e deu nele o mais intenso beijo que já deu em qualquer pessoa. Felipe olhou para ele e foi se afastando enquanto gaguejava:

– E…E…Eu nunca tinha… nunca pensei sobre isso… eu… eu preciso ir!

E saiu correndo no meio do shopping, sem olhar para trás. Na semana seguinte, Felipe começou a sair com Marcos.

Sobre Bonecas Assustadoras

abril 12, 2013

Luciano estava farto da vida na cidade grande. Trabalho, transito, barulho, poluição. Não queria mais. Estava farto, cansado, estressado. Resolveu, então, que sairia da cidade. Daria um jeito de viver em um lugar mais tranquilo, longe de tudo o que lhe perturbava. Vendeu seu apartamento a vista. Passou no banco e retirou todo o seu dinheiro. Colocou tudo dentro de uma sacola e entrou no carro, sem um destino muito certo.
Após algumas centenas de quilometros, avistando cada vez menos placas e mais árvores, Luciano se deparou com uma pequena cidade. Era simpática naquela maneira rupestre. Pequena e antiga como as vilas européias dos contos de fadas. Resolveu, então, que aquele parecia um bom lugar para trocar de vida. Tudo ali era simples e prático. As pessoas se cumprimentavam na rua. Perfeito.
Andou por algumas ruas, pediu algumas informações, e logo estava na imobiliária da cidade. O atendente ficou surpreso ao ver um rosto desconhecido. Aparentemente aquilo era raro na pequena cidade que nem prédios possuía. A impressão de Luciano era de que a imobiliária fazia as vezes de um pequeno jornal, sendo a sua única função divulgar quem estava vendendo o que, já que todos se conheciam na cidade mesmo.
– Em que posso ajudar? – Perguntou o vendedor, sendo genuinamente simpático
– Olá, eu estou querendo me mudar e estou procurando uma casa nessa cidade. Vocês tem algo a oferecer?
– Oh, o senhor está com sorte. Estamos com vários terrenos disponíveis, mas receio que sejam praticamente todos nos arredores da cidade e…
– Não, não. Perdão. Eu estou procurando um lugar para me mudar imediatamente. Não posso esperar para construir uma casa.
– Oh… Nesse caso – O jovem começou a remexer em alguns papéis – Eu receio informar que… não, espere! Temos uma casa, sim, mas…
– Mas?
– Ahn? Ah, nada. Temos uma casa, no topo da colina. O senhor gostaria de vê-la?
– Sim, por favor.
Saíram da imobiliária e entraram no carro da empresa. O atendente sorria, tranquilo, enquanto falava um pouco sobre a cidade. As ruas eram todas de paralelepípedo e as casas de estilo europeu. A vila surgiu por acidente. Os antigos senhores ricos das terras ao redor construíram uma pequena aldeia de verão, onde passavam as férias apenas entre pessoas selecionadas. Mandavam, porém, criados para tomar conta das casas durante o ano e deixar as coisas em ordem. Com o passar dos anos e a decadência dos senhores, os criados passaram a povoar a vila, que manteve seu aspecto de luxo simples das férias de campo.
Após andar por três ou quatro ruas, o carro saiu do caminho da cidade e seguiu por uma pequena estrada de terra. A medida que as árvores rareavam era possível observar uma casa maior e mais suntuosa que as demais. Era pintada de cores escuras e parecia ligeiramente abandonada, como se não recebesse visitantes há anos. O atendente da imobiliária tirou um grande molho de chaves do bolso e utilizou a maior delas para abrir a porta da frente. Havia muita poeira e teias de aranha nos móveis.
– Perdoe o estado da casa, ela não é muito visitada. As pessoas não se interessam em comprá-la.
– Estou vendo, mas porque não? É muito cara?
– Não, não foge muito do padrão das outras. Deve ser pela distância da cidade, sabe? A estrada de terra. As pessoas querem comodidade.
– Hum…
A casa era enorme. Havia um quarto com banheiro, um quarto de hóspedes, um banheiro social, uma sala de estar com lareira, cozinha, área de serviço e sótão. Os móveis remetiam ao século XVIII, de madeira, pesados e detalhados. As paredes precisavam de uma pintura, as portas rangiam um pouco e o sótão estava trancado. A chave provavelmente estava na imobiliária. Mas com uma ou duas semanas de trabalho a casa estaria como nova. Luciano fechou negócio. A casa mobiliada custou menos do que seu antigo apartamento na cidade e era quase duas vezes maior.
Os dois voltaram, então, para a cidade. Luciano assinou alguns papéis e pegou as chaves do imóvel. A chave do sótão não foi encontrada e já estava no final da tarde. O atendente se desculpou e prometeu providenciar a chave o quanto antes, mas Luciano não se importou com a demora. Não usaria o sótão tão cedo mesmo.
Após fechar negócio, entrou no seu próprio carro e foi até seu novo lar. O sol estava quase se pondo. Apesar de antiga, as instalações elétricas da casa eram muito boas. Luciano varria e tirava o pó dos móveis ao mesmo tempo que ia descobrindo certos detalhes sobre os mesmos. Havia algumas marcas de faca na mesa da cozinha, arranhões nas poltronas da sala e uma mancha escura no corredor que levava aos quartos. As paredes estavam descascando, mas poderiam esperar alguns dias para receber uma pintura.
Não havia comida na casa, então, a noite, Luciano comeu apenas alguns biscoitos que possuía dentro do carro. Estava cansado da viagem e da faxina, então resolveu dormir cedo. No dia seguinte lavaria as paredes e os pisos e iria até a cidade comprar algumas antiguidades para decorar a casa. Suas roupas já estavam no guarda roupa e seu grande saco de dinheiro da cidade estava ao lado da lareira.
Luciano deitou sob os lençóis e dormiu. Ou tentou. Acordou no meio da noite ouvindo um barulho muito alto no sótão. Parecia o movimentar de móveis e uma risada abafada. Quando tentou acender as luzes, viu que o interruptor não funcionava. Pegou então uma lanterna e seguiu, lentamente, até a escada que dava para o sótão. No meio do caminho se armou com um espeto de ferro que decorava a cozinha.
Com a lanterna em uma mão e o espeto na outra, Luciano encarava a porta do sótão, agora silencioso. Com a mão da lanterna, tentou abrir a fechadura. Para sua surpresa, a porta estava aberta. O feiche de luz da lanterna captou alguma coisa se movendo na escuridão. Movendo a luz, porém, tudo o que ele viu foi um vestido velho sobre uma cadeira. Do outro lado do sótão, porém, havia uma boneca assustadora. Os cabelos estavam cortados em comprimentos diferentes, o vestido sujo e as mãos retorcidas. Um dos olhos estava fechado e o outro aberto. A boca se retorcia em um estranho sorriso.
Enquanto Luciano a observava, o olho que estava fechado abriu e fechou novamente, em uma piscada lenta. O outro olho estava sempre aberto. Rapidamente ele voltou para a escada e fechou a porta do sótão atrás de si. Subitamente, acordou em sua cama com o sol em seu rosto.
Convencido de que foi tudo apenas um sonho, Luciano levantou da cama e se preparou para um novo dia. Tomou um longo banho e se preparou para sair de casa. Iria comprar algumas antiguidades para decorar a casa e na volta lavaria os pisos e as paredes. Até o fim da semana ainda tinha planos de pintar a casa e começar um jardim.
Entrou no seu carro e dirigiu pela estrada de terra batida. A cidade não ficava exatamente longe, talvez um quilometro ou dois, se muito. Para andar a pé até seria uma distância a considerar.
Primeiro Luciano procurou um mercado, onde comprou frutas, verduras, carnes e comida de forma geral. Não poderia viver de biscoitos para sempre. Depois parou em um pequeno restaurante para almoçar. De forma geral, todos pareciam excessivamente simpáticos e receptivos com ele, embora ninguém fizesse nenhum tipo de pergunta pessoal. Ninguém se interessava sobre de onde ele veio, se tinha família, nada. Parecia algo até mesmo atípico para uma cidade pequena.
No começo da tarde, deixou o carro estacionado em frente ao restaurante e saiu caminhando. Faria digestão, conheceria a cidade e procuraria uma loja por conta própria. As ruas eram tranquilas, tudo parecia perto e silencioso. Haviam mercados, lojas de roupa e casas. Muitas casas. Era aquilo que Luciano precisava, fugir da cidade grande.
Encontrou, depois de algum tempo caminhando, um antiquário. Estava vazio, então Luciano pode observar a vontade os produtos. Haviam baús, vasos, móveis, quadros, e uma série de outros objetos. Todos muito delicados. Luciano não sabia bem o que estava procurando, então observava tudo com interesse. Levou um susto ao perceber que não estava mais sozinho na loja. Sentado em uma cadeira, ao fundo da loja, estava um senhor de muita idade. Usava uma longa barba cinzenta e vestia roupas simples. Seu olho esquerdo vagava desnorteado, enquanto o direito estava fixo no cliente.
– Oh, olá, eu só estou dando uma olhada aqui.
O velho riu. Só então Luciano percebeu que estava em seu colo uma pequena caixa de madeira de um forte tom escarlate ornamentada de pequenos detalhes e fechadura prateados. Luciano pôde ouvir os ossos do velho estalando a medida que movia a mão para lhe estender a caixa. Depois de pegar a caixa o velho estendeu a chave. Uma pequena e suja chave prateada. Ao observar de perto, Luciano percebeu que o seu nome estava escrito na chave, e logo sabia, de alguma forma, o que estava dentro da caixa.
Com cuidado, Luciano colocou a chave na fechadura e girou. A tampa fez um leve estalo, revelando que poderia ser facilmente aberta. Ao empurrá-la para cima, Luciano encontrou a mesma boneca do seu sótão. O mesmo cabelo mal cortado, as mesmas roupas sujas e o mesmo olho que não se fechava, olhando fixamente para ele. Fechou a tampa com força e olhou novamente para o velho, mas ele não estava mais ali. Havia apenas a cadeira de madeira. Luciano então saiu da loja e voltou para seu carro. Dirigiu apressadamente até sua casa e só então se deu conta de que ainda carregava a caixa de madeira.
Levou a caixa até o sótão e a largou lá dentro, sem nem mesmo se perguntar como a porta estava destrancada. Assustado e desesperado, mas sem saber o que fazer, Luciano foi cuidar do jardim. Ficar exposto a luz do sol lhe faria bem. Cavou alguns buracos na terra, arrancou mato e ervas daninhas, cortou a grama. Não tinha sementes ainda, mas, se tudo desse certo, poderia plantar flores e árvores frutíferas ainda no dia seguinte. Depois decidiu que lavaria o chão da casa. Ao chegar na área de serviço em busca de baldes e escovão, porém, Luciano encontrou, novamente, a boneca. Parada, sobre o armário, observando. Assustado, pegou os baldes e saiu. Sem tocar na boneca. Quando chegou na sala, porém, viu que ela estava lá. Sobre a lareira. Observando. A boca moldada naquele sorriso torto.
Luciano correu de volta para a área de serviço, apenas para confirmar o que temia: A boneca não estava lá. Não era outra boneca. Era a mesma. Voltou, cautelosamente para a sala. A boneca estava lá. Seu olho sempre aberto. Luciano riu. Riu alto. Encheu os baldes com água e começou a limpar o chão, sendo observado pela boneca. Quando terminou a sala e passou para o corredor, lá estava ela novamente. E quando foi jogar a água suja fora de casa, a boneca esperou do lado de dentro, olhando pela janela. Observando.
Quando a noite chegou, Luciano tomou um banho e vestiu seu pijama. Foi até o seu quarto e viu, novamente, a boneca. Sob sua mesa de cabiceira, apenas esperando. Ele riu. Um riso desesperado. E deitou na cama. Virava para um lado, virava para outro. Toda vez que fechava os olhos podia sentir a boneca observando. Desistiu, então, de tentar dormir. Foi até a cozinha preparar um chá. Esquentou a água, colocou o sachê e colocava mel tranquilamente quando escutou uma voz fraca e aguda, como uma criança:
– Você realmente precisa de todo esse mel?
Era a boneca, sentada na mesa.
– Ok, agora chega!
Luciano violentamente agarrou a boneca e a levou para o sótão. Abriu a caixa de madeira e jogou a boneca dentro, trancando logo em seguida. Carregou a caixa para baixo até a sala de estar, onde a jogou na lareira. Em seguida pegou alcool e fósforos e colocou fogo na caixa, logo ao lado do saco de dinheiro da cidade grande.
Luciano ria desesperadamente enquanto via a chama acender e a sala se encher de fumaça. A chaminé devia estar fechada e Luciano não poderia abrir agora que as chamas estavam altas. Quando foi abrir a porta para sair dali, porém, percebeu que estava trancada. A porta que levava até o corredor também não abria. A fumaça começava a tomar conta de toda a sala e tornava difícil a respiração.
Ele correu então até a janela, na esperança de um pouco de ar. Qual não foi a sua surpresa ao perceber que ali, do outro lado da janela, estava a boneca. Observando com seu olho sempre aberto. Não era ela quem estava na caixa em chamas. Era ele.

Sobre Loucura

abril 8, 2013

Ninguém lembrava ao certo quando o velho louco apareceu na cidade. De repente, no raiar de uma aurora qualquer, lá estava ele, conversando com os pombos. Usava uma longa barba cinzenta que ocultava uma camiseta verde musgo por baixo de um moleton azul claro. As calças jeans estavam surradas e os sapatos marrons quase furando. Não cheirava mal, não era sujo, só pobre, velho e louco.
Diziam as más linguas que era fugitivo da polícia, mas ninguém nunca apareceu para procurá-lo. E também, nunca causou nenhum tipo de tumulto para merecer a atenção das autoridades. Os policiais até procuraram por algum registro ou informação sobre ele. Sabiam apenas que se chamava Lucca.
Qualquer tentativa de conversar com o velho era infrutífera, resultando apenas em estresse, desespero ou ainda risos, dependendo do ponto de vista do interlocutor. O velho falava sobre como eram bonitas as cores da liberdade e sobre como ele gostaria de um pastel com o mesmo sabor. Quando menos inspirado, falava apenas com as pombas, ignorando qualquer um que se aproximasse. Sussurrava sobre os nutrientes presentes nos diferentes tipos de pão.
O velho louco morava sozinho em um quarto nos fundos de uma pensão. A dona da pensão dizia apenas que ele pagava, e nem ela e nem ninguém sabiam informar de onde ele tirava o dinheiro. O velho não trabalhava e muito menos pedia esmola. Vez ou outra alguém lhe pagava um almoço. “Não tem cor de liberdade”, ele dizia. “Tem gosto de vórtex caleidoscópico ambidimensional”, ele dizia. E ninguém entendia. Mas tudo bem, porque o velho louco era louco, afinal de contas.
A cidade não era grande, tampouco pequena. O velho louco não era o único louco – e muito menos o único velho. Havia a Lurdinha, uma senhora com cerca de sessenta anos, vinte quilos e hábito de tirar a roupa no meio da rua. O Zé da Paulista – grande Seu Zé! – vivia dizendo que era o fundador da Avenida Paulista. E o dono também. As vezes era dono, as vezes fundador. E haviam alguns outros, também, menos famosos. Gente que perde a cabeça e nunca mais encontra. Gente que só queria um pastel de liberdade que não tivesse gosto de vórtex caleidoscópico ambidimensional.
Mas acontece que em um crepúsculo qualquer, um forasteiro chegou a cidade. Era fim de tarde e ele pensou em passar a noite na pequena cidade antes de prosseguir viagem. Parou em uma pequena pensão e pediu por um quarto para passar a noite. A dona, muito simpática, ofereceu um quarto vago e disse para o viajante não se incomodar com os outros hóspedes.
Sem entender muito bem, o recém-chegado largou as suas malas no quarto e desceu novamente a fim de tomar um copo d’água. Da cozinha, ouviu a porta da frente se abrir e se fechar. Curioso e querendo se mostrar simpático, o novato foi até a sala dar um “olá”. Dizer “eu existo, eu vi você, não vamos nos perturbar mutuamente porque amanhã vou embora”. Ao baixar os olhos sobre a figura do velho, porém, o estranho exclamou, surpreso: Lucca!
O velho, surpreso e nervoso, tentava balbuciar alguma coisa, mas era tarde. O outro já estava com os braços ao redor do seu corpo, em um fraternal abraço. “Que disfarce é esse, cara? Por que a barba? Você não sabe o quanto nós te procuramos!”
A dona da pensão apareceu do alto da escada, abismada. O velho louco tinha amigos? Conhecidos? Família, talvez? Mais assustada ficou ao ver o velho levar a mão a barba e retirá-la do rosto com um gesto vagaroso. Por baixo do disfarce havia um homem que não devia ter mais de trinta e cinco anos. O que estava acontecendo?
“Obrigado, Renato.” o tom do velho – que não era velho – oscilava entre o cinismo e a mais pura raiva “Você conseguiu. Me achou. Feliz agora?”
“Eu não entendo, Lucca. Porque isso? Você saiu sem dizer nada, não avisou ninguém. Ninguém te achava”
“Bom, talvez porque eu não quisesse ser achado.”
“Mas agora eu te achei e eu quero uma explicação.”
“Já que ferrou com tudo mesmo, porque não, né? Eu tava cansado. Cansado daquela maldita empresa, de ter que lidar com as pessoas todos os dias, ouvir os problemas delas, ter que ser simpático, porra, porque é que as pessoas não podem viver suas vidas sem interferir nas dos outros? Para que tanto contato? Aí eu peguei toda aquela grana que eu nem sabia onde usar mesmo e me mandei pra cá. Um lugar pequeno onde eu podia evitar todo tipo de gente. Eu só queria ser uma espécie de heremita. Eu só queria que me deixassem em paz. Sem amigos. Sem inimigos. Só eu.”
“Se fazendo passar por louco.”
“Estava funcionando. Mas aí não! Tem que aparecer o Renato no meio do nada e me reconhecer por trás do disfarce. Vai se ferrar, cara.”
Lucca simplesmente passou pelo amigo e entrou no seu quarto, nos fundos da pensão. Nem dois minutos depois saiu com a mala na mão.
“E agora eu vou precisar de outro disfarce e outra cidade pequena. Valeu, cara. Valeu mesmo.”
E foi embora sem dizer para onde.

Sobre Escritores

abril 2, 2013

Lucas não sabia bem o que esperar. Estava a toa pela universidade quando leu o cartaz que informava sobre o evento daquela noite. Uma palestra com o famoso escritor Estefano Reis. Lucas não era escritor e muito menos aluno do curso de letras. Lucas era apenas um estudante de Administração que esperava sua namorada sair da aula de prática de enfermagem. Ele estudava no turno da manhã, ela no turno da noite. Naquela noite em especial completariam seis meses de namoro e jantariam juntos para comemorar. Nada muito refinado ou elegante. A bem da verdade, iriam comer um cachorro quente e, mais tarde, assistir um filme.
Acontece que a casa de Lucas ficava longe da universidade, que por sua vez ficava longe do local onde ele trabalhava que, também, ficava longe de casa. Ao sair do trabalho, se optasse por voltar para casa, mal chegaria e já se veria obrigado a sair novamente. Sendo assim, saiu do trabalho e foi diretamente para a universidade. Tinha uma hora e meia livre antes da aula de sua namorada terminar.
Dessa forma, Lucas resolveu assistir a palestra. Parecia melhor do que ficar observando os pombos. De qualquer forma, se estivesse equivocado, poderia sair da palestra a qualquer momento. Os pombos ainda estariam por ali. Os pombos estavam sempre ali.
Entrou no auditório despretenciosamente e varreu o local com os olhos. Os acadêmicos possuiam um perfil engraçado, quase extraterreno, em comparação ao que o rapaz conhecia. Sujeitos barbados e de roupas simples, meninas de espírito livre e cabelos presos. Bem diferente do que estava acostumado. Bem diferente dele.
Lucas não era exatamente um sujeito chamativo. Vestia uma camiseta e calça jeans, um tênis um pouco surrado e carregava uma mochila. Tinha o cabelo curto e não usava barba. Era o que se pode chamar de jovem típico. Nada muito fora do comum. Morava com os pais, tinha uma namorada, estudava e trabalhava meio período. Comum. Lucas era comum.
Não encontrou nenhum conhecido no auditório e procurou sentar-se longe de desconhecidos. Acabou por sentar no meio da platéia. Nem muito longe, nem muito perto. Próximo a porta, caso quisesse fugir de um escritor chato que falava de coisas chatas. Estefano Reis era um daqueles nomes muito famosos dos quais ninguém realmente conhece. Lucas sabia que ele era o autor do famoso livro “A Espera de uma Coisa”, que ele nunca lera. Também dava palestras que ele nunca ouvira e lecionava em uma universidade que ele nunca frequentara. Mas era um sujeito famoso.
Pouco depois de sentar, Lucas viu dois homens entrarem no auditório. Um era velho, já grisalho e enrugado. Vestia um terno surrado e sujo de giz, além de carregar alguns livros. Era, obviamente, um professor. O outro era um pouco mais novo, provavelmente perto dos quarenta anos, cabelo curto e barba por fazer. Vestia uma camiseta branca por baixo de um blazer preto. Simples e eficaz. Provavelmente o escritor.
O primeiro homem, mais velho, subiu ao palco. O outro se sentou. Formalidades. O professor Küerten – esse era seu nome – apresentou brevemente o autor e logo se retirou. O escritor foi até o palco, pegou o microfone, agradeceu a instituição, ao professor, aos acadêmicos, aos escritores, aos demais presentes, só faltando agradecer aos pais e a Xuxa.
O tema da palestra era bastante simples, ainda assim parecia assombrar a maioria dos presentes: Como começar uma história. Era o começo de uma série de palestras voltadas para escritores amadores. Os temas variavam sobre como começar, como manter o foco, como trabalhar tramas paralelas e, por fim, como encerrar.
Lucas não se interessava por nada disso, mas ainda tinha uma hora para esperar. Além do mais, Estefano era um homem enfático. Falava alto, gesticulava bastante e tinha energia o suficiente para não deixar que os presentes morressem de sono. “Muitos aqui, imagino” ele falava “já devem ter tido excelentes ideias para escrever. Mas então, ao se depararem com a folha em branco, pensavam: E agora?”.
“Para alguém que vai ensinar a começar um livro” pensava Lucas “ele escolheu um grande clichê para começar uma palestra.” E era verdade. Muito embora todos parecessem atentos, ninguém parecia impressionado. O sujeito parecia impressionante, mas não falava nada que já tivessem escutado ou deduzido. Bloqueio criativo, medo da folha em branco, dificuldade de organizar pensamento. Todos ali – com a exceção de Lucas e, muito provavelmente, da velhinha na terceira fila que parecia não saber ao certo o que se passava por ali – já sabiam dessas coisas. Estavam ali para descobrir como evitar essas coisas.
“O segredo” disse, subitamente, o palestrante “é pensar primeiro no personagem e depois na história. Muitos fazem o contrário. Quando elaboramos uma história medieval e jogamos lá um cavaleiro, fica dificil trabalharmos a personalidade dele, porquanto o vemos apenas como cavaleiro. Agora, quando criamos um órfão rico que opta por defender o rei, é muito mais fácil construir uma história medieval a partir dele.”
Os alunos tomavam notas. Criar personagens antes de criar histórias. Lucas não sabia se aquele era um conselho bom ou ruim. Lucas não sabia nada e também não sabia se queria saber. O autor falava, empolgado, do processo de criação de seus livros. Sobre como cada personagem era um filho para ele. O autor criava o personagem e imaginava um leve tema ou objetivo para este. O resto se desenvolvia por conta. Para começar, bastava levar o personagem ao tema.
“Vamos fazer uma didática aqui, pessoal. Vamos escrever uma história.” Disse o palestrante “Vamos imaginar um sujeito normal. Vinte e poucos anos, estudante, mora com os pais. Ele tem uma namorada? Sim, vamos dar a ele uma namorada. E um emprego. Não há meio de ser mais normal do que isso. Ele deve ter um nome normal, usar roupas normais, frequentar lugares normais.”
“E o que um cara tão normal pode fazer?” perguntou uma moça na platéia. “Ora, aí que está o truque da escrita. Eu disse que precisamos criar o personagem antes da história, mas não antes da ideia de história.” Começou o escritor “Devemos ter em mente se queremos um romance, uma aventura ou uma ação. Aí criamos o herói e o deixamos livre. Nosso sujeito pacato não viverá um romance. Ele viverá um horror psicológico. Ele é um sujeito tão pacato, mas tão pacato, que surtará ao descobrir a verdade!”
Lucas ouvia, atento. Alguma coisa dentro dele dizia que aquilo era importante. Nunca parara para pensar no que seria um jovem comum. Um personagem clichê. Não era clichê, na verdade. Era apenas comum. E nunca havia percebido o quão comum ele era. Sentia-se levemente incomodado com a palestra. Não sabia bem porque. Por outro lado, não podia sair. Não queria sair. Queria ir até o final. Nem olhava mais para o relógio.
“Um sujeito comum não tem acesso a informações confidenciais. Um sujeito comum não tem super poderes e nem contatos com a máfia. Esse jovem estava apenas indo buscar a namorada para jantar e a verdade veio e lhe deu um tapa na cara. Derrubou-o no chão e fez seu mundo desabar. É assim que se começa uma história, meus jovens. Você tem um personagem e você dá a ele um objetivo. Você começa falando do quão pacato ele é e termina na grande virada, ou no grande beijo ou na inevitável tragédia. No nosso pequeno exemplo, terminamos na verdade.”
“Mas Sr. Reis” perguntou um senhor de meia idade “Esse não seria o desenrolar da trama? Mesmo criando um personagem, por onde eu começo?”
“Muito bem, senhor. Está quase correto.” continuou o palestrante “Mas ao ter um personagem e uma meta, você saberá identificar o começo, o meio e o fim. Quer dizer, o começo será sempre o nascimento, o fim será sempre a morte. Assim é a vida. Resta saber o quanto disso você considera importante. No nosso pequeno exercício, o começo é irrelevante e não precisamos chegar até o fim. Apenas a verdade basta.”
“No nosso pequeno exemplo, esse garoto veio de algum lugar por algum motivo. E isso não nos interessa. Esse jovem comum está indo buscar a sua namorada comum. Eles se conheceram no passado, mas isso não nos importa. Eles vão jantar juntos e, por algum motivo, isso nos importa.” o escritor parecia animado “o importante é não omitir fatos importantes que possam prejudicar o entendimento da verdade.”
Lucar perdia a noção do tempo. Porque tudo aquilo parecia tão familiar? Quem era aquele cara? Por que ele resolveu assistir justamente aquela palestra?
“Nosso jovem rapaz não vai salvar o mundo. Nem ao menos terá chance de se despedir da sua namorada. Ele vai ser atacado pela súbita realização e o livro termina. Porque um livro começa onde deve começar e termina onde deve terminar.”
“Nenhum personagem pode mandar no escritor. E o nosso pequeno jovem não pode fugir daquilo que o atormenta. Ele não quer, mas ele precisa descobrir a verdade…”
“Mas e qual é a verdade!?” gritou Lucas, antes mesmo que pudesse perceber o que fazia. Estava de pé, no meio do auditório, suando. Suas mãos tremiam e o coração batia acelerado. Ele sabia. Ele não queria acreditar, mas ele sabia.
O escritor sorriu, cínico.
“A verdade, jovem Lucas, é que você não existe. Eu criei você.”